Feminicídio
Por Maurício de Araújo Lima — Brasil 247
Tema árduo
Para os machos
Culpados
Em sua fúria
De donos
De tudo
Até do túnel infinito
De suas fêmeas
Origem do mundo
Da vida
E da morte
A América Latina é pioneira na criminalização do feminicídio
Todos seus países têm alguma lei nesse sentido
No Brasil, Ângela Diniz foi o princípio
Com o “quem ama não mata” de pontapé inicial
Houve uns agravantes de início
Mas houve também golaço em profusão
Lei Maria da Penha
Esse rastilho
Que se propagou pela nação
Enquanto o armamento fictício
Artifício
De bandido e ladrão
Continuou a matança
Sem o facão
Um tiro de arma de fogo
Último resquício
De machismo e covardia
Ante a força débil
De sua vítima de ocasião.
Nesse meu Brasil brasileiro
De um céu cor de anil
Afastai de mim esse braseiro
De outubro a abril
E aliviai pra mim no inverno
Nesse nosso inferno mais sutil
E quando feminicídio acontece com a nossa gente
É lâmina ardente que dilacera
É grito de horror que nossa mente
Recusa definir no mesmo senso
Da justiça que se espera
Tenham todos que nessa terra
Foram vindos
Benvindos todos que nasceram
E saudades dos que encerraram esse capítulo
Agora vão buscar seus novos sonhos
No limbo dos que se foram sem nenhuma razão
Que não a estupidez dos homens
Que imundos fecharam a gruta que lhes trouxe à vida.
Dói de doer
Dói ao nascer
Do sol e do amanhecer
Da lua
Que se insinua
Vibrante e linda
Tão feminina
Que é a felina
Que me viu nascer
Nessa cantilena
Que ainda há de ser plena
De um reviver
Dessa mulher prenha
De uma nova vida
Que tem de ser menina
Pra viver pra sempre
Sem nenhum dilema
Que mais vale a fêmea
E dói de doer
Essa nossa sina
De matar a mina desse renascer
Renasça
Na raça
Que vai ensinar
A lição definitiva
Dessa vida
Bandida é a mão que mata e, ainda cínica, também se mata em carnificina
Malditos e mil vezes amaldiçoados
covardes
machos
michos
mochos
e murchos
meros mensageiros do inferno,
Que derrubou aquela bela
Toda faceira
E tão singela
Menina
Mulher
Merecedora de tudo
Do mel
E dos buquês de rosa
E cravo
Dos sons mais lindos e melodiosos
Do sabor dos frutos mais exóticos
E de desfrutar a vida como bem quiser
Se nua ou coberta de sedas e rendas
Com mil brilhantes
Ofuscantes e raros
Deliciosa dança
De um encantamento
Sensual
Em plena plenitude ser tudo e ser mortal.
Fonte: Brasil 247