Fumantes passivos
Por Drauzio Varella — Carta Capital
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Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de “Estação Carandiru”, livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.
Apesar da demonstração de que não há níveis seguros de exposição à fumaça do cigarro, cerca de 70% da população mundial vive em ambientes sem proteção
Houve um tempo em que fumávamos dentro de casa, nos bares, restaurantes e até nos aviões. A irresponsabilidade era geral e irrestrita. Quando os pneumologistas mais velhos falavam dos possíveis malefícios do fumo passivo, ninguém levava a sério.
Era o tempo em que a indústria do cigarro controlava os meios de comunicação de massa com verbas milionárias. Qualquer jornal, revista, estação de rádio ou de tevê que ousasse falar das doenças causadas pelo fumo sofria retaliações financeiras imediatas.
O crime continuado dessa indústria inescrupulosa manteve a ignorância da população por décadas. Por meio dessa estratégia arregimentou legiões de crianças e adolescentes escravizados pela nicotina, até a morte.
Hoje, estamos cientes de que o fumo não traz sofrimento apenas ao fumante, mas atinge também os que respiram a fumaça dispersa pelos cigarros deles.
A fumaça que se espalha no ambiente vem de duas fontes: a exalada dos pulmões de quem fuma e a que resulta da queima do cigarro no cinzeiro. Essa combustão incompleta carrega por unidade toxinas e compostos carcinogênicos em concentrações mais altas do que as inaladas pelo próprio fumante.
No organismo, o estresse oxidativo causado pelos produtos da combustão, provoca disfunção do endotélio (camada que reveste a parte interna dos vasos sanguíneos) e gera um estado de inflamação crônica. Como consequência há aumento do risco de doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, neoplasias malignas e doenças metabólicas.
As vias aéreas em desenvolvimento e o sistema imunológico ainda imaturo tornam as crianças especialmente vulneráveis.
Os efeitos nefastos do fumo passivo são reconhecidos há décadas. Apesar da demonstração de que não há níveis seguros de exposição à fumaça do cigarro, cerca de 70% da população mundial vive em ambientes sem proteção.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de publicar uma revisão dos principais estudos sobre o fumo passivo no mundo, publicados até 2023.
Aí vão alguns dados:
1. A estimativa é de que em 2023 havia no mundo 2,7 bilhões de fumantes passivos. Entre eles, o número de mortes causadas pela fumaça inalada foi de 1,66 milhão, nesse ano. O número de dias perdidos por absenteísmo no trabalho foi de 44,8 milhões. Esses números mostram queda de 22% em relação aos de 1990, mas, como houve aumento numérico da população, o número absoluto permaneceu estável.
2. Dos 2,7 bilhões de expostos, os mais prejudicados foram as mulheres e as crianças: 1,5 bilhão e 767 milhões, respectivamente.
3. As regiões do mundo com mais pessoas expostas foram (em números aproximados): Sudeste da Ásia, Leste da Ásia e Oceania (48% da população), Norte da África e Oriente Médio (38%), Ásia Central, Europa Central e Leste Europeu (37%). Os menores índices foram nos países desenvolvidos (32%) e na América Latina (24%).
4. Os países com maior prevalência de fumantes passivos foram: China (464 milhões de pessoas), Índia (444 milhões) e Indonésia (142 milhões).
Reunidos, esses países representam mais da metade dos fumantes passivos do mundo.
5. No período de 1990 a 2023, as maiores quedas na prevalência ocorreram na Dinamarca, Noruega, Brasil (queda de 43%), México e Canadá. Os maiores aumentos ocorreram no Catar, Afeganistão, Emirados Árabes Unidos e Timor-Leste.
6. Das 1,66 milhão de mortes de 2023, ocorreram 868 mil entre mulheres e 59 mil entre crianças de 1 a 14 anos.
7. Essas mortes representaram 2,7% do total de óbitos no mundo, por qualquer causa. Fumo passivo foi considerado o 11º fator de risco para a mortalidade.
O estudo avaliou as seguintes doenças associadas ao fumo passivo: otite média, diabetes, câncer de mama, câncer de traqueia, dos brônquios e dos pulmões, asma, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, infecções do trato respiratório inferior, AVC e infarto do miocárdio.
Os dados foram obtidos em não fumantes que dividem o espaço com fumantes em casa ou no trabalho. Não foram consideradas as exposições em bares, restaurantes e outros ambientes de convívio social.
Da época em que fumávamos em casa na presença de bebês, crianças pequenas, pessoas de idade e quem mais estivesse por perto para os dias atuais, as leis que proíbem fumar em ambientes fechados têm ajudado a reduzir o número de fumantes passivos no Brasil, mas ainda há muito trabalho educativo a ser feito. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fumantes passivos’
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Fonte: Carta Capital