Falta de investimento do governo federal em segurança gestou a guerra vitoriosa do crime organizado no país

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Por Irapuan Costa JuniorJornal Opção

Falta de investimento do governo federal em segurança gestou a guerra vitoriosa do crime organizado no país

Relendo meus escritos antigos, não resisto em ressuscitar algo acontecido mais de duas décadas atrás. No ano de 2003, já no ciclo de governos de esquerda no qual estamos até hoje vivendo, a cidade goiana de Posse foi vítima do que se chamava “novo cangaço”.

Duas ou três dezenas de bandidos fortemente armados tomaram de assalto a cidade, fizeram reféns, saquearam três agências bancárias e fugiram, deixando atrás de si um morto entre os civis e cinco policiais militares feridos, que os enfrentaram em inferioridade numérica e de armamento. E uma população traumatizada.

Na mesma época, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que havia deixado o governo, passava alguns meses em Paris, em um apartamento de luxo na exclusiva Avenida Foch. Sua ex-namorada (nada mais perigoso do que uma mulher abandonada) Miriam Dutra afirmava que o apartamento pertencia a FHC, embora este alegasse que era de seu amigo Jovelino Mineiro. Nada a ligar os dois acontecimentos?

Só na aparência a doce temporada parisiense de Fernando Henrique Cardoso nada tinha a ver com as horas de terror vividas pela população pobre da cidade de Posse e ferimentos nos bravos policiais, vítimas de uma turma organizada de bandidos.

São dois exemplos, extremos, é verdade, mas ambos injustos, de um fenômeno social que vem assolando, há mais de 40 anos, e a cada dia mais profundamente, a população brasileira. Chama-se degradação do serviço público.

Como o governo federal não planeja a segurança, o tráfico e seus afins passaram à frente do serviço público. Têm uma boa organização de informações, com infiltração nos poderes constituídos e até no inimigo (que são as polícias)

O aspecto mais visível desse fenômeno está presente no contato diário de quem lida com as repartições públicas brasileiras.

No governo federal, principalmente, quem busca um serviço público encontra nos funcionários a apatia de quem apenas finge que trabalha. Para eles tudo é difícil. Funcionários graduados, por se saberem intocáveis, e em muitos casos por terem outros ganhos, somam ao descaso uma arrogância ilimitada. Para estes, tudo que se pede é quase impossível, e quem os procura é um importuno que sequer merece uma palavra de esclarecimento.

Marcola, do PCC, e Fernandinho-Beira Mar: reis do crime organizado no Brasil | Fotos: Reproduções

Quem tem a infelicidade de recorrer a uma repartição pública, com as sempre honrosas exceções, já sentiu isso, tanto mais grave quanto mais alto é o posto ocupado.

Há quatro décadas em que não mais se planeja o serviço público. Fernando Henrique Cardoso é o exemplo mais alto do fato: eleito em grande parte pela esperança em seus dotes intelectuais — afinal, era um sociólogo internacional —, passou pelo poder durante oito anos sem planejar o País. Isto numa época em que a globalização exige que se pense cada vez mais longe, para ser competitivo.

A única coisa que foi planejada em seu governo foi a sua reeleição, a custo altíssimo, aliás, para o Brasil. As privatizações, feitas de improviso, se mostraram apenas desnacionalizações, e, o que é pior, realizadas com financiamento de instituições brasileiras.

A dívida pública atingiu a estratosfera e continua subindo. Campeiam a estagnação e o desemprego. A soberania nacional foi duramente atingida, pela redução dos gastos com defesa, pelo injusto tratamento dispensado às Forças Armadas e por uma postura de subserviência às exigências pacifistas dos organismos internacionais, dominados pelas grandes potências militares, que de pacifistas não têm nada. Mas a cúpula política melhorou de vida — e muito!

Contam-se nos dedos os países que podem aspirar a um grande desenvolvimento, e o Brasil é um deles. Juscelino Kubitschek, planejando (lembrem-se de seu Plano de Metas, devidamente cumprido), mostrou isso.

Só se vence uma guerra, se houver planejamento. O desenvolvimento econômico é inibidor do crime. Mas é preciso estratégia para promovê-lo. Mas são necessários os táticos, para ganhar as batalhas. E a batalha é aqui e agora

Os governos militares, tão execrados, mostraram isso, e nunca disseram que era necessário um país militarizado para continuar a se desenvolver. Não há mais o sentido de missão quando se assume uma Presidência da República. A Presidência é para o presidente e para os “companheiros” e não para o Brasil. Com os direitos (às vezes não tão direitos assim) e as pompas, mas sem as obrigações — e a primeira delas seria pensar o País.

O provincianismo do governo José Sarney mostrou isso. O despreparo do governo Fernando Collor mostrou isso. A vaidade do governo Fernando Henrique Cardoso mostrou isso. O atraso intelectual e esquerdista do governo Lula da Silva mostra isso a cada dia.

É mais grave, pois, na cúpula, a degradação do serviço público.

Desceu, até chegar às polícias. O governo federal pouco ou nada colabora com elas. Sai a degradação de Brasília e chega a Posse, não sem antes passar por quase todo o Brasil, principalmente pelo Rio de Janeiro, onde reina absoluta. Pobre Rio de Janeiro, que poderia ser um dos maiores pontos de atração turística do mundo, hoje refém da violência.

Essa degradação começa com os grandes, que se aproveitam. Passa por todos os níveis da burocracia estatal.

Como o governo federal não planeja a segurança, o tráfico e seus afins passaram à frente do serviço público. Têm uma boa organização de informações, com infiltração nos poderes constituídos e até no inimigo (que são as polícias). Suas operações são mais planejadas, seus soldados são mais bem pagos e mais bem armados. Ninguém, com um mínimo de esclarecimento, pode negar que estamos em guerra. Basta ver as operações (Posse que o diga). Basta ver as armas. Basta ver o número de mortes.   

Uma parte das autoridades prega que o problema é social, e só se resolve a longo prazo — é preciso desenvolver para diminuir a criminalidade — e que não é senão uma exacerbação das reivindicações sociais. Seria ingenuidade ou má-fé?

Ou prega a supremacia dos direitos humanos — não se deve combater o crime com a força, mas apenas com a parte branda da lei. Quando muito admite uma alteração em algumas partes da legislação, mas nunca um sistema penal duro como existe em partes mais avançadas do mundo.

Essa postura, manifestamente simplista, só tem agravado o problema. Se se convencessem, uns e outros, de que estamos em guerra, poderíamos vencer. Porque só se vence uma guerra, se houver estrategistas — para planejá-la.

O desenvolvimento econômico, é sem dúvida, um fator inibidor do crime. Mas é preciso uma estratégia, vale dizer, planejamento, para promovê-lo. Mas são necessários também os táticos, para ganhar as batalhas. E a batalha é aqui e agora. Nenhuma autoridade federal nas últimas quatro décadas apresentou medidas táticas efetivas no combate ao crime organizado.

Não falo do Rio de Janeiro, que desde Carlos Lacerda não tem um governo digno do nome. Falo das autoridades federais, a começar pelos ministros da justiça, que, com pouquíssimas exceções, não sabiam de que falavam, quando se referiam à segurança pública.

Quanto aos direitos humanos, tão defendidos unilateralmente por personagens menos experientes, é bom lembrar que, em termos de guerra, foram muito discutidos pelas maiores autoridades em direitos humanos do mundo, e estabelecidos nas convenções de Haia e Genebra. Estes é que deveriam serem observados no Brasil no que se refere ao exército do crime organizado, ficando os direitos constitucionais para nossos policiais que lutam ao lado da sociedade. Com os táticos de hoje as coisas estão invertidas. Ou pior que isso.

Finalmente, a diferença entre o ex-presidente em Paris e os policiais em Posse é que FHC pouco tentou cumprir sua missão. E os policiais tentaram, mesmo com risco de vida.  E os policiais de Posse não dispunham de efetivo, viaturas, armamento e treino para enfrentar a malta que tomou de assalto a cidade. E, apesar de tudo,  desempenharam a sua missão, mesmo esbarrando nas deficiências. Tanto que vários saíram feridos. As coisas estão piores lá em cima.

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Fonte: Jornal Opção

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