Flávio e o risco das milícias no Palácio do Planalto
Por Gustavo Tapioca — Brasil 247
Até o Estadão está advertindo o país sobre Flávio Bolsonaro. Um dos principais jornais da imprensa conservadora, crítico habitual de Lula e do PT, publicou editoriais que questionam a condição moral do candidato da extrema-direita, censuram sua atuação nos Estados Unidos e alertam para os riscos de seus vínculos com milicianos. A poucos dias da votação de 4 de outubro, vale ler esses textos em conjunto.
O peso político dessas críticas está também em sua origem. Elas são formuladas dentro do próprio campo conservador, por um jornal que está longe de apoiar Lula. O Estadão põe diante da direita e seus apoiadores uma pergunta incômoda: até onde a disposição de derrotar o presidente pode justificar a entrega do país a Flávio Bolsonaro?
Flávio e o “irmão” Vorcaro: falta de estatura moral
Em 16 de maio, no editorial “A direita diante de seu veneno”, o jornal avaliou que a revelação do pedido de R$ 130 milhões de Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro expunha a falta de estatura moral e política do senador para liderar a candidatura presidencial da direita. A advertência alcançava todo o campo conservador: era preciso afastar-se dos escândalos e dos métodos do bolsonarismo.
“Já passou da hora de romper a subordinação aos métodos do clã Bolsonaro”, escreveu o Estadão. A cobrança atingia também os dirigentes que, em troca dos votos associados ao sobrenome, aceitavam carregar os seus passivos. Um patrimônio eleitoral não elimina a responsabilidade de examinar quem pretende governar o país.
Em 9 de julho, o editorial “Flávio Bolsonaro desserve o Brasil” tratou de outra face do candidato. Segundo o jornal, Flávio transformou em palanque uma audiência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, destinada a receber argumentos técnicos contra tarifas americanas sobre produtos brasileiros.
O Estadão censurou o uso daquela oportunidade para atacar Lula e sugerir que Washington aguardasse a eleição para negociar com um novo presidente, mais alinhado a Donald Trump. O interesse eleitoral do senador se sobrepunha, na avaliação do jornal, à defesa dos exportadores brasileiros. A candidatura já aparecia como um problema para o país antes mesmo de chegar ao governo.
A crítica alcança uma questão elementar: quem pretende presidir o Brasil deve defender os interesses brasileiros. Exportadores, trabalhadores e empresas não podem ter suas necessidades subordinadas ao calendário de uma candidatura. Ao buscar a preferência de Washington, Flávio oferecia ao eleitor mais uma razão para perguntar a quem serviria seu eventual governo.
Flávio “não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos”
Em 12 de setembro, veio “Flávio é um candidato sob suspeita”. O editorial abordou a investigação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro André Mendonça, sobre a associação do senador com Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A apuração envolve suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A avaliação do jornal foi severa. As suspeitas exigem investigação e respostas. Ao eleitor, cabe avaliar a trajetória e a conduta de quem solicita o seu voto, inclusive a disposição do candidato de explicar negócios que envolvem sua família.
Essa sequência de manifestações do Estadão desemboca no editorial de 23 de setembro, “Flávio e a sombra dos milicianos”. Seu encerramento merece ser lido por inteiro:
“Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.”
O texto parte de uma reportagem publicada na edição anterior. Segundo a apuração citada, em 2023 uma assessora do senador negociou pessoalmente com Robson Calixto, conhecido como Peixe, o repasse de quase R$ 200 mil de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas.
No julgamento do caso Marielle, em fevereiro deste ano, o STF condenou Peixe por integrar organização criminosa armada, ao lado dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão. Os irmãos Brazão condenados, cada um, a 76 anos e três meses de prisão por organização criminosa armada, pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, e pela tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves.
É nesse universo que se situa o interlocutor da assessora de FlávioBplsonaro.
Confrontado com a reportagem, o senador afirmou, por meio de nota, que a destinação da emenda respeitara a legislação e que a prestação de contas cabia a quem recebesse os recursos. O Estadão considerou a resposta insuficiente: faltava explicar a proximidade com o miliciano.
A distinção é decisiva. O cumprimento das regras formais de uma emenda não responde, por si só, às perguntas sobre os interlocutores de um gabinete, os interesses atendidos e as contrapartidas eventualmente negociadas. É responsabilidade de um candidato à Presidência esclarecer aos eleitores como essas relações se estabeleceram.
Flávio defendeu as milícias como “novo tipo de policiamento”
O Estadão recua, então, às primeiras etapas da carreira política de Flávio. Recorda que, em 2007, o então deputado estadual apresentou as milícias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro como um “novo tipo de policiamento” e reduziu seus crimes a “casos isolados”. Também mencionou que aceitaria pagar mensalidades a esses grupos para obter segurança.
O editorial lembra ainda as homenagens a milicianos e o emprego, em seu gabinete na Alerj, de familiares de Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime. São episódios de épocas diferentes, reunidos pelo Estadão para sustentar que a relação com Peixe faz parte de um histórico que permanece sem explicações satisfatórias.
A gravidade desse histórico cresce com o cargo em disputa. O deputado estadual de ontem, que defende às milícias, quer tornar-se chefe de Estado e de governo. A avaliação de suas relações precisa considerar a autoridade, os recursos e a influência que a Presidência concentra. O eleitor tem direito de saber quais compromissos acompanham o candidato.
Milícias impõem pela violência o controle sobre territórios, negócios e moradores. A extorsão, a exploração ilegal de serviços e as execuções fazem parte do quadro descrito pelo próprio editorial. Prometer segurança pública exige enfrentar essas organizações e explicar qualquer proximidade política com seus integrantes.
É por isso que o encerramento do editorial do Estadão de 23 de setembro tem tamanha força. O jornal associa episódios da biografia de Flávio a um risco para a República. Os vínculos que o candidato deixa sem esclarecimento poderiam ganhar outra dimensão caso chegasse ao Planalto.
Flávio, sucessor do Bolsonaro que queria golpear a democracia e matar Lula
Flávio é filho e herdeiro político de Jair Bolsonaro, condenado pelo STF como líder da organização criminosa que tentou impor um golpe de Estado. A trama incluía o “Punhal Verde e Amarelo”, plano para assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. A posse de Lula e Alkmin aconteceu em 1º de janeiro de 2023. Uma semana depois, os ataques de 8 de janeiro atingiram as sedes dos Três
Poderes. Esse legado também acompanha a candidatura de Flávio e precisa entrar no julgamento político dos eleitores.
Uma escolha muito difícil?
Em 8 de outubro de 2018, logo após o primeiro turno que levou Fernando Haddad e Jair Bolsonaro à disputa final, o Estadão publicou “Uma escolha muito difícil”. Oito anos depois, o mesmo jornal alerta para o risco de a candidatura de Flávio levar as milícias ao topo do poder da República.
Seus editoriais atuais dão motivo para cobrar essa autocrítica. Ao expor os riscos da candidatura do filho, o jornal precisa revisitar a posição que adotou diante do pai. Afinal, por que lhe pareceu tão difícil escolher entre Haddad e Bolsonaro?
A oposição do Estadão a Lula continua explícita. Justamente por isso, suas críticas a Flávio expõem um limite: o desejo de derrotar o presidente não justifica ignorar os riscos descritos pelo próprio jornal.
Esse limite deveria valer para o debate público inteiro. Quem defende o combate à corrupção precisa exigir explicações sobre Vorcaro. Quem invoca a soberania precisa examinar a atuação do candidato nos Estados Unidos. Quem promete enfrentar o crime organizado precisa responder sobre suas relações com milicianos.
Flávio e a sombra dos milicianos que pode voltar ao Palácio do Planalto
O eleitor pode discordar de Lula, rejeitar propostas de seu governo e cobrar mudanças. O exame de Flávio continua sendo uma obrigação própria, que nenhuma crítica ao adversário consegue substituir. Uma candidatura deve responder por sua história e pelos compromissos que assume em nome do país.
Ao recordar a liberdade de escolha assegurada pela Constituição, o Estadão acrescenta uma exigência: conhecer as consequências da decisão. Votar transfere autoridade. Autoriza alguém a governar, nomear, administrar recursos e falar em nome do Brasil. A biografia do candidato importa porque ajuda a avaliar como ele exercerá esse poder.
Flávio pede a confiança dos brasileiros. Seus vínculos, seus negócios e suas respostas precisam passar pelo mesmo escrutínio que ele exige dos adversários. O sobrenome que lhe abriu o caminho da candidatura também traz uma história que o país tem o direito de examinar.
No próximo domingo, 4 de outubro, o eleitor decidirá quem poderá receber o poder da República. O Estadão já advertiu sobre o que pode vir junto com Flávio. Cabe aos brasileiros impedir que a sombra dos milicianos volte a circular dentro do Palácio do Planalto.
Fonte: Brasil 247