Fotografia subaquática: como registrar a vida marinha sem interferir na natureza

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Fotografar a vida marinha exige muito mais do que uma câmera preparada para entrar na água. Por trás de uma imagem de um peixe em movimento, de um animal em seu habitat natural ou de uma paisagem submersa, há planejamento, conhecimento técnico e, principalmente, paciência para observar o ambiente sem interferir nele.
A fotografia subaquática reúne desafios que vão da perda de cores e nitidez em profundidade à necessidade de compreender o comportamento dos animais antes de registrar uma cena. Nesse contexto, o trabalho do fotógrafo não se limita a produzir imagens: envolve também reconhecer os limites da aproximação e respeitar o espaço da vida marinha.
A atividade ganha destaque neste 12 de outubro, quando o Brasil celebra o Dia Nacional do Mar. A data é uma oportunidade para ampliar o olhar sobre os oceanos e discutir como a fotografia pode aproximar as pessoas de ambientes e espécies que muitas vezes permanecem distantes de sua realidade.
É nesse encontro entre técnica, observação e conscientização ambiental que atua a fotógrafa brasileira Fabi Fregonesi, reconhecida internacionalmente por seus registros subaquáticos. Ela foi a primeira brasileira a alcançar o pódio do Underwater Photographer of the Year, uma das principais premiações mundiais do segmento, e, em 2026, é finalista do Nikon Comedy Wildlife Awards.
“Vejo esse trabalho como um meio de fazer mais pessoas se conscientizarem sobre o mar e tudo que é necessário para a conservação da vida marinha. Acredito que as imagens registradas permitem essa conexão com o oceano”, afirma.
Fabi Fregonesi: domínio do equipamento, portanto, é apenas uma parte do trabalho.
Fabi Fregonesi/ Divulgação
A técnica por trás da imagem
Uma fotografia subaquática pode parecer simples à primeira vista, mas as condições debaixo d’água tornam o registro bastante diferente daquele realizado em terra firme. A água interfere na propagação da luz, reduz o contraste e a nitidez e altera a percepção das cores. À medida que a profundidade aumenta, determinados tons desaparecem gradualmente, o que exige cuidados específicos para preservar os detalhes da cena.
A escolha dos equipamentos também influencia o resultado. Câmeras profissionais costumam ser instaladas em caixas estanques, que impedem a entrada de água e permitem controlar as funções do aparelho durante o mergulho. Conforme o objetivo, o fotógrafo pode utilizar lentes grande-angulares para paisagens e animais maiores, lentes macro para organismos pequenos e sistemas de iluminação para recuperar parte das cores perdidas em profundidade.
Outro fator importante é a distância em relação ao objeto fotografado. Em muitas situações, aproximar-se do animal produz resultados melhores do que recorrer a uma lente de longo alcance, já que as partículas suspensas na água podem comprometer a qualidade da imagem.
Essa aproximação, no entanto, precisa ser planejada e realizada com cuidado. “As pessoas veem apenas o resultado, mas existe muito planejamento por trás de cada fotografia. A escolha da lente, a posição em relação ao animal, a leitura da luz e até a forma como nos movimentamos na água influenciam diretamente a qualidade da imagem”, explica Fabi.
O domínio do equipamento, portanto, é apenas uma parte do trabalho. O fotógrafo também precisa conhecer as condições do local, avaliar a visibilidade, controlar a própria movimentação e aproveitar as oportunidades que surgem durante o mergulho.
Além das questões técnicas, fotografar a vida marinha exige atenção ao comportamento das espécies
Fabi Fregonesi/ Divulgação
Além das questões técnicas, fotografar a vida marinha exige atenção ao comportamento das espécies. Perseguir um animal ou insistir em uma aproximação para conseguir determinado enquadramento pode interferir em sua rotina e provocar estresse.
Por isso, a observação é parte fundamental do processo. Em vez de tentar controlar a cena, o fotógrafo deve acompanhar os movimentos dos animais, reconhecer seus padrões de comportamento e aguardar uma oportunidade de registro espontâneo.
“A aproximação nunca pode ser mais importante do que o animal. O objetivo é registrar um comportamento autêntico sem causar qualquer tipo de perturbação. Quando percebemos sinais de desconforto ou estresse, o correto é aumentar a distância e respeitar o espaço”, destaca a fotógrafa.
A postura também exige reconhecer que nem toda situação rende uma imagem. Mesmo com o equipamento preparado e o mergulho planejado, a presença de um animal pode não resultar no registro esperado. Nesses casos, respeitar o ambiente deve prevalecer sobre a tentativa de conseguir a fotografia.
O desafio está justamente em conciliar o objetivo visual com a preservação da cena natural, sem induzir comportamentos ou transformar a presença do fotógrafo em uma interferência.
Planejamento e paciência debaixo d’água
O tempo disponível para fotografar embaixo d’água também impõe limitações. Em mergulhos recreativos, a permanência submersa frequentemente varia de 45 a 60 minutos, dependendo da profundidade, das condições ambientais, do consumo de ar e da experiência dos mergulhadores.
Nesse intervalo, é preciso considerar a descida, o deslocamento, a observação, a produção das imagens e o retorno à superfície. Em expedições voltadas a comportamentos específicos ou ambientes mais profundos, a logística pode ser ainda mais complexa.
Por isso, o planejamento começa antes de entrar na água. Definir o objetivo do registro, conhecer o ambiente e escolher os equipamentos adequados ajuda a aproveitar o tempo disponível. Ainda assim, não há garantia de que a cena desejada acontecerá.
A fotografia subaquática depende de uma combinação de preparo e capacidade de adaptação. Correntes, visibilidade, luminosidade e movimentos imprevisíveis dos animais podem modificar as condições de um mergulho em poucos instantes.
“O mar é um ambiente extremamente dinâmico. Muitas vezes você passa boa parte do mergulho observando e esperando até que todos os elementos se alinhem. É aí que a imagem se torna também uma história a ser contada”, afirma Fabi.
O trabalho de fotógrafos subaquáticos também pode contribuir para aproximar o público da conservação marinha. Ao mostrar espécies, paisagens e comportamentos pouco conhecidos, as imagens ajudam a despertar curiosidade e a criar vínculos com um ambiente que nem sempre faz parte do cotidiano das pessoas.
O tempo disponível para fotografar embaixo d’água também impõe limitações
Fabi Fregonesi/Divulgação
Para Fabi Fregonesi, a fotografia é uma forma de estimular essa conexão. Antes de se dedicar profissionalmente à atividade, ela trabalhou por duas décadas na publicidade. A mudança de trajetória a levou a unir a produção artística à conscientização ambiental.
O reconhecimento internacional ampliou o alcance de seu trabalho. Além do terceiro lugar na categoria Wrecks (Naufrágios) do Underwater Photographer of the Year, conquista que a tornou a primeira brasileira a subir ao pódio da competição, a fotógrafa acumula premiações internacionais e, em 2026, chegou à final do Nikon Comedy Wildlife Awards.
Mais do que registrar uma cena rara ou visualmente impressionante, a fotografia subaquática pode funcionar como uma janela para um universo pouco acessível. O resultado depende da técnica, mas também da disposição para observar, esperar e reconhecer que o ambiente não está ali para atender às expectativas de quem fotografa.
No fundo, o desafio é produzir uma imagem capaz de revelar a vida marinha sem alterar aquilo que a torna única. Uma fotografia bem-sucedida não depende apenas do que aparece no enquadramento, mas também de tudo o que o fotógrafo escolhe não fazer para conseguir registrá-la.
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Fonte: umsoplaneta

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