Por João Lister — Brasil 247

Flávio Bolsonaro anunciou, nesta terça-feira, 13 de outubro, que votará pelo fim da escala 6×1. Ainda falta o voto, mas a declaração já representa uma derrota política de sua posição anterior: depois de combater a proposta defendida por Lula, o candidato bolsonarista promete apoiá-la. Ao reconhecer que a maioria dos trabalhadores deseja essa mudança, admite a força de uma reivindicação que tentou desqualificar.

O título deste artigo traduz essa contradição. Flávio não anunciou voto em Lula para presidente. Anunciou que votará numa bandeira que Lula defende e que ele próprio vinha atacando. Quando até o adversário precisa aderir à proposta, o eleitor tem motivos para reconhecer a liderança de quem a sustentou.

A mudança tem história — e uma história bastante recente. Em maio, Flávio classificou a discussão como “inoportuna e eleitoreira”. Em agosto, evitou esclarecer como votaria. Em 6 de outubro, voltou a atacar a iniciativa, apresentando a flexibilização da jornada como alternativa. No dia seguinte, orientou a bancada do PL a defender que a votação ficasse para depois da eleição. Agora, anuncia apoio. Não foi a necessidade de descanso do trabalhador que surgiu nesta terça-feira. Foi a posição do candidato que mudou.

Até então, a alternativa patrocinada por seu campo político tinha outra lógica. A PEC de Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, permitia remuneração por hora e pagamento proporcional de direitos, preservando a referência de 44 horas semanais. A proposta apoiada por Lula prevê redução da jornada e dois descansos semanais remunerados, sem redução salarial. A diferença é concreta: para quem depende integralmente do contracheque, descansar perdendo renda não oferece a mesma proteção que conquistar descanso com o salário preservado.

A palavra “liberdade”, nesse debate, merece ser examinada. Que liberdade possui o empregado para negociar individualmente com quem pode dispensá-lo? Que escolha existe entre aceitar uma condição desfavorável e perder a renda que paga o aluguel, a alimentação e o transporte? A proteção trabalhista existe precisamente porque a necessidade de sobreviver limita o poder de negociação de quem vende sua força de trabalho.

Essa divergência antecede a campanha. Em 2017, Rogério Marinho foi relator da reforma trabalhista, que ampliou a prevalência de acordos sobre a legislação. Hoje, o mesmo dirigente ocupa posição central na campanha de Flávio. Há continuidade entre aquela agenda de flexibilização e a alternativa apresentada ao fim da 6×1: ampliar o espaço da negociação em relações marcadas por profunda desigualdade de poder.

O histórico pessoal de Flávio também contém uma votação inequívoca. Em 2019, ele votou a favor da reforma da Previdência do governo de seu pai, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Portanto, sua atuação parlamentar precisa ser avaliada pelas decisões que tomou, e não apenas pela sensibilidade social que procura demonstrar na reta final de uma eleição.

No salário mínimo, a diferença entre os projetos políticos fica ainda mais clara. Durante o governo Jair Bolsonaro, não houve uma política de aumentos reais anuais do piso: os reajustes se concentraram na reposição da inflação. Lula retomou, em 2023, a política de valorização, vinculando o reajuste também ao crescimento econômico. Repor preços preserva poder de compra; conceder aumento real permite ao trabalhador participar dos ganhos da economia.

A resistência bolsonarista a essa política está documentada no Senado. Em agosto de 2023, Rogério Marinho defendeu retirar a regra permanente de valorização do mínimo, argumentando que os aumentos deveriam depender de decisões anuais do governo. Ao final, retirou o destaque e anunciou apoio ao projeto. É necessário registrar ambos os fatos: houve tentativa de suprimir a política permanente, seguida de recuo. A crítica ganha força quando preserva a exatidão.

E a questão permanece atual. Segundo reportagem publicada pela Folha em 10 de outubro, o site criado pela campanha de Flávio para rebater notícias falsas assegurava a correção do mínimo pela inflação, mas não assumia compromisso com aumentos acima dela. A ausência dessa garantia revela uma diferença substantiva em relação à política retomada por Lula.

Não se pode afirmar que todos os bolsonaristas votaram contra todo direito trabalhista. O que se pode demonstrar é uma orientação política recorrente: flexibilização das relações de trabalho, resistência a compromissos permanentes de valorização salarial e oposição à redução da jornada nos termos defendidos pelo governo.

Por isso, o anúncio de Flávio tem tamanho significado. O trabalhador que enfrenta seis dias de serviço para obter um de descanso conhece o preço dessa rotina. A folga única frequentemente desaparece entre a limpeza da casa, as compras, os cuidados com os filhos e a recuperação do cansaço. Defender mais tempo de vida é reconhecer que o trabalho deve sustentar a existência, sem consumi-la inteira.

A reivindicação nasceu da mobilização de trabalhadores e ganhou expressão no movimento Vida Além do Trabalho, associado a Rick Azevedo. Lula a incorporou à disputa política e passou a cobrar uma posição do adversário. O mérito popular precisa ser preservado: nenhuma liderança produz sozinha uma conquista dessa dimensão.

Minha leitura política é que essa combinação de pressão social e liderança de Lula tornou eleitoralmente custoso continuar resistindo. Flávio pode apresentar sua mudança como escuta dos trabalhadores. O eleitor pode recebê-la como reconhecimento tardio de que Lula estava defendendo uma necessidade real.

Lula, com a força dessa mobilização, levou o adversário a ficar de joelhos diante da pauta que combatia. A expressão é política: quem pretendia afastar a votação agora promete ajudá-la a avançar. Quem acusava o governo de oportunismo termina aderindo à sua bandeira.

O apoio anunciado deve ser cobrado no plenário. Uma declaração não reduz jornada, não assegura descanso e não altera a Constituição. A conquista dependerá do voto e do conteúdo efetivamente aprovado.

Mas a escolha eleitoral já permite uma conclusão. Se até Flávio reconhece que precisa apoiar uma proposta defendida por Lula, por que entregar a Presidência a quem tentou adiá-la? Por que premiar a resistência vencida, quando se pode fortalecer a liderança que ajudou a vencê-la?

Flávio promete votar com Lula pelo fim da 6×1. Vote você também em Lula — para que a defesa do trabalhador continue conduzindo o governo, em vez de aparecer apenas quando a pressão eleitoral exige.

Fonte: Brasil 247

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