Flávio Bolsonaro supera Lula em 92 das 100 cidades mais afetadas pelo tarifaço de Trump

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, superou o presidente Lula (PT) na grande maioria dos municípios brasileiros mais atingidos pelo “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos contra produtos do Brasil e articulado pelo ex-deputado federal e irmão do presidenciável, Eduardo Bolsonaro, informa a Folha de São Paulo.

Levantamento mapeou as cidades brasileiras cujas exportações sofrem os maiores impactos das alíquotas anunciadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Dos 100 municípios mais afetados pelas sanções econômicas, Flávio Bolsonaro foi o candidato mais votado em 92, enquanto Lula liderou a votação em apenas 8. No cenário nacional geral, considerando todas as cidades do país, o senador do PL obteve a maioria dos votos válidos em 52% dos municípios (2.907), frente a 48% conquistados pelo atual presidente (2.663).

A análise utilizou dados de exportações para os Estados Unidos referentes ao ano de 2025, fornecidos pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). O ranking de impacto foi elaborado mediante o cruzamento dessas estatísticas com a relação de produtos tarifados divulgada pelo governo estadunidense.

A maior parte dos municípios mais prejudicados pelas taxas já apresentava histórico de alinhamento com o bolsonarismo nas eleições de 2022. O município de Piracicaba, localizado no interior de São Paulo e considerado um importante polo industrial de máquinas e equipamentos, encabeça a lista dos mais atingidos. A estimativa aponta que cerca de R$ 5,4 bilhões em exportações anuais da cidade para o mercado norte-americano estão sujeitos às novas alíquotas. No pleito de domingo (4), Flávio Bolsonaro venceu na cidade com 63,4% dos votos válidos, contra 27,6% recebidos por Lula. O resultado representa um avanço da direita em relação ao primeiro turno de 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) obteve 61,1% e Lula alcançou 29,4%.

Embora a maioria das cidades já votasse na oposição, o levantamento registrou casos de municípios que haviam dado vitória a Lula em 2022 e alteraram a preferência eleitoral nesta eleição. Do grupo das 100 cidades mais afetadas, 8 mudaram de lado político entre as duas disputas. Entre os exemplos estão Ouro Branco, em Minas Gerais, cuja economia é fortemente impulsionada pela indústria siderúrgica; Ribeirão Pires, em São Paulo, afetada pela redução na exportação de munições; e Bituruna, no Paraná, município dependente do setor de madeira.

O estudo considerou o montante financeiro de bens exportados em 2025 submetidos ao tarifaço e optou por desconsiderar as capitais brasileiras. Embora os grandes centros urbanos registrem volumes expressivos de produtos taxados, suas economias locais são mais diversificadas e menos vulneráveis a oscilações em setores específicos.

As novas barreiras comerciais foram anunciadas em julho pela gestão de Donald Trump, após a abertura de uma investigação sobre políticas comerciais do Brasil. A medida dividiu-se em duas etapas: uma alíquota de 25% e outra de 12,5%. Em diversas situações, os produtos brasileiros passaram a sofrer dupla tributação somada, atingindo a alíquota de 37,5%. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que aproximadamente R$ 55 bilhões em mercadorias do país enquadram-se nessa faixa de tributação acumulada.

Para classificar as mercadorias, a metodologia considerou taxados os itens sujeitos a pelo menos uma das alíquotas impostas. O cálculo utilizou o código de quatro dígitos do Sistema Harmonizado, padrão de classificação de mercadorias mantido pela Organização Mundial das Alfândegas. A apuração ressalva que o levantamento constitui uma estimativa, pois certas categorias podem abrigar itens isentos e taxados, além de os Estados Unidos utilizarem um sistema de classificação distinto do brasileiro.

O desempenho de Lula nesses locais indica que a estratégia central da campanha governista não obteve o resultado esperado. O plano do PT buscava expor o vínculo entre Flávio Bolsonaro e as penalidades econômicas dos EUA, oriundo da proximidade da família Bolsonaro com aliados de Trump. Em 2025, Eduardo Bolsonaro havia publicado uma mensagem em rede social agradecendo ao presidente norte-americano pelo anúncio de uma tarifa de 50% sobre bens brasileiros — medida que acabou revogada posteriormente e que havia sido tomada como reação ao que Washington classificou como “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro.

Ao longo da campanha, os estrategistas de Lula tentaram caracterizar o candidato do PL como subordinado aos interesses de Washington. A comunicação petista passou a utilizar o termo “tariflávio” para atribuir ao senador a responsabilidade pelas barreiras comerciais e acusá-lo de atuar contra o país. Durante a pré-campanha e os desdobramentos do anúncio, lideranças do centrão e aliados do próprio senador chegaram a avaliar que a medida econômica prejudicaria o desempenho eleitoral da oposição.

Visando conter os danos políticos à sua candidatura, Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos para solicitar a autoridades norte-americanas que o anúncio ou implementação das tarifas fosse adiado para o período posterior à eleição, argumentando que a punição comercial fortaleceria a narrativa da campanha de Lula.

No programa oficial de governo apresentado à Justiça Eleitoral, a candidatura do PT colocou a política externa e a defesa como pilares associados à soberania nacional, termo e variações que aparecem citados 42 vezes no documento.

Analisando os números do pleito, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Feliciano Guimarães, avalia que o eleitorado dessas localidades pode ter atribuído ao atual governo a responsabilidade pelas perdas econômicas. “isso é contra a noção geral de que as tarifas, na realidade, estavam aumentando a popularidade do presidente. Acho que nessas regiões, em que as tarifas têm um impacto direto, há uma penalização maior do presidente por não defender aquele setor em particular”, afirma.

O especialista traça um comparativo com pesquisas de comércio internacional que demonstram como eleitores de regiões afetadas pela competição com produtos importados da China costumam redefinir seus votos em favor de lideranças com posições críticas ao país asiático.

Na mesma linha, o cientista político e professor do Ibmec no Rio de Janeiro, José Niemeyer, pontua que a mensagem sobre “soberania” pode não ter sensibilizado os trabalhadores das regiões impactadas pelas tarifas. “Parte do discurso do presidente Lula foi criticada por alguns analistas, por falar muito de soberania econômica, um discurso muito elitizado. Talvez os temas internacionais não tenham sido tão impactantes para o resultado da eleição”, afirma.

Fonte: Brasil 247

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