Flávio mimetiza Marçal, provoca Lula e foge de todas as perguntas
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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Para não esclarecer suas relações com Vorcaro e com o crime organizado, o candidato do PL buscou tumultuar o debate da Band do começo ao fim
Desde o primeiro bloco do debate da Band, ficou evidente qual era a estratégia de Flávio Bolsonaro em seu primeiro embate com Lula: confundir o eleitor com uma saraivada de acusações descontextualizadas e provocar o adversário com interrupções e micagens. Em boa parte do tempo, foi bem-sucedido na estratégia, mas não tardou para que suas fragilidades ficassem expostas.
Embora tenha conseguido irritar o presidente com um comportamento mimetizado de Pablo Marçal — chegou a escrever “corruPTo” na palma da mão para exibir às câmeras, algo que, espantosamente, a mediação do debate deixou correr solto —, o candidato do PL se recusou a responder a incontáveis perguntas incômodas feitas pelo adversário em meio ao vale-tudo televisivo.
Flávio não esclareceu o que fez com os mais de 60 milhões de reais repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, por que foi o único deputado estadual a votar contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas do Rio de Janeiro, em 2009, por que advogou em favor de um cabo da Polícia Militar que matou com um tiro de fuzil uma menina de 5 anos, apesar de já ser senador, nem por que apoiou o projeto que prevê o fim da marcação nas munições adquiridas por órgãos de segurança.
O candidato do PL esquivou-se até de dizer se pretende seguir o modelo do amigo Javier Milei, que se notabilizou por passar uma “motosserra” nos gastos públicos da Argentina, enquanto a pobreza disparou e atingiu um terço dos habitantes do país. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), outros 2,2 milhões de argentinos vivem em situação de indigência, o equivalente a 7,5% da população.
Durante o debate, Flávio fingiu não conhecer o ‘hermano’ Javier Milei. Foto: Nelson Almeida/ AFP
No auge do confronto, Flávio gaguejou quando Lula lançou um desafio: “Amanhã, abrimos nossas contas bancárias e nossos sigilos telefônicos, para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão”, disse o presidente. “Abro os da minha família inteira, você abre os da sua. Entregamos ao presidente do STF e ao do TSE, para o povo saber quem é quem.”
Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas desconversou: “O seu dinheiro é por fora sempre. Não está na sua conta, está sempre em outro lugar”. Na sequência, de forma bastante conveniente, mudou de assunto.
As únicas propostas apresentadas aos eleitores foram as velhas bravatas bolsonaristas no campo da segurança pública, como a castração química de estupradores e a abertura de mais vagas nos presídios, além de uma confusa explicação sobre o que seria o tal “Ministério da Prosperidade”, que sua equipe de marketing tirou da cartola depois de o senador atuar contra a aprovação do fim da escala 6×1 e mudar de opinião de última hora, quando as pesquisas reafirmaram a popularidade do projeto defendido pelo governo Lula.
É difícil especular, porém, se o eleitor indeciso conseguiu notar todas essas fragilidades em meio ao dantesco espetáculo conduzido por Flávio Bolsonaro do começo ao fim do “debate” na Band.
Enquanto Lula falava, Flávio buscava se posicionar atrás do presidente, fazendo gestos e expressões de ironia e menosprezo. Só no último segmento do encontro, o das considerações finais, sua postura provocou uma reação enérgica dos mediadores. “Candidato Flávio, o senhor aguarde ele fazer as considerações finais. E ele fará o mesmo com o senhor”, disse a jornalista Adriana Araújo.
Era tarde demais. Ao que tudo indica, a troca de acusações entre os candidatos e as provocações baratas de Flávio só serviram para animar as tropas dos convertidos. Para quem ainda estava em dúvida sobre qual caminho seguir, o encontro provavelmente não teve utilidade alguma.
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Fonte: Carta Capital