GAFFFF 2026: Demanda por etanol deve disparar e Brasil terá de ampliar produção, diz Henrique Amorim, presidente do APLA

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Por Leonardo Sobreira — Brasil 247

247 – O avanço de novas tecnologias na agricultura, na aviação e no transporte marítimo tende a ampliar de forma significativa a demanda por etanol nos próximos anos, em um movimento que vai além do combustível produzido a partir da cana-de-açúcar. Para Henrique Berbert de Amorim Neto, presidente do APLA (Arranjo Produtivo Local do Álcool), diferentes soluções tecnológicas estão convergindo para o uso do etanol como alternativa de redução das emissões, enquanto o etanol de milho desponta como a principal nova fronteira de expansão da produção brasileira.

Em entrevista ao Brasil 247 durante o GAFFFF (Global Agribusiness Forum), em São Paulo (SP), Amorim também rejeitou as críticas de que os recentes aumentos da mistura de etanol na gasolina poderiam prejudicar motores, classificando esse argumento como uma falácia. Segundo Amorim, a experiência brasileira desde 1975 e os estudos realizados por empresas e universidades mostram que não há problema no aumento da mistura. O presidente do APLA destacou ainda a parceria com a ApexBrasil para ampliar a exportação de tecnologia brasileira, além da crescente demanda de etanol para SAF e combustível marítimo, cenário que, em sua avaliação, exigirá do Brasil um aumento expressivo da capacidade produtiva.

Confira a íntegra da entrevista com o presidente do APLA:

Leonardo Sobreira: Como o setor evoluiu nos últimos anos e quais são as principais perspectivas para os próximos?

Henrique Amorim: É interessante analisarmos o mercado em seu contexto atual considerando todo o período desde o início do Próálcool (Programa Nacional do Álcool). O Próálcool iniciou em um momento de uma crise do petróleo muito grande, e o Brasil com uma dívida externa muito grande precisava reduzir essa importação. O grande objetivo no início do Próálcool foi justamente reduzir a importação de petróleo. De lá para cá, a tecnologia desenvolvida em relação ao etanol cresceu tanto que o país saiu lá de 1975 de 68 milhões de toneladas de canas moídas para mais de 700 milhões de toneladas no final desse ano. Portanto, cresceu tudo: a produção de etanol, de açúcar e de energia elétrica. E o que mudou de lá para cá? Além da demanda por carros leves, com o carro flex, houve a diversificação em relação a outros produtos. Se falarmos de etanol hoje, a grande oportunidade, além dos carros leves, é o que vemos na revolução na área agrícola. Grandes empresas e multinacionais estão trabalhando com tratores e colhedoras de cana com motores a etanol. Há outras tecnologias de empresas agrícolas trabalhando até com motores flex, em que você consegue colocar 30% até de etanol no motor a diesel. Ou seja, a despeito da tecnologia que vai liderar, todas estão convergindo para o etanol, para que a pegada de carbono seja cada vez menor. A curto prazo, acredito que a maior demanda vem justamente da área agrícola, não só da cana, mas de grãos também.

LS: É preciso desmistificar um pouco o debate em torno do etanol. Ainda há muita gente que afirma que o combustível desgasta o motor ou causa outros problemas ao veículo. O que, de fato, tem fundamento e o que é mito nessa discussão?

HA: Usamos o motor a etanol desde 1975, e isso, é claro, com uma tecnologia muito mais obsoleta do que as disponíveis hoje. Nunca tivemos problema com o motor a etanol. Pelo contrário, ele só vem melhorando. Existe essa história, que começou principalmente com o aumento da mistura do etanol na gasolina, mas ninguém aumenta a quantidade de etanol na gasolina sem um estudo muito aprofundado de tudo o que vai acontecer. Temos vários comparativos com empresas e universidades, todos mostrando que não existe problema algum. Inclusive virou referência o etanol, e a mistura virou referência no mundo inteiro. Hoje, mais de 50 países misturam etanol na gasolina, e com projetos de governo de aumentar ainda mais, assim realmente reduzindo a pegada de carbono da própria gasolina. É uma falácia dizer isso sobre o etanol. O mais engraçado é que isso seja dito aqui no Brasil, onde estamos desde 1975 com carros a etanol, e nunca tivemos problema.

LS: Como o Brasil tem avançado nas exportações de etanol para o mercado internacional? E, particularmente, qual tem sido o papel de instituições como a ApexBrasil no apoio à expansão dessas exportações?

HA: Em relação à parceria do APLA com a ApexBrasil, o grande objetivo é fazer com que a gente venda mais tecnologia brasileira de produção de açúcar, etanol e energia para o exterior. O APLA faz missões internacionais com a chancela do governo para países que já produzem etanol, e países também que têm o potencial de produção muito grande, para cana e para milho. É exatamente esse o objetivo. Temos uma meta de exportação para todos esses países. Os associados do APLA são empresas de tecnologia na área agrícola e na área industrial.

Agora falando um pouco mais do mercado de etanol, existe sim uma uma oportunidade de aumentar muito a demanda relacionada à parte de equipamentos agrícolas, mas também para exportações para SAF (Combustível Sustentável de Aviação) e para bunker marítimo. O bunker marítimo já aconteceu este ano. Isto é, abastecer um navio transoceânico com etanol, o que é super importante. Já existe uma infraestrutura para isso. A Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, tem parcerias com a própria China de comercializar transatlânticos totalmente a etanol. Eles têm uma meta de descarbonização até 2050 e a rota que foi escolhida foi o etanol. Existe uma demanda tão grande por etanol que nós teremos que produzir muito mais do que temos capacidade. Só para se ter uma ideia, em relação ao SAF, até 2050 vamos precisar produzir mais de 500 milhões de toneladas de SAF, se a substituição for total. E existem várias vias de produção de SAF, não só o etanol, mas a do etanol é a mais barata. Vamos imaginar que 10% de todo o SAF produzido fosse através do etanol, teríamos que produzir 400 milhões de litros de etanol.

LS: O país não tem essa capacidade?

HA: Só para se ter uma ideia, hoje a capacidade do etanol de cana no Brasil é de 30 milhões de litros.

LS: E como fazer? Quais as novas fronteiras?

HA: Há novas fronteiras e muito mais produção. O etanol de milho hoje é a principal fonte de aumento de produção de etanol que observamos. Em 7 anos, ele é responsável hoje por quase 30% da produção de todo o etanol no Brasil. No ano passado, foi 25%, e esse ano talvez vá para 30% já. Existe um crescimento muito mais rápido que conseguimos obter com o etanol de milho, justamente por causa da cultura, que você planta e já colhe, em relação à própria cana.

LS: Muito interessante. Obrigado.

HA: Obrigado.

Fonte: Brasil 247

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