Flávio, espelho da destruição bolsonarista
Por Fernando Lionel Quiroga — Brasil 247
Uma primeira pergunta. Quem era Jair Bolsonaro antes de se tornar um personagem fabricado pelo capital e pelo imperialismo? No fundo, uma imagem e nada mais que a imagem do matuto ingênuo, xucro, mas honesto? A imagem do tiozão do churrasco que produziria, novamente, uma derivação da empatia imaginada de milhões de brasileiros de mentalidade forjada pela semiótica novelesca da mídia tradicional, sempre à espera de um “salvador da pátria”. Da mentalidade sectária herdada dos tempos coloniais?
Bem, a história é simples: o tiozão se tornou presidente – mesmo que, para isso, fosse preciso envolver a prisão política de Lula após o lawfare da Lava Jato conduzida pela dupla Moro e Dallagnol. E, em seu exercício, ele, efetivamente, não governou. Deixou simplesmente que o país seguisse à deriva das leis vorazes do capital e do lucro. O lucro governou o Brasil de 2018 a 2022, e Bolsonaro foi o anti-herói colocado à frente com a única função de desviar a atenção, sob o modus operandi de polêmicas sobre as principais agendas do governo: da pauta climática à educação, da saúde à segurança pública, da defesa da soberania às relações interministeriais. Tudo uma confusão, um desvario, uma zona. Por incapacidade de governo? Nada disso! Porque dele não era e nunca foi requisitada tal capacidade. O bolsonarismo não representa os ideais do nacionalismo clássico justamente porque, em sua base, não há qualquer substância a não ser o próprio lucro. O bolsonarismo é a prótese utilizada pelo capitalismo financeiro. É o mercado em estado puro, sem qualquer tensionamento por parte do Estado, quem cria as regras para a condução dos assuntos públicos, cujo resultado é sempre um invariável “salve-se quem puder”.
É o neoliberalismo operando seus motores. E, convenhamos, “neoliberalismo” é o termo leve encontrado para algo que não é apenas a linha sucessória de um processo histórico. Não é a atualização do liberalismo clássico. É algo mais profundo, que tem como fundamento a ruptura com a própria história. Formulações como necropolítica (Mbembe) e semiocapitalismo (Bifo) são esforços de uma elaboração mais precisa do termo, cuja essência é a mesma da servidão. Não há palavra mais precisa do que servidão para entender o significado da extrema-direita, cujos exemplos maiores no eixo sul-americano foram, e seguem sendo, Bolsonaro e o bolsonarismo, no Brasil, e Milei, na Argentina.
Ambos não são chefes de Estado. A tomada de decisão que fazem é sempre condicionada por grandes corporações. Tudo isso ficou claro durante os perigosos anos do mandato de Jair Bolsonaro. O risco de sua reeleição tornou-se um risco de vida e morte. Não nos esqueçamos disso!
Mas, e o Flávio?
Se Bolsonaro era um espelho das intenções do grande capital, um ator sem a necessidade de sê-lo, um matuto capaz de crer que tinha efetivamente uma vocação, ao mesmo tempo em que era incapaz de entender que o jogo da política e do poder logo o descartaria quando não fosse mais útil, e seria execrado da vida pública, Flávio é ainda pior do que ele. E é pior porque não corresponde, efetivamente, a uma criação do mercado: é um espelho do espelho; já um efeito da recursividade de um modelo descartado por boa parte do capital.
A quem o Flávio convence? Qual é sua marca, seu carisma, seu potencial de produzir uma “empatia imaginada”? A esquerda deve compreender uma coisa: o que se pode fazer, desde já, não é desconsiderar a hipótese de que a disputa pode ser acirrada, exigindo uma construção ainda mais sólida em um eventual segundo turno. O que está em jogo, portanto, é compreender a possibilidade de uma disputa acirrada e as condições políticas que a produziriam.
Ora, Flávio é a síntese da história recente da redemocratização do país. É a fusão caótica de Collor e Bolsonaro em uma versão antiquada e cafona do homem limpo, branco e hétero que deve restituir a moral na política. Como isso pode colar novamente? Como pode a política ser o espaço de uma compulsão à repetição traumática em massa, nesses moldes? Como pode uma ideia ser maior que a experiência de uma geladeira vazia, da carne dura e escassa durante o exercício de Bolsonaro? O óleo de soja disparando, a carne bovina chegando a subir 32,4% em um único ano, em 2019, e a alimentação acumulando altas de 14,09% em 2020 e 11,64% em 2022: a vida cotidiana tornando-se progressivamente mais cara, o alimento novamente convertido em privilégio. Vejamos Milei e os quadros de miséria na Argentina. O que era a Argentina, onde em qualquer canteiro de obras havia um assador de carne que preparava o assado para os operários da obra, em comparação ao que é hoje, em que a carne foi subtraída da mesa do argentino? Como pode a piada acerca da picanha ser maior do que o poder de voltar a consumi-la no governo Lula, mesmo que o valor não seja mais o mesmo desde o golpe? O que seria do consumo da carne, para finalizar com um só exemplo, caso Bolsonaro tivesse conseguido a reeleição? Não nos iludamos, portanto, com teses relativistas que nada explicam.
E não nos iludamos com aquelas formulações excêntricas que criticam Lula e o neoliberalismo sem levar em conta as dinâmicas do capital. Produzir sua ruptura pode ser uma alternativa defensável, e não é meu objetivo aqui destituí-la de sentido histórico. O que não se pode é confundir os modos pelos quais o PT conseguiu construir, em termos de passos importantes, os rumos de um país melhor. Quem duvidar disso, basta ler, em uma perspectiva comparativa, o que é o Brasil sem o PT e com ele. Não entender isso implica não entender do que o Brasil foi salvo nas últimas eleições, quando até a grande mídia teve que, humilhantemente, se dobrar diante do PT.
Então, vejamos bem: o Flávio é a saturação de tudo o que existe de pior na velha política. Ufanismo, soluções mágicas, tom beligerante. E, como bom representante da extrema-direita, boa dose de vulgaridade. Nele não se encontrará sequer uma única ideia original, uma única expressão autoral. Porque, diferentemente da direita tradicional, a extrema-direita dispensa a boa formação, demonstrando não haver, novamente, passagem cabível entre o liberalismo clássico e o neoliberalismo. O neoliberalismo é, como disse David Harvey, o acerto de contas da luta de classes: espécie de revanche após anos de uma distribuição mais equitativa de riqueza e direitos. O neoliberalismo, cuja formulação mais acertada seria neodespotismo, prescinde de tudo o que remeta à razão. É, como todo bom fascismo, anti-intelectual.
Flávio Bolsonaro não é a superação de Bolsonaro. É sua repetição. Não é o espelho de uma nova realidade política, mas o espelho de uma imagem já refletida inúmeras vezes. De um lado, Lula carrega consigo a densidade de uma experiência histórica; de outro, Flávio aparece como a tentativa de transformar a própria repetição em futuro. É justamente aí que reside o enigma: quando uma sociedade já não consegue produzir novas imagens, passa a acreditar que o reflexo ainda é realidade.
Fonte: Brasil 247