EUA entre a espada e a espada: como guerras, inflação e eleições de meio de mandato pressionam Trump e mexem com a sua carteira
Por Carolina Gama — Seu Dinheiro
A economia norte-americana está entre a espada e a espada — você não leu errado. Os EUA estão no meio de duas guerras, que têm alimentado a inflação e feito os yields (rendimentos) dos títulos de dívida do Tesouro renovarem máximas em décadas. Tudo isso com as eleições de meio de mandato batendo na porta.
De um lado, o presidente norte-americano, Donald Trump, não pode tirar o pé dos conflitos ainda que isso signifique preços do petróleo acima de US$ 100 o barril e combustíveis que não param de subir nas bombas.
De outro, as previsões indicam uma varrida democrata na eleição que vai renovar parte da Câmara e do Senado do país.
Para quem investe a partir do Brasil, a história importa por um motivo simples: quando a maior economia do mundo aperta o freio e o acelerador ao mesmo tempo, o solavanco chega ao dólar, aos juros globais e à bolsa.
A conta chegou na bomba
No Oriente Médio, o conflito com o Irã está no oitavo mês e voltou a esquentar — o Washington Institute contabiliza mais de duas dezenas de ataques desde o início de outubro. No Mar Vermelho, os houthis do Iêmen intensificaram ataques contra a Arábia Saudita.
Na Europa, Ucrânia e Rússia atingem a infraestrutura energética uma da outra antes do inverno. Kiev diz ter inutilizado metade da capacidade de refino russa. A Rússia, que antes de 2022 respondia por cerca de 10% das exportações mundiais de diesel, está em grande parte fora desse mercado.
O efeito aparece nas bombas e nos números oficiais, com gasolina e diesel em níveis recordes. Os índices de preços ao consumidor e ao produtor dos EUA aceleraram mais que o esperado, com a energia subindo no ritmo mais rápido desde março, logo após o início da guerra com o Irã.
A TD Economics explica por que o diesel é o primeiro a sofrer. “Os primeiros sinais de tensão costumam surgir não no petróleo bruto, mas nos derivados, já que diesel e querosene de aviação são particularmente sensíveis a gargalos de transporte”.
Segundo a casa, o mercado absorveu o choque até aqui com rotas alternativas, estoques estratégicos, menor demanda chinesa e produção fora do Golfo.
Dos cerca de 20 milhões de barris diários que corriam risco no início do conflito, o déficit ficou em apenas 1 a 2 milhões.
Mas a TD alerta que “estoques têm limite e que rotas alternativas são mais caras”. A casa vê o sistema energético “cada vez mais vulnerável” a novos choques.
Guerra só depois da urna?
É aqui que a política entra na equação. Trump disse que os EUA não retomarão ataques aéreos dentro do Irã antes das eleições, enquanto negociadores tentam uma saída diplomática.
“O governo Trump não quer o Brent a US$ 110 por barril indo para as eleições de meio de mandato, em cerca de 15 dias, e disse que só pretende escalar as ofensivas contra o Irã depois da votação, com o que espera ser uma onda vermelha”, escreveu a estrategista de macro multiativos do Rabobank, Molly Schwartz, em nota a clientes.
Ela vê risco de o Irã jogar com esse calendário. “O Irã também sabe quando são as eleições de meio de mandato nos EUA. Se quiser complicar os planos de Trump, agora é a hora perfeita para os houthis criarem problemas e tornarem cada vez mais difícil evitar uma intervenção norte-americana.”
Para tentar derrubar o preço do diesel, Trump também fechou um acordo para os EUA comprarem combustível russo, rompendo com anos de sanções.
Ele pediu ainda um cessar-fogo energético entre Moscou e Kiev. Logo depois, a Rússia bombardeou usinas elétricas ucranianas, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, respondeu que seguirá atacando refinarias russas.
A TD trabalha com um cenário-base menos dramático. Os EUA e o Irã voltam à mesa de negociação, as interrupções diminuem nas próximas semanas e o petróleo WTI fica em média perto de US$ 84 o barril até o fim do ano.
Em 2027, cairia para a faixa de US$ 70 a US$ 75, desde que as negociações avancem. Se falharem, o banco avisa que o sistema ficaria exposto a “um choque de oferta mais duradouro”.
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Os juros: a outra ponta da corda
Combustível mais caro significa inflação acelerada, e inflação elevada significa juros mais altos — e é aqui que o investidor sente o efeito mais de perto.
Os yields (rendimentos) dos Treasurys de dez e 30 anos estão em patamares que não se viam desde o início dos anos 2000. O de dez anos, usado como referência para tudo no mercado, opera por volta de 5,1% ao ano.
Vale um parêntese: o yield de um título longo se compõe de três ingredientes — a expectativa para os juros de curto prazo, a inflação esperada e o chamado prêmio de prazo, ou seja, o extra que o investidor exige para travar dinheiro por muitos anos.
Os economistas do TD estimam que esse prêmio subiu cerca de 20 pontos-base desde fevereiro e está perto de 90 pontos-base, acima da faixa habitual de 60 a 70.
Na leitura da casa, o movimento mostra que os investidores “exigem maior compensação pela incerteza” e que isso pode ser mais duradouro que a pressão sobre os juros de curto prazo.
O recado vale além dos EUA. Os prêmios subiram na maioria das economias avançadas, o que encarece o crédito em todo o mundo desenvolvido. Para o consumidor, isso pesa em financiamento de imóvel, cartão e carro. Para as empresas, pesa no custo de se endividar.
Quem manda nos juros de curto prazo é o Federal Reserve (Fed), hoje sob o comando de Kevin Warsh. Em setembro, o banco central norte-americano elevou a taxa por lá pela primeira vez em três anos, para a faixa de 3,75% a 4,00% ao ano.
Segundo o TD, com a inflação acima da meta de 2% há mais de cinco anos nos EUA, uma parcela crescente dos dirigentes do Fed “não demonstra disposição de continuar ignorando choques de preços”.
Uma economia que ainda se segura de pé
O quadro, no entanto, não é de recessão nos EUA. A TD projeta crescimento de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano em 2026, enquanto os demais países do G7, que incluem as economias mais avançadas do mundo, caminham abaixo de 1%.
O banco atribui a vantagem à produtividade, ao investimento em inteligência artificial e a uma política fiscal expansionista.
Mas há rachaduras. As gigantes de tecnologia devem gastar cerca de US$ 780 bilhões este ano e US$ 1 trilhão em 2027. As cinco maiores empresas ligadas ao setor já respondem por cerca de 24% do valor de mercado do S&P 500, mais que o dobro da média pré-IA.
A TD vê bolsões de vulnerabilidade entre empresas muito endividadas, mas não risco sistêmico.
No mercado de trabalho, a criação de vagas desacelerou, com média de 20 mil nos três meses até julho. O desemprego de 4,1% caiu mais por queda na participação no mercado de trabalho do que por contratação.
Além disso, a taxa de poupança das famílias caiu para 2,7% em junho, o menor nível em quatro anos. Os consumidores seguem gastando, mas a TD espera esfriamento no segundo semestre, com o fim do impulso dos reembolsos de impostos.
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A cruz nas urnas
É nesse cenário que os norte-americanos vão votar no dia 3 de novembro. Os 435 assentos da Câmara estão em jogo, e hoje os republicanos têm maioria de apenas quatro cadeiras. No Senado, 35 das 100 vagas estão em disputa, 22 delas hoje republicanas. Os democratas, com 47 cadeiras, precisam virar 4 para chegar a 51.
“Os democratas se tornaram favoritos para vitória nas duas casas do Congresso”, considerando perda histórica de assentos, aprovação do presidente, pesquisas e previsores por estado, segundo os analistas do Itaú BBA, Pedro Henrique Werneck e Bernardo Dutra.
E a história mostra por que os democratas devem levar a melhor agora. Em média, o partido do presidente perde 25 cadeiras na Câmara nas eleições de meio de mandato. Só em 1998 e 2002 isso não aconteceu, desde 1946.
Além disso, a aprovação de Trump está por volta de 37%, “ao redor da mínima histórica de todos os presidentes dos EUA desde 1945”. Esse nível indicaria perda de cerca de 22 assentos republicanos, “mais do que suficiente” para virar a Câmara.
Uma pesquisa nacional divulgada recentemente mostra que os democratas aparecem com 49,9% contra 40,8% das intenções de voto entre os norte-americanos.
Para o BBA, esse avanço de 9,1 pontos percentuais “é atribuído aos novos aumentos dos preços de gasolina”. É a guerra chegando ao voto.
O banco traz ainda um alerta de cautela. Em anos de eleição presidencial nos EUA, as pesquisas gerais costumam superestimar os democratas — erro médio de 2,6 pontos desde 2016. Nas eleições de meio de mandato, o erro tem sido próximo de zero.
O cenário atual lembra 2018, quando a aprovação de Trump era de 43% e a vantagem democrata nas pesquisas, de 7,5 pontos. Hoje são 38% e 9,1 pontos.
O petróleo também aparece no mercado de apostas. Segundo o BBA, desde o início da guerra com o Irã o aumento do petróleo e dos derivados “parece ter prejudicado a perspectiva de controle do Senado por parte dos Republicanos”.
Há correlação positiva entre WTI, diesel e a probabilidade que a Polymarket atribui ao controle democrata do Senado.
Vitória democrata dá poder total?
Mesmo com as duas casas, os democratas provavelmente não teriam os dois terços necessários para derrubar vetos de Trump.
Para o BBA, a capacidade de um Congresso democrata de “implementar uma agenda legislativa ainda seria bastante limitada”. O banco desenha três cenários:
- Congresso dividido (Câmara democrata, Senado republicano): predomina o impasse, com novas leis fiscais difíceis e a Câmara usada para fiscalização e investigações.
- Blue wave (a onda azul, com democratas nas duas casas): mais fiscalização e disputas orçamentárias, mas Trump vetaria avanços, como maior regulação de IA e do setor financeiro.
- Red keep (republicanos, os vermelhos, mantêm tudo): o governo aprofundaria a agenda, com possibilidade de novos estímulos fiscais e mais desregulamentação.
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E o seu dinheiro com isso?
O BBA fez um estudo de eventos com as eleições de meio de mandato de 1990 a 2022 e tira conclusões para os ativos:
- Dólar: em média, o índice DXY, que mede a moeda norte-americana contra uma cesta de divisas fortes, tende a enfraquecer quando o Congresso é dominado pelos democratas. Já em momentos de red wave, o dólar se valorizou.
- Bolsa: a reação média do mercado de ações norte-americano é positiva e mais espalhada entre as composições de Congresso. Em blue waves, o S&P 500 teve retornos positivos em vários dias subsequentes.
- Juros: em cenários de dominância republicana, os juros de 2 anos e a média abriram. Em cenários de dominância democrata, fecharam.
A conclusão do BBA é que se a blue wave se confirmar, o ambiente seria de “dólar mais fraco, menos pressão altista nas taxas de juros, mas não reversão na tendência de alta das bolsas”.
Para quem tem investimentos lá fora, em ETFs de S&P 500, BDRs ou títulos do Tesouro americano, a leitura é que a eleição de meio de mandato nos EUA por si só não deve derrubar a bolsa de Nova York. O que pode pesar mais é o que vem depois: o petróleo, a inflação e o Fed.
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Fonte: Seu Dinheiro