EUA e China buscam estabilidade estratégica em uma nova ordem global

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Estados Unidos e China caminham para uma relação baseada na busca de “estabilidade estratégica”, impulsionada pelo reconhecimento em Washington de que Pequim vem reduzindo a distância em relação ao poder norte-americano, especialmente no campo tecnológico e na inteligência artificial. A avaliação é de Vivek Mishra, vice-diretor do Programa de Estudos Estratégicos do Observer Research Foundation (ORF).

Segundo Mishra, a dinâmica atual não significa o desaparecimento da competição entre as duas maiores potências mundiais. O que está em curso é uma tentativa de administrar essa rivalidade, evitando que disputas comerciais, tecnológicas, militares e geopolíticas produzam uma escalada incontrolável.

A extensão da trégua comercial até 10 de janeiro de 2027 aparece como um dos sinais dessa busca por previsibilidade. A cautela de Washington diante de questões particularmente sensíveis para Pequim, sobretudo Taiwan, também indica a preocupação em impedir que divergências se transformem em confronto aberto.

Por trás desse movimento está uma transformação mais profunda na correlação de forças. A China ampliou sua capacidade econômica, tecnológica e militar e tornou-se uma concorrente direta dos Estados Unidos em setores considerados decisivos para o poder no século XXI.

A disputa pela inteligência artificial ocupa posição central nesse processo.

Diplomacia de cúpulas

Mishra destaca a crescente importância dos encontros entre os líderes das duas potências como mecanismo de administração das tensões.

O entendimento alcançado em Busan, em outubro de 2025, insere-se nessa lógica. Novas reuniões em fóruns como a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e o G20 podem aprofundar essa tentativa de estabelecer limites para a competição.

As cúpulas passam, assim, a funcionar como instrumentos para impedir que crises específicas contaminem toda a relação bilateral.

O problema, segundo a análise, é que uma acomodação negociada diretamente entre Washington e Pequim não equivale necessariamente ao fortalecimento da ordem multilateral.

Risco de um entendimento entre potências

A busca de acordos entre Estados Unidos e China pode produzir estabilidade bilateral sem necessariamente contemplar os interesses dos demais países.

Decisões tomadas pelas duas maiores potências tendem a priorizar suas próprias preocupações estratégicas e econômicas. Isso pode deixar outras nações à margem da definição das regras internacionais.

Mishra chama atenção também para os limites demonstrados pelas grandes potências diante das principais crises internacionais.

As guerras em Gaza e na Ucrânia e o conflito entre Estados Unidos e Irã evidenciam, em sua avaliação, a dificuldade tanto de Washington quanto de Pequim para contribuir decisivamente para soluções duradouras de conflitos.

Essa incapacidade amplia a importância de outros atores na preservação da ordem internacional.

O papel das potências médias

Nesse cenário, países classificados como potências médias podem assumir maior responsabilidade na defesa das instituições multilaterais.

Mishra cita Canadá, Índia, Austrália, Japão e Coreia do Sul como exemplos de países capazes de coordenar iniciativas destinadas a preservar regras, instituições e mecanismos de negociação internacional.

Nenhum deles, entretanto, possui capacidade para substituir isoladamente Estados Unidos ou China.

A alternativa seria construir coalizões flexíveis em torno de interesses comuns, ampliando o espaço diplomático dos países que não desejam subordinar suas políticas externas à rivalidade entre as duas superpotências.

BRICS e organizações regionais

O fortalecimento de organizações regionais e de agrupamentos do Sul Global é outra consequência dessa transformação.

BRICS, Organização para Cooperação de Xangai, ASEAN e MERCOSUL ampliaram suas agendas e sua relevância num momento em que diferentes países procuram alternativas ou complementos às instituições internacionais historicamente dominadas pelo Norte Global.

Esse movimento representa uma diversificação dos centros de poder internacional.

Mishra, entretanto, identifica também tensões nesse processo. A crescente centralidade da China em agrupamentos como BRICS e Organização para Cooperação de Xangai pode provocar preocupações entre países interessados em preservar uma agenda verdadeiramente multilateral, e não simplesmente substituir uma hegemonia por outra.

O desafio seria garantir que a ascensão de novas instituições resulte em maior pluralidade na governança mundial.

Reforma da ONU

Para Mishra, a resposta à transformação da ordem internacional não deveria ser o abandono das instituições existentes, mas sua reforma.

Nesse sentido, a mudança na composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas aparece como uma das prioridades.

A estrutura atual ainda reflete a distribuição de poder resultante da Segunda Guerra Mundial e não incorpora adequadamente o peso econômico, demográfico e político adquirido por países da Ásia, África e América Latina.

A estabilidade negociada entre Estados Unidos e China pode reduzir o risco de confronto entre as duas potências. Mas, na avaliação apresentada pelo pesquisador do ORF, isso não será suficiente para construir uma ordem internacional capaz de responder aos desafios contemporâneos.

Para as potências médias e os países do Sul Global, o desafio será preservar o multilateralismo justamente no momento em que Washington e Pequim procuram estabelecer diretamente as regras de convivência de sua competição estratégica.

Fonte: Brasil 247

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