Formação e redes de apoio ajudam novas candidatas a entrar e permanecer na política
Por NINJA — Mídia NINJA
Acompanhe nossas Redes Sociais
Acompanhe nossas Redes Sociais
Pesquisas apontam barreiras à entrada e à permanência, enquanto cursos de 2026 oferecem orientação e apoio
Por Vinicius Francisco
Entrar na política pela primeira vez significa aprender regras, lidar com estruturas pouco conhecidas e construir apoio para uma trajetória que pode começar muito antes do registro de uma candidatura. Em 2026, universidades e instituições públicas criaram cursos e materiais voltados a mulheres que querem disputar eleições ou assumir posições de liderança, com conteúdos sobre legislação eleitoral, comunicação, violência política e formação de redes.
Os números ajudam a entender por que essa preparação importa. O projeto De Olho nas Urnas, da Universidade Federal de Goiás (UFG), comparou as eleições municipais de 2020 e 2024. Nesse período, as mulheres passaram de 34,68% para 35,32% das candidaturas. Entre as pessoas eleitas para as câmaras municipais, porém, elas representaram 18,23% em 2024, ante 16,13% quatro anos antes. A chamada taxa de sucesso, que mostra quantas candidatas conseguiram se eleger entre aquelas que entraram na disputa, passou de 5,52% para 7,21%.
O desafio continua depois da primeira vitória. Um estudo publicado neste ano na Brazilian Political Science Review acompanhou a trajetória de 51.478 vereadores e vereadoras eleitos em 2008 ao longo dos pleitos seguintes. Entre as mulheres, 23,8% não voltaram a disputar eleições depois daquele mandato, contra 20,5% dos homens. Também foi maior entre elas a proporção de quem continuou concorrendo, mas sem conseguir uma nova vitória: 27,1%, diante de 23,5% entre os homens. Mesmo quando outros fatores foram considerados, as mulheres apresentaram maior probabilidade de seguir trajetórias marcadas pela saída das disputas ou pela continuidade sem novos sucessos eleitorais.
Outra pesquisa publicada em 2026 aproxima esses dados da experiência de mulheres que estavam entrando na disputa. O estudo ouviu mulheres negras que concorreram a vereadora na Bahia, no Ceará e em Pernambuco nas eleições de 2020. Entre os obstáculos relatados estavam violência racial e de gênero, questões relacionadas à saúde mental e pouco conhecimento sobre regras jurídicas e eleitorais. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa com um grupo específico de candidatas, os resultados não podem ser generalizados para todas as mulheres que entram na política, mas ajudam a mostrar dificuldades encontradas durante uma campanha.
A pesquisa também mostra que, para algumas dessas mulheres, a formação política começou antes da filiação partidária. Todas as participantes tinham trajetórias em movimentos sociais, e o estudo cita o Fórum Nacional Marielles, rede criada por organizações do movimento de mulheres negras para oferecer formação e acompanhamento político. Experiências assim mostram como espaços coletivos podem aproximar novas lideranças da política institucional antes mesmo da decisão de disputar uma eleição.
Esse caminho aparece em uma formação lançada pela UFG em abril. O curso gratuito e on-line Igualdade de Gênero na Política, desenvolvido pelo projeto De Olho nas Urnas, tem 20 horas de duração e é voltado tanto a mulheres que pensam em se candidatar quanto àquelas que querem assumir posições de liderança em suas comunidades. Não é necessário ter experiência política anterior. A programação passa por registro de candidatura, financiamento e prestação de contas, mas também inclui planejamento, oratória, mobilização e violência política. Um dos módulos é dedicado à construção de liderança e de redes de apoio, e há espaços de troca entre as participantes. A primeira turma teve as inscrições encerradas, e a universidade informa que uma nova edição será aberta.
Em julho, outra iniciativa reuniu mulheres que pretendiam disputar as eleições gerais de 2026. O Curso para Candidatas Eleitorais foi promovido pela Comissão Interamericana de Mulheres e pela Escola de Governo da Organização dos Estados Americanos (OEA), junto com a Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (Anadep), com apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do governo francês. A seleção previa até 580 participantes, sendo 480 na modalidade virtual e até 100 nas atividades presenciais em Brasília.
Durante a formação, o TSE apresentou às participantes as regras de financiamento eleitoral e a legislação de enfrentamento à violência política contra as mulheres. A programação também tratou de direitos, participação feminina nos espaços de poder e desafios enfrentados por quem entra em uma disputa eleitoral.
A ideia de apoio ao longo dessa trajetória também aparece no Guia da Candidata 2026, lançado pelo Senado em março. O material reúne orientações para mulheres que pretendem concorrer e dedica atenção à prevenção e ao enfrentamento da violência política de gênero, com informações sobre canais de denúncia e redes de apoio jurídico e psicológico.
Cursos, guias e redes podem tornar menos desconhecidos os primeiros passos de quem decide entrar na política e ampliar o acesso a informações e apoio durante uma campanha. As pesquisas disponíveis, no entanto, não permitem afirmar que participar dessas iniciativas, por si só, aumente as chances de eleição ou garanta a permanência de uma mulher na vida política. Os estudos mostram que entrar na disputa é apenas uma etapa de uma trajetória que pode exigir formação, articulação e apoio ao longo de mais de um ciclo eleitoral.
Ajude a manter uma comunicação independente, livre e em movimento.
Escolha como contribuir. Você pode fazer uma doação única ou apoiar de forma recorrente, mensal ou anual. Formas de pagamento: cartão de crédito ou Pix.
Acompanhe nossas Redes Sociais
Para fornecer as melhores experiências, usamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou acessar informações do dispositivo. O consentimento para essas tecnologias nos permitirá processar dados como comportamento de navegação ou IDs exclusivos neste site. Não consentir ou retirar o consentimento pode afetar negativamente certos recursos e funções. Acesse nossa Política de Cookies
Fonte: Mídia NINJA