Genoino: “Temos que dialogar com a maioria do povo”

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Por Dafne AshtonBrasil 247

247– O ex-presidente do PT José Genoino defendeu que a esquerda reorganize sua atuação eleitoral em torno do diálogo direto com a maioria da população, deslocando o centro da campanha para os problemas concretos enfrentados pelos trabalhadores e para as propostas de futuro. Em sua avaliação, a disputa não pode ficar subordinada às crises institucionais, às pesquisas eleitorais ou à agenda estabelecida diariamente pelos grandes meios de comunicação.

Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Genoino afirmou que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa combinar comunicação, mobilização popular e apresentação de propostas. Para ele, o ponto de partida é compreender que existe uma disputa sobre quais assuntos estarão no centro da eleição.

“O Brasil está dividido entre uma elite autoritária, racista, patriarcal, colonialista e a maioria do povo. E nós temos que dialogar com a maioria do povo”, afirmou.

Segundo Genoino, a esquerda precisa estabelecer sua própria agenda eleitoral. Em vez de concentrar a campanha em respostas sucessivas às pautas colocadas pela imprensa ou pelos adversários, ele defende que Lula e os partidos que o apoiam apresentem compromissos relacionados à renda, ao trabalho, à democracia e à soberania nacional.

Nós da esquerda temos que propor nossa pauta, a pauta dos direitos do povo”, disse. Na avaliação do ex-presidente do PT, a campanha precisa tratar de salário mínimo, trabalhadores de aplicativos, direitos das mulheres, população negra, povos originários e juventude, além de apresentar o significado concreto da soberania nacional em áreas como alimentação, meio ambiente, tecnologia e defesa.

Genoino argumentou que essa mudança também exige alterar a maneira como a campanha apresenta o próprio governo Lula. Para ele, prestar contas das políticas implementadas desde 2023 é necessário, mas insuficiente para uma eleição que precisa responder às expectativas sobre os próximos anos.

Nós não temos só que prestar conta do que fizemos, temos que fazer mais. O povo quer mais”, declarou.

A ideia, segundo ele, é transformar as realizações do governo em ponto de partida para compromissos futuros. “Nós não vamos fazer uma campanha centrada no passado. Nós temos que fazer uma campanha olhando para a frente. Qual é a pauta do povo que a gente se compromete a defender ganhando a eleição? Nós temos que dizer isso”, afirmou.

Disputa pela juventude e pelo futuro

Genoino dedicou parte de sua análise à necessidade de recuperar uma dimensão de futuro na comunicação da esquerda. Para ele, a juventude ocupa uma posição central nessa disputa porque é alvo de discursos baseados no individualismo, na competição e na ideia de que problemas coletivos devem ser solucionados exclusivamente por iniciativas individuais.

Nesse terreno, afirmou, não basta apresentar indicadores econômicos ou resultados administrativos. A esquerda precisa discutir expectativas sobre trabalho, renda, participação política e perspectivas de vida.

Nós temos que disputar a juventude com uma pauta que discuta o sonho, a utopia, a esperança”, afirmou.

Para Genoino, essa disputa ocorre em um ambiente no qual a lógica de mercado influencia não apenas as relações econômicas, mas também a forma como as pessoas interpretam sua posição na sociedade. Ele relacionou esse processo à disseminação da meritocracia e do individualismo e defendeu que a esquerda confronte essa concepção por meio da organização coletiva.

“Pensar, se esclarecer, é uma atitude revolucionária”, resumiu.

Das redes sociais às ruas

A principal mudança prática defendida por Genoino é a ampliação da mobilização presencial. Embora reconheça a importância das redes sociais, da propaganda eleitoral e dos veículos de comunicação do campo democrático, ele considera insuficiente uma campanha baseada principalmente nesses instrumentos.

Tá faltando a candidatura do Lula e ao PT ocupar as ruas com corpo a corpo, com manifestação, com aquilo que a gente sabe fazer”, afirmou.

Segundo Genoino, a militância precisa atuar simultaneamente nas redes e em estações de transporte, locais de trabalho, bairros, pequenas cidades, comunidades e áreas de circulação popular. Ele citou rodas de conversa, panfletagens, carreatas e atos públicos como instrumentos para estabelecer contato com eleitores que não acompanham diariamente o debate político.

A defesa dessa estratégia parte da avaliação de que parte significativa da população recebe informações políticas de maneira fragmentada. Por isso, segundo Genoino, a esquerda não pode esperar que entrevistas, programas eleitorais ou conteúdos digitais substituam o contato entre militância e eleitorado.

A gente tem que sair da condição de espectador para a condição de protagonista”, disse.

O ex-presidente do PT defendeu que PT, PSOL, PCdoB, PSB, PDT, Rede e PV, em conjunto com organizações dos movimentos sociais, estruturem uma frente permanente de mobilização durante a campanha. Ele chegou a propor a criação de um “comando nacional de mobilização política” para organizar ações no primeiro e, caso necessário, no segundo turno.

“Ganhar corações e mentes”

Genoino considera que existe disposição para uma participação maior da militância, mas avalia que essa energia ainda precisa ser organizada nacionalmente. “Eu estou sentindo que há um potencial, porque as pessoas estão clamando, as pessoas estão querendo, as pessoas querem ir para a rua, querem fazer carreata, querem fazer panfletagem”, afirmou.

Para ele, recuperar a mobilização também significa retomar características de campanhas anteriores do PT, nas quais a militância tinha presença cotidiana nos espaços públicos. Genoino citou a campanha presidencial de 1989 e a eleição de 2014 como referências de disputas nas quais o enfrentamento político com os adversários ocupou posição central.

A militância tem que ser resgatada no ‘sem medo de ser feliz’, como foi em 89”, afirmou.

Essa mobilização, segundo Genoino, deve estar vinculada a um programa. O objetivo não seria simplesmente aumentar a presença física da campanha, mas fazer das ruas um espaço para explicar propostas, disputar interpretações sobre o país e apresentar diferenças entre os projetos eleitorais.

Nós temos que tomar a nossa iniciativa para ganhar corações e mentes com o futuro, que é a esperança”, disse.

Ao defender o diálogo com a “maioria do povo”, Genoino sustenta, portanto, uma mudança simultânea de conteúdo e método: colocar direitos sociais, trabalho, democracia e soberania no centro da campanha e levar essa discussão para os locais onde a população trabalha, circula e vive.

Nós temos que levantar a população, discutir com a população. E a gente só faz isso no corpo a corpo”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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