Fábio Felix: “Chega de fazer política morna”

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Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental

Fenômeno nas urnas, deputado eleito crê que é possível combater “pânico moral” com propostas para os problemas reais da população. Defende: a esquerda precisa voltar a pautar o futuro do país – com as ruas mobilizadas para barrar retrocessos no Congresso

Por Glauco Faria, em Outra Saúde

Em meio a um cenário eleitoral marcado pelo avanço expressivo da extrema direita no Congresso Nacional, Fábio Felix (PSOL) emergiu das urnas como o deputado federal mais votado da história do Distrito Federal, arrebatando mais de 224 mil votos.

Primeiro parlamentar abertamente LGBT a ocupar uma cadeira na Câmara Legislativa do DF, Felix construiu sua vitória unindo o trabalho institucional como parlamentar à presença constante nas ruas e nas redes sociais. Em entrevista concedida ao Outra Saúde em nosso programa no Farol Brasil, ele fez um diagnóstico sobre a atual conjuntura política, os desafios do campo progressista, a hipocrisia do discurso conservador e a necessidade de a esquerda abandonar o que ele classifica como “política morna”.

Para Fábio Felix, o sucesso de sua campanha e de outras como a que ajudou a eleger Max Maciel como o distrital mais votado da história e Keka Bagno como a primeira mulher negra de esquerda eleita para uma das cadeiras da Câmara Legislativa do DF é fruto de propostas conectadas com os problemas reais da população. 

“A extrema direita utiliza alguns gatilhos que geram um nível de pânico moral na população. Eles adoram debater o banheiro das pessoas trans. Esse é o tema central deles”, critica. Ele ressalta que esse debate não reflete os anseios da sociedade e ignora a violência letal que essa população sofre no Brasil. “Não é novidade, é uma estratégia política que eles utilizam há muito tempo. Quem não lembra do ‘kit gay’ que o [Jair] Bolsonaro usou na eleição de 2018? Eles vão criando esses gatilhos mentirosos e cínicos para tentar apresentar as ideias deles, que são muito distantes daquilo que realmente a população precisa.”

Diante dessa máquina de desinformação, Felix defende uma mudança de postura por parte do campo progressista. “A esquerda também precisa aprender a fazer o debate ideológico, aprender a se apresentar, colocar o seu programa na mesa e não recuar em momentos decisivos”, afirma. “Eu sou de uma esquerda que acha que a gente tem que parar de fazer a política morna e falar exatamente aquilo que a gente defende. Eu tenho um mandato que não é isentão.”

Além da guerra cultural, o deputado eleito alerta para os graves riscos econômicos que o projeto da extrema direita representa à classe trabalhadora. Ele cita como exemplo o posicionamento de figuras como o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro em relação a pautas trabalhistas, como o fim da escala 6×1. O filho do ex-presidente mudou de postura em relação à proposta às vésperas da votação no Senado.

“Ele fez um voto que é uma encenação patética, mas que, na verdade, é um voto oportunista na véspera da eleição para não perder votos. Mas se ele vence, a ideia dele é acabar com direitos trabalhistas e fazer uma reforma trabalhista no Brasil, inclusive revogar o fim da escala 6×1, como ele já anunciou para empresários”, denuncia Felix, revelando a contradição entre aquilo que Flávio fala em público e o que sua equipe conversa em reuniões reservadas com a elite econômico-financeira.

O alerta se estende aos planos econômicos do grupo do senador, que preveem cortes drásticos no orçamento público. “Eles querem fazer um corte de 250 bilhões na economia. E a gente sabe onde esses cortes acontecem: na verba da educação, da saúde, dos direitos sociais. Tem programas importantes hoje, como o Farmácia Popular, o Bolsa Família e o Mais Médicos, que vão sofrer um impacto muito grande”, projeta.

Felix lembra que a conta de promessas irresponsáveis sempre recai sobre os mais pobres. “Você acha que eles vão cortar a isenção fiscal dos grandes empresários? Não é aí que eles cortam, porque eles estão negociando com o andar de cima, com a elite econômica desse país. Eles querem fazer uma nova reforma da Previdência. Eu, que aposentaria com 60 anos, já vou aposentar com 65. E vão colocar para quantos? 75 anos?”, questiona.

Ao analisar as estratégias de campanha, especialmente a disputa presidencial, Fábio Felix reconhece a importância das redes sociais, mas faz ressalvas sobre o viés dos algoritmos das big techs, que frequentemente favorecem conteúdos da extrema direita. No entanto, ele aponta que a esquerda cometeu falhas de comunicação no primeiro turno ao focar excessivamente no passado.

“A campanha foi muito pautada pelo simbolismo do tapete vermelho, de um legado. E o legado nem sempre é transgeracional, ele não se conecta com todos os públicos. As pessoas estão preocupadas nesse momento com o futuro, com o dia seguinte”, avalia. Para ele, a correção de rota no segundo turno, com a retomada das mobilizações de rua e o foco na rejeição ao bolsonarismo, foi fundamental. “O ato em Brasília não foi um ato ‘Lula presidente’, foi um ato ‘Bolsonaro nunca mais’. Ele unifica amplos setores da sociedade que não toleram a extrema direita”, explica.

Independentemente do resultado final da corrida pelo Palácio do Planalto, Felix adverte que o próximo Congresso Nacional exigirá um grande trabalho de resistência por parte do campo progressista. Com um parlamento dominado pelo conservadorismo e pelo Centrão, a esquerda terá que buscar na sociedade formas de mobilização para combater retrocessos e garantir avanços.

“Nós vamos enfrentar uma aliança muito forte do Centrão com a extrema direita para atacar direitos sociais. A gente vai ter que ter uma espécie de dique de contenção permanente, uma barreira que só pode ser construída pela atuação dos parlamentares combativos, mas que só será efetiva se a gente tiver um pé na rua muito forte”, conclui o deputado. “Espero que os setores da centro-esquerda, que muitas vezes apostam muito mais nos acordos de corredor e palacianos, possam entender a importância da mobilização social permanente.”

Clique aqui para consultar postagens publicadas até 31/dez/15.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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