EUA aprovam primeiro tratamento contra perda muscular em pacientes com AME
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, autorizou o uso do apitegromabe, primeiro tratamento para atrofia muscular espinhal (AME) desenvolvido para atuar diretamente sobre a perda de massa muscular. O medicamento, comercializado como Isembyld, é indicado para adultos e crianças a partir de 2 anos que já estejam em tratamento direcionado ao gene SMN2.
Segundo reportagem de O Globo, o fármaco produzido pela Scholar Rock também despertou interesse por um possível uso futuro no tratamento da obesidade. Estudos iniciais indicam que a substância pode reduzir a perda de massa magra observada durante o emagrecimento provocado por medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
O apitegromabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia a ação da miostatina, proteína que limita naturalmente o crescimento muscular. A estratégia representa uma mudança em relação aos medicamentos já disponíveis para AME, que atuam principalmente sobre os mecanismos genéticos e neurológicos responsáveis pela doença.
“A aprovação do primeiro inibidor da miostatina abre caminho para uma nova abordagem da obesidade, em que o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a ser a composição do corpo: perder gordura e preservar músculo”, afirmou o endocrinologista Ramon Marcelino, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e integrante do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.
Como o medicamento atua
A miostatina funciona como um regulador natural da musculatura. A proteína reduz a produção de novas proteínas musculares, favorece a degradação das já existentes e limita a atividade de células responsáveis pelo reparo e crescimento dos músculos.
O apitegromabe atua antes que a miostatina se torne ativa. Ao se ligar à proteína em sua forma precursora, o medicamento impede parcialmente o processo responsável por frear o desenvolvimento muscular.
Esse mecanismo interessa especialmente no tratamento da atrofia muscular espinhal, uma doença genética rara que afeta aproximadamente um em cada 10 mil nascidos vivos e está entre as principais causas genéticas de morte infantil.
A AME é causada por alterações no gene SMN1, responsável pela produção de uma proteína essencial à sobrevivência dos neurônios motores. Sem quantidade suficiente dessa proteína, essas células nervosas deixam progressivamente de funcionar, comprometendo a comunicação entre a medula espinhal e os músculos.
Como consequência, os músculos deixam de receber os estímulos necessários para a contração, perdem força e entram em processo de atrofia.
Os tratamentos já utilizados para a doença procuram aumentar a produção da proteína necessária à manutenção dos neurônios motores, principalmente por meio da atuação sobre o gene SMN2. Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, parte dos pacientes continua apresentando limitações importantes de movimento.
Estudo mostrou melhora da função motora
A segurança e a eficácia do Isembyld foram avaliadas em um estudo clínico de 52 semanas envolvendo 188 pacientes com AME entre 2 e 21 anos que não conseguiam andar ou se deslocar de forma independente.
Todos já recebiam algum tratamento aprovado direcionado ao gene SMN2. Os participantes foram divididos aleatoriamente entre grupos que receberam 10 mg/kg ou 20 mg/kg de apitegromabe por infusão intravenosa e um grupo que recebeu placebo. As aplicações ocorreram a cada quatro semanas.
A principal análise considerou 156 crianças com idades entre 2 e 12 anos. Após aproximadamente um ano, os pacientes que receberam a dose de 10 mg/kg apresentaram melhora da função motora, enquanto o grupo submetido ao placebo registrou declínio.
Segundo os resultados apresentados, quem recebeu o medicamento teve probabilidade mais de duas vezes maior de alcançar uma melhora considerada clinicamente significativa em comparação com os participantes que receberam placebo.
Entre as reações adversas mais frequentes estiveram infecções das vias respiratórias superiores, vômitos, tosse, infecções virais, dor de cabeça, gastroenterite e faringite.
Também foi observado aumento do risco de fraturas, inclusive casos graves. O medicamento ainda pode provocar danos ao feto e interferir na função reprodutiva.
Preservação muscular durante o emagrecimento
A ação sobre a musculatura fez a Scholar Rock investigar o apitegromabe também em pessoas que utilizam medicamentos para perda de peso.
Um estudo de fase 2 reuniu 102 adultos com sobrepeso ou obesidade. Parte dos participantes recebeu apenas tirzepatida durante 24 semanas, enquanto outro grupo foi tratado com uma combinação de tirzepatida e apitegromabe.
No fim do período, a perda total de peso foi semelhante nos dois grupos. A diferença apareceu na composição do peso eliminado.
Entre os voluntários que receberam apenas tirzepatida e placebo, 30,2% da redução correspondeu à perda de massa magra. No grupo que também recebeu apitegromabe, essa proporção caiu para 14,6%.
Em termos absolutos, os pacientes tratados com apitegromabe perderam 1,9 quilo a menos de massa magra. Segundo os dados do estudo, isso correspondeu a uma preservação muscular 54,9% maior.
Os resultados foram publicados na revista científica Nature Medicine. As taxas gerais de eventos adversos foram semelhantes nos dois grupos.
Uso contra obesidade ainda não foi autorizado
Apesar dos resultados, a aprovação concedida pela FDA vale exclusivamente para o tratamento da atrofia muscular espinhal. O uso do apitegromabe contra a perda muscular associada ao emagrecimento ainda precisa passar por estudos clínicos de fase 3.
A Scholar Rock busca parceiros para realizar essa etapa e avaliar a preservação e a recuperação da massa muscular quando o medicamento é administrado em combinação com a tirzepatida.
A autorização para AME, entretanto, torna possível que médicos considerem o chamado uso “off label”, quando um medicamento é prescrito para uma finalidade diferente daquela oficialmente aprovada.
O preço pode representar uma importante barreira. Segundo a Reuters, o tratamento deve custar cerca de US$ 310 mil por ano para um paciente típico, aproximadamente R$ 1,7 milhão.
Ramon Marcelino ressalta que os resultados obtidos até agora não justificam a utilização rotineira do medicamento contra a obesidade.
“Não há, neste momento, nenhuma indicação aprovada de inibidores de miostatina para obesidade, e o uso fora da bula, sem estudos que comprovem segurança, não é recomendado”, afirmou.
Outras drogas seguem caminho semelhante
Outros medicamentos destinados à preservação muscular durante o emagrecimento também estão sendo testados.
Um deles é o bimagrumabe. Resultados de fase 2 publicados em março na Nature Medicine mostraram que a associação da substância com semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, levou a uma redução de 22,1% do peso corporal depois de 72 semanas.
Nesse grupo, menos de 10% do peso perdido correspondia a massa muscular. Entre pacientes tratados somente com semaglutida, essa proporção ficou próxima de 30%.
Os estudos refletem uma nova frente de pesquisa aberta pela popularização dos medicamentos contra obesidade: fazer com que a redução do peso corporal ocorra predominantemente pela eliminação de gordura, limitando ao máximo a perda de músculos.
Fonte: Brasil 247