Experimento econômico de Milei fracassou e não serve ao Brasil, alertam economistas

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O experimento econômico do presidente da Argentina, Javier Milei, assentado no corte drástico de gastos, na corrosão de aposentadorias e salários pela inflação e no alto endividamento externo, fracassou e nem sequer é replicável no Brasil, sustentam o prêmio Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz, a professora da USP Laura Carvalho e o ex-ministro da Economia da Argentina Martin Guzman. A análise dos economistas contesta frontalmente a ideia do programa argentino como modelo para o país, uma tese defendida pelo campo bolsonarista no contexto da eleição presidencial brasileira, que será decidida no segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), aponta artigo publicado na Folha de São Paulo.

A defesa da plataforma de Milei pelos aliados de Flávio Bolsonaro ignora tanto as circunstâncias particulares que levaram o líder ultraliberal ao poder quanto os resultados reais de suas medidas na sociedade argentina. Quando os eleitores do país vizinho elegeram o atual mandatário, o problema mais urgente da economia era a inflação, que atingiu a marca de 211% em 2023. Em contraste direto, a taxa inflacionária brasileira está em torno de 4,6%, embora os juros extremamente elevados imponham severas pressões fiscais ao Estado.

No Brasil, a prioridade imediata da política econômica do governo Lula é elevar a renda real dos trabalhadores e criar empregos de melhor qualidade. Além disso, a gestão busca reduzir as taxas de juros o suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB e abrir espaço para um aumento sustentado do investimento, o que ampliaria a capacidade produtiva nacional e permitiria que o crescimento continuasse ou se acelerasse sem gerar pressões inflacionárias.

Ao analisar as ações práticas de Milei, o artigo destaca que o programa argentino se apoiou em três pilares fundamentais. O primeiro consistiu na eliminação rápida do déficit primário para encerrar o financiamento inflacionário do Tesouro pelo Banco Central. Na prática, essa meta foi alcançada principalmente por meio do corte agressivo de recursos para infraestrutura, ciência e universidades públicas, além da corrosão, promovida pela própria inflação, do valor real das aposentadorias e dos vencimentos do funcionalismo público. Paralelamente, o governo reduziu impostos para as parcelas mais ricas e concedeu incentivos fiscais generosos a grandes investimentos, sobretudo voltados ao setor de commodities.

A estratégia argentina de utilizar a espiral inflacionária para corroer o valor real das despesas públicas nem sequer pode ser aplicada em um ambiente de inflação baixa como o brasileiro. Ademais, diferentemente da situação vivida no país vizinho, a falta de espaço fiscal no Brasil decorre quase inteiramente do custo extremamente elevado do serviço da dívida pública — que se aproxima de 9% do PIB devido aos juros reais nas alturas —, e não do resultado primário das contas governamentais.

O segundo pilar do plano esteve calcado na taxa de câmbio, administrada pela gestão Milei como a principal ferramenta no combate à elevação dos preços. O terceiro esteve na promessa de desmantelar a estrutura do Estado mediante tesouradas orçamentárias e uma desregulamentação ampla. Contudo, como costuma ocorrer na trajetória de Milei, a retórica superou em muito a realidade efetiva das entregas.

O conjunto dessas medidas foi vendido sob a promessa de erradicar a inflação e fazer o investimento disparar para “tornar a Argentina grande de novo”. O slogan oficial se apoia no mito nostálgico de que as exportações de grãos e de carne bovina no fim do século 19 teriam transformado o país em uma potência econômica mundial. O atual governo prometeu inclusive que a taxa inflacionária mensal começaria com zero em meados de 2026, mantendo-se abaixo de 1%.

Entretanto, a equipe de Milei superestimou a velocidade da queda dos preços e subestimou gravemente os danos infligidos à atividade produtiva e ao mercado de trabalho. Embora a inflação tenha recuado, ela permanece distante da meta de zero: a taxa acumulada em 12 meses registra 33,5%, existindo profundas dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo atual no médio prazo.

A retração da inflação só foi possibilitada, em parte, por um câmbio mais valorizado que depende diretamente de financiamento externo, incluindo um novo empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) obtido sem respaldo político amplo. Somando-se esse novo montante ao valor recorde tomado junto ao órgão internacional em 2018 e 2019, a dívida total da Argentina com a instituição atinge US$ 57 bilhões. O montante não poderá ser quitado no cronograma atual, o que deixará a nação subjugada e dependente do fundo por muitos anos.

Os custos humanos e sociais cobrados pela experiência ultraliberal são devastadores para a população. Os salários reais despencaram quase 8% desde a posse do mandatário, enquanto a taxa de desemprego subiu de 5,7% para 7,9%. Ao mesmo tempo, a informalidade explodiu à medida que trabalhadores desempregados foram forçados a migrar para postos de baixa remuneração no setor de serviços.

Com o derretimento da renda real, um contingente cada vez maior de famílias perdeu a capacidade de honrar seus compromissos financeiros. A inadimplência bateu recordes históricos: 12,8% dos empréstimos bancários concedidos às famílias estão em atraso, em comparação com os 4,5% registrados um ano antes. O colapso afeta diretamente 6 milhões de pessoas — equivalente a mais de um quarto de todos os tomadores de crédito do país —, marcando o maior nível de aperto financeiro sobre os lares argentinos desde que o Banco Central local começou a compilar esses indicadores.

Os investimentos e o consumo familiar acumulam fortes quedas. No segundo trimestre, os investimentos recuaram 11,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, sinalizando um quadro preocupante para o futuro econômico. Diante da retração rápida do crédito em termos reais, o próprio setor financeiro vem encolhendo, cenário que se desenrola mesmo em um ambiente global com termos de troca excepcionalmente favoráveis ao país.

Como resultado inescapável, a economia argentina entrou em trajetória de encolhimento. O PIB recuou 0,6% no segundo trimestre em comparação com o primeiro, e a atividade econômica registrou queda de 2,9% no mês de julho frente ao período anterior. Os dados negativos levaram o banco JPMorgan a revisar para baixo a projeção de crescimento do país para este ano. A expectativa de uma nova contração do PIB no terceiro trimestre coloca a Argentina em recessão técnica, contrariando todas as promessas oficiais.

A fragilidade estrutural do modelo ficou evidente em 2025, quando a economia local enfrentou duas corridas cambiais contra o peso. Em ambas as oportunidades, a gestão precisou de socorro internacional. Na primeira crise, em abril, o FMI interveio com um socorro de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões já foram liberados. A segunda turbulência ocorreu nas semanas que antecederam as eleições legislativas de outubro, exigindo a intervenção direta do Tesouro dos Estados Unidos para sustentar a cotação da moeda nacional.

Sem o resgate externo, o peso teria sofrido uma desvalorização descontrolada e a inflação voltaria a disparar. Essas operações impuseram faturas pesadas ao país, tanto em novos compromissos financeiros quanto na perda de autonomia em sua política externa. Dependendo do suporte financeiro americano para impedir a disparada inflacionária, a Argentina transformou-se, na prática, em um Estado cliente dos Estados Unidos, nação que, sob o comando de Donald Trump, utiliza seu poderio econômico para promover interesses próprios sem consideração pelo direito ou pelas normas internacionais.

A avaliação final dos economistas é peremptória: o experimento de Milei fracassou. O único êxito parcial — a redução do ritmo inflacionário — cobrou um preço exorbitante. O sistema produtivo nacional está empobrecido, os trabalhadores enfrentam escassez de oportunidades e o setor público acumulou um endividamento ainda maior com o FMI, ficando perigosamente refém do apoio externo para sustentar a moeda nacional.

Em contraposição, o Brasil mantém uma trajetória oposta em sua relação com o Fundo Monetário Internacional, não recorrendo ao órgão desde que quitou integralmente seus débitos em 2005. Essa conquista garantiu ao país uma soberania econômica considerável, que precisa ser preservada e fortalecida perante pressões externas.

Sendo as duas maiores economias e forças do Mercosul, Brasil e Argentina deveriam cultivar ambições muito mais elevadas do que a precarização oferecida pelo projeto ultraliberal. A disputa presidencial no segundo turno opõe dois projetos de desenvolvimento antagônicos: de um lado, a busca por uma estrutura produtiva mais diversificada, inovadora, rica e inclusiva; do outro, a submissão a um modelo focado na dependência de commodities, no encolhimento do mercado interno e na redução do país à condição de Estado cliente dos Estados Unidos. A escolha no segundo turno coloca em jogo não apenas a manutenção da democracia brasileira, mas a própria prosperidade econômica conquistada ao longo das últimas décadas.

Fonte: Brasil 247

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