Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que ofereceu IA para manipular eleições, diz Intercept
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou comercializar nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial desenvolvido para operações clandestinas de influência política. A ferramenta permitiria identificar grupos de eleitores, disseminar informações falsas, criar perfis fictícios nas redes sociais e executar estratégias para atingir adversários.
As informações foram reveladas nesta sexta-feira (16) pelo site The Intercept Brasil, que obteve documentos sobre a tecnologia e ouviu Vincent Edward Reed, empresário estadunidense que atuou como consultor da companhia entre 2024 e 2025. Segundo a investigação, o sistema foi apresentado a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unido em 2024, mas não há confirmação de contratação. A reportagem também observa que não existem evidências de que Flávio Bolsonaro ou o PL tenham utilizado a ferramenta nas eleições brasileiras de 2026.
Pagamentos à Elytron constam da Justiça Eleitoral
Os registros disponíveis no DivulgaCand, sistema de prestação de contas da Justiça Eleitoral, mostram três notas fiscais emitidas pela Elytron para a campanha de Flávio Bolsonaro. Duas delas, datadas de 16 de setembro, apresentam valores de R$ 500 mil cada, mas uma foi cancelada. A terceira, de 2 de outubro, corresponde a R$ 100 mil.
Os documentos descrevem os serviços como “consultoria em tecnologia da informação”, incluindo apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.
Embora os pagamentos identificados totalizem R$ 600 mil, a prestação de contas parcial apresentada pela campanha no fim de setembro registrou uma despesa de R$ 1 milhão com a companhia.
O PL também declarou ter desembolsado R$ 131,9 mil para a Elytron em 20 de julho, sob a descrição de “serviços técnico-profissionais”. Considerando os pagamentos informados no DivulgaCand, a campanha e o partido registraram, juntos, R$ 731,9 mil destinados à empresa.
Tecnologia previa operações psicológicas e desinformação
A documentação obtida pelo Intercept descreve um sistema capaz de cruzar grandes volumes de informações sociais, políticas e econômicas para identificar públicos específicos e direcionar campanhas digitais.
A apresentação comercial menciona a criação de contas falsas, a produção de conteúdos com inteligência artificial, a disseminação coordenada de rumores e a infiltração em comunidades virtuais. Entre as estratégias oferecidas estão “técnicas de guerra psicológica e métodos de infiltração”, destinadas a influenciar percepções e desacreditar oponentes.
O material também apresenta um modelo operacional que parte da definição de objetivos políticos, identifica os grupos que serão atingidos e estabelece mecanismos de distribuição de mensagens em redes sociais, blogs e veículos de comunicação.
Uma das possibilidades descritas envolve a utilização de informações demográficas e comportamentais para introduzir determinadas opiniões em grupos segmentados e ampliar sua circulação.
Segundo Reed, a ferramenta foi inicialmente apresentada como um sistema convencional de análise de dados. Sua avaliação mudou quando conheceu as funcionalidades disponíveis.
“Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, afirmou ao Intercept.
O ex-consultor também relatou que a expressão manipulação foi utilizada durante a apresentação.
“O termo manipulação foi de fato usado. E qualquer vez que eu ouço a palavra manipulação humana, especialmente quando envolve IA, me preocupa”, declarou.
Reed afirmou ter rompido sua relação profissional com o grupo por considerar que o sistema apresentava riscos éticos e legais. Posteriormente, levou suas preocupações ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, mas as apurações não avançaram.
Especialista aponta características de operação de influência
O Intercept submeteu a documentação à análise de Beatriz Farrugia, pesquisadora da agência Lupa e especialista em desinformação e interferência estrangeira da organização Debunk, sediada na Lituânia.
Ao examinar o fluxograma que detalha as atividades previstas, Farrugia afirmou que o material correspondia a uma estrutura organizada de influência política.
“Essa tela [do plano, foto acima] é exatamente a definição de A a Z de operação de influência”, declarou.
A diferença em relação às ferramentas convencionais de marketing digital está na utilização de métodos enganosos, como identidades fictícias, distribuição artificial de conteúdos e campanhas coordenadas de desinformação.
Embora o monitoramento de redes sociais e a análise de tendências sejam práticas comuns, operações destinadas a manipular clandestinamente o comportamento dos eleitores podem violar a legislação eleitoral e as regras das plataformas digitais.
Campanha de Flávio Bolsonaro e empresa negam irregularidades
Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral”.
A assessoria classificou como grave e com “claro viés político eleitoreiro” a tentativa de associar a contratação de serviços de proteção cibernética às práticas descritas na investigação. Segundo a campanha, os contratos seguiram procedimentos regulares e tiveram como finalidade proteger os sistemas de comunicação contra ataques digitais.
A Elytron também rejeitou as acusações. Em resposta enviada após a publicação inicial da reportagem, declarou que “repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”.
A companhia sustentou que atua exclusivamente com serviços defensivos de segurança da informação e negou oferecer ou executar atividades de manipulação política para qualquer cliente.
Também afirmou não ter prestado serviços à campanha de Trump nem autorizado apresentações comerciais destinadas à oferta de operações de influência eleitoral. A empresa informou que apurará eventuais responsabilidades pelo uso indevido de seu nome.
Investigação identifica conexões internacionais
Fundada em 2018 por João Lucas Melo Brasio e Felipe Garofalo, a Elytron mantém atividades no setor de segurança da informação e possui relações comerciais no Brasil e no exterior.
A investigação identificou conexões entre executivos e parceiros comerciais da companhia e pessoas próximas ao empresário e influenciador Pablo Marçal, que passou a integrar a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro no fim de setembro.
Entre os nomes citados estão Jorge Remígio, Ludgero de Sousa e Eric Leandri, ligados a negócios de tecnologia e inteligência artificial em Portugal e nos Emirados Árabes Unidos.
Reed relatou que manteve contato com esses executivos durante sua atuação como consultor de empresas associadas à Elytron e à Aleria, companhia de tecnologia dos Emirados Árabes Unidos.
Segundo ele, integrantes do grupo se apresentavam como parceiros ou associados a estruturas empresariais relacionadas ao xeque Tahnoon bin Zayed al-Nahyan, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos e figura influente no mercado internacional de inteligência artificial.
A reportagem também menciona o lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie, aliado da família Bolsonaro e sócio de Ludgero de Sousa e Eric Leandri na Lerco Consulting. Gracie confirmou a sociedade, mas negou qualquer vínculo com a Elytron ou a Aleria.
Remígio e Sousa reconheceram os contatos com Reed, mas negaram a realização de reuniões com representantes da campanha de Trump e contestaram a existência de serviços de manipulação política.
Em manifestação posterior, a Elytron brasileira informou que ambos atuam como parceiros comerciais independentes, responsáveis pela prospecção de negócios mediante comissões.
A companhia também confirmou possuir uma pessoa jurídica em Portugal, destinada à organização societária e tributária de possíveis operações no mercado europeu, mas ressaltou que ela não constitui uma filial da empresa brasileira.
Fonte: Brasil 247