Fritz Haber: o Nobel de Química que inventou o fertilizante moderno e inaugurou a era da guerra química

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Por Daniel DiebSeu Dinheiro

Fritz Haber, vencedor do Nobel de Química de 1918, resolveu um dos maiores desafios científicos do início do século 20: como produzir fertilizante sintético a partir do nitrogênio do ar de forma eficiente o bastante para virar padrão mundial.

Anos depois, ele colocou a mesma ciência a serviço do exército alemão: como transformar um gás industrial comum numa arma capaz de matar em massa. A solução era o gás cloro. Liberado sobre as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, inaugurou a era da guerra química moderna.

As duas invenções são completamente distintas. Uma ajudou a produção agrícola mundial e a alimentar milhões de pessoas. A outra matou dezenas de milhares de soldados na guerra— e abriria caminho, décadas depois, para atrocidades ainda maiores.

Mas elas tinham um desafio em comum o desafio científico à época de controlar o comportamento de um gás.

Quem era Fritz Haber antes de ganhar o Nobel de Química

A trajetória de Haber era a de um professor de química física comum em Karlsruhe, na Alemanha, até 1909. O status mudou quando ele conseguiu sintetizar amônia diretamente do nitrogênio do ar, resolvendo um problema que a ciência perseguia havia décadas.

Quatro anos depois, o processo foi industrializado pela BASF, com a ajuda do engenheiro Carl Bosch. Não era a primeira tentativa industrial de fixar nitrogênio do ar — processos rivais já existiam desde o início dos anos 1900 —, mas a de Haber era de longe a mais eficiente. Em poucas décadas, o método Haber-Bosch tornou-se dominante no mundo.

Na mesma época, Haber assinou o Manifesto dos 93, texto de apoio à guerra assinado por intelectuais alemães, e assumiu a chefia da Seção de Química do Ministério da Guerra — cargo de onde passou a liderar o desenvolvimento de armas químicas alemãs.

Na Grande Guerra, nenhum dos lados conseguia avançar na guerra de trincheiras, e Haber foi encarregado de encontrar uma saída. Foi aí que ele sugeriu usar o gás cloro.

O primeiro grande ataque químico da história militar moderna

Em 22 de abril de 1915, na Segunda Batalha de Ypres, Haber esteve pessoalmente no campo de batalha para supervisionar o primeiro grande ataque químico da história militar moderna. A batalha, que se estenderia por um mês inteiro de combate, teve mais de 55 mil baixas só do lado britânico.

Dez dias depois, em 2 de maio de 1915, a vida pessoal de Haber sofreu um baque. Sua esposa, Clara Immerwahr, tirou a própria vida com um tiro no peito, usando o revólver de serviço do marido, no jardim de casa — e foi encontrada ainda viva pelo filho do casal, Hermann, de 12 anos.

Clara foi a primeira mulher a obter doutorado em química na Alemanha e, segundo biógrafos, era crítica declarada do trabalho de Haber com armas químicas.

As causas do suicídio seguem debatidas: relatos mais populares atribuem o gesto a essa oposição direta, mas pesquisas mais recentes apontam uma combinação de fatores — um casamento infeliz, depressão, a morte recente de dois mentores próximos a ela e a carreira científica interrompida pelo papel de esposa.

No dia seguinte, Haber partiu para a Frente Oriental, onde coordenaria um novo ataque com gás, agora contra o Exército russo, perto de Bolimów, na Polônia.

Três anos depois, o comitê sueco o premiou com o Nobel, mas não sem protestos.

Foto de uma cópia do diploma do Prêmio Nobel de Química concedido a Fritz Haber em 1918. A cópia faz parte da exposição no Museu da Universidade de Wroclaw.
Foto de uma cópia do diploma do Prêmio Nobel de Química concedido a Fritz Haber em 1918.

Cientistas de países que tinham acabado de enfrentar o gás alemão nas trincheiras consideravam obsceno premiar o homem por trás daquelas armas.

Em resposta, Haber lembrou que boa parte do dinheiro da premiação vinha da indústria de armamentos, já que Alfred Nobel tinha enriquecido fabricando dinamite.

Vencedor do Nobel de Química visitou o Brasil

Em novembro de 1923, Haber visitou o Rio de Janeiro, episódio pouco conhecido registrado pela revista científica Química Nova. O motivo da escala era buscar financiamento para outro projeto seu, ainda mais improvável que os anteriores: extrair ouro da água do mar, numa tentativa de ajudar a Alemanha a pagar as pesadas dívidas de guerra impostas pelo Tratado de Versalhes.

Como o resto da viagem pela América do Sul, a empreitada não deu em nada — anos depois, Haber concluiu que a quantidade de ouro dissolvida na água era pequena demais para valer a pena.

Nos anos seguintes, mesmo com o Tratado de Versalhes proibindo a Alemanha de produzir armas químicas, Haber continuou envolvido secretamente no desenvolvimento do setor.

No mesmo período, cientistas do instituto que ele dirigia em Berlim desenvolveram o Zyklon A, um pesticida à base de cianeto usado para desinfetar silos de grãos. Décadas depois, sem qualquer participação direta de Haber, a fórmula seria adaptada no Zyklon B — o gás usado pelos nazistas para matar mais de 1 milhão de pessoas nas câmaras de extermínio.

Em 1933, com a ascensão do partido nazista na Alemanha, cientistas judeus do instituto de Haber foram convocados a se demitir — e mesmo ele, convertido ao cristianismo décadas antes e veterano condecorado da guerra que serviu com tanto empenho, não escapou da classificação.

Porém, recusou-se a demitir sua equipe e renunciou ele mesmo ao cargo.

Assim, partiu para o exílio, passando por Paris, Espanha e Cambridge, onde cientistas que tinham sido adversários dele na guerra — e não perdoavam o que ele tinha feito em Ypres — se recusavam a apertar sua mão.

Um século depois, as duas invenções de Haber seguem em uso

Haber morreu de insuficiência cardíaca num hotel em Basileia, na Suíça, em 29 de janeiro de 1934, a caminho de um novo cargo em Rehovot, na Palestina britânica, aos 65 anos.

Mais de cem anos depois, as duas invenções de Haber ainda estão em uso.

Uma delas, a Regra de Haber — a fórmula que relaciona concentração de gás tóxico e tempo de exposição —, segue sendo referência na toxicologia até hoje. A outra, o processo Haber-Bosch, ainda é a base do fertilizante que ajuda a alimentar a população mundial.

O mesmo cérebro que resolveu como controlar, com exatidão, o comportamento de um gás nunca teve como controlar as duas direções para onde essa resposta poderia apontar.

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Fonte: Seu Dinheiro

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