Esquerda elege 47 deputadas federais, recorde em um Congresso branco e masculino: ‘O machismo não pode decidir quem ocupa o poder’
Por Rodrigo Chagas — Brasil de Fato
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Os partidos de esquerda elegeram 47 mulheres para a Câmara dos Deputados nas eleições deste domingo (4). A federação formada por PT, PCdoB e PV conquistou 34 cadeiras, a maior bancada feminina entre as forças partidárias. O resultado foi acompanhado de votações expressivas de candidaturas progressistas em diferentes estados, que terão pela frente um Congresso de maioria conservadora.
Ao todo, 109 mulheres foram eleitas deputadas federais, contra 91 em 2022. A representação feminina crescerá de 17,7% para 21,2% das 513 cadeiras, ainda distante da proporção de mulheres na população brasileira, de 51,5%. A nova Câmara seguirá dominada por homens brancos, que ocuparão 301 cadeiras, ou 58,7% do total. Entre as 47 deputadas de esquerda e centro-esquerda, 20 são negras e duas indígenas, segundo levantamento da Revista AzMina e da Alma Preta.
A diferença entre PT e PL, os dois maiores partidos da Câmara, evidencia o contraste na composição das bancadas. O PT elegeu 25 mulheres entre seus 70 deputados, o equivalente a 35,7%. No PL, que terá 121 parlamentares, foram eleitas 22 mulheres, ou 18,2%. Assim, embora tenha conquistado a maior bancada da Casa, o partido de Flávio Bolsonaro terá proporcionalmente quase metade da presença feminina registrada pelo PT.
A eleição também produziu recordes individuais. Erika Hilton (Psol-SP) recebeu 1.596.472 votos e tornou-se a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. Entre os cinco deputados federais mais bem votados de São Paulo, três são mulheres de esquerda. Além de Erika, Sâmia Bomfim fez 583.107 votos, e Tabata Amaral (PSB) teve 476.383.
No Rio Grande do Norte, Natália Bonavides (PT) liderou a votação para deputada federal, com 215.509 votos. Camila Jara (PT) repetiu o feito em Mato Grosso do Sul, onde também foi a candidatura mais votada para o cargo.
Nas assembleias legislativas, mulheres de esquerda também alcançaram resultados expressivos. Em São Paulo, Sofia Favero (Psol) foi eleita com 407.773 votos, a terceira maior votação geral. Em Pernambuco, Dani Portela (PT) liderou a disputa estadual, com 146.123 votos, enquanto Maedja Campos (PDT) ficou em primeiro lugar no Maranhão, com 102.694. Em Minas Gerais, Beatriz Cerqueira (PT) recebeu 328.402 votos, a segunda maior votação para a Assembleia estadual.
O avanço chegou também ao Senado, que elegeu 12 mulheres, um recorde para uma única eleição. Quatro delas são do campo progressista: Marília Campos (PT-MG), Marília Arraes (PDT-PE), Luizianne (Rede-CE) e Samanda de Lula (PT-RN). Apesar disso, a Casa terá apenas 18 mulheres entre seus 81 integrantes a partir de 2027.
Apesar do crescimento numérico, esta eleição deixou sem mandato lideranças progressistas de projeção nacional, como Marina Silva (Rede-SP), Simone Tebet (PSB-SP), Benedita da Silva (PT-RJ), Manuela d’Ávila (Psol-RS), Áurea Carolina (Psol), Gleisi Hoffmann (PT-PR) derrotadas nas disputas pelo Senado.
Na direita, por outro lado, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis (PL-DF), Caroline de Toni (PL-SC) e Gracinha Caiado (União-GO) conquistaram cadeiras.
Eleita por Pernambuco, Marília Arraes avalia que a ampliação da representação feminina precisa produzir mudanças concretas na atuação do Legislativo. “Minha eleição carrega uma responsabilidade enorme: transformar a confiança dos pernambucanos em trabalho e abrir caminhos para outras mulheres”, afirmou ao Brasil de Fato.
“Essa conquista precisa se traduzir em oportunidades, respeito e poder de decisão”, acrescentou. “Existe uma diferença profunda entre ocupar uma cadeira e usar essa cadeira para enfrentar as desigualdades.”
No Ceará, a participação feminina cresceu nas duas Casas legislativas. O estado passou de três para cinco deputadas federais e de nove para 14 estaduais. Entre as eleitas está Luisa Cela (PT), ex-secretária estadual da Cultura, que recebeu 93.321 votos em sua primeira disputa eleitoral.
Para a futura deputada federal, as conquistas representam também a possibilidade de fortalecer a articulação entre parlamentares progressistas no enfrentamento à extrema direita.
Ela destaca, entretanto, que a violência contra as mulheres continua sendo uma barreira para a participação política. “A política ainda é um lugar muito hostil para nós, mulheres. Nós lutamos muito para chegar e, quando chegamos, sofremos muitas violências”, afirmou.
Segundo Luisa, agressões e ameaças dirigidas também às famílias das candidatas podem afastar mulheres da vida pública.
No Rio Grande do Norte, a Marcha Mundial das Mulheres associa os resultados da esquerda à organização dos movimentos populares e à trajetória do governo de Fátima Bezerra (PT). Além de Natália Bonavides e Samanda de Lula, foram eleitas Thabatta Pimenta (PV), para a Câmara Federal, e Isolda Dantas (PT), reeleita deputada estadual com mais de 60 mil votos.
“Tem muito peso dos movimentos sociais organizados e enraizados no território, mas tem também a continuidade, a memória e a história de um governo popular de oito anos que nós vivemos aqui no Rio Grande do Norte, com a professora Fátima Bezerra”, avaliou Estefane Maria, militante da Marcha Mundial das Mulheres no estado.
Ela ressalta que as vitórias ocorreram em meio a episódios de violência política contra mulheres de esquerda. Natália Bonavides recebeu ameaças durante a campanha, enquanto a vereadora Brisa Bracchi (PT), de Natal, enfrentou processos que buscavam a cassação de seu mandato.
O crescimento da votação progressista, porém, nem sempre se converteu em novas cadeiras. Em Santa Catarina, a vereadora Carla Ayres (PT) recebeu 76.477 votos para deputada federal, praticamente o dobro dos 39.609 obtidos em 2022, mas ficou fora das três vagas conquistadas pela federação PT-PCdoB-PV. Duas delas foram ocupadas por mulheres, entre as quais Ana Paula Lima (PT), a segunda candidatura mais votada do estado para a Câmara Federal.
Carla reconhece que o financiamento de campanha, a estrutura partidária e o machismo influenciam as condições da disputa, mas ressalta que o resultado também depende das regras do sistema proporcional e do desempenho coletivo da federação.
“Ter ficado sem mandato, isso obviamente eu não quero que seja lido como uma derrota, porque efetivamente nós dobramos a votação”, afirmou.
Segundo levantamento do Monitor 72 Horas, com base nas prestações de contas das campanhas ao TSE, o PL destinou às candidaturas femininas apenas 26,4% dos recursos declarados do Fundo Eleitoral, contra 73,6% direcionados aos homens. No PT, as mulheres receberam 38,8% dos recursos, enquanto no Psol essa fatia chegou a 55,7%. Os dados, atualizados em 5 de outubro, ainda estão sujeitos a ajustes nas declarações dos partidos.
A cientista política Irina Ferrari, mestre em administração pública e diretora de Advocacy do Instituto Levante Mulheres Vivas, avalia que a diferença de representação entre os partidos revela desigualdades que antecedem as eleições. Segundo ela, o acesso limitado das mulheres a recursos, posições de liderança e instâncias decisórias partidárias compromete a competitividade das candidaturas.
“Não podemos esperar que a urna, sozinha, corrija desigualdades construídas ao longo de toda a trajetória social, econômica e profissional das mulheres”, afirma.
Para Irina, os resultados também demonstram que nenhum dos campos políticos brasileiros oferece condições efetivamente iguais de acesso ao poder para homens e mulheres, apesar das diferenças entre as bancadas.
A deputada estadual eleita Sofia Favero (Psol-SP) também critica a forma como a extrema direita mobiliza o eleitorado feminino, especialmente ao apresentar a população trans como uma ameaça à segurança das mulheres.
“É uma estratégia de demonização que transforma minorias em inimigos para esconder problemas muito maiores”, afirmou ao Brasil de Fato.
A ampliação da presença feminina não alterou o predomínio masculino nem a maioria conservadora no Congresso. Na avaliação das entrevistadas, a próxima legislatura exigirá das parlamentares progressistas articulação para defender direitos já conquistados e avançar em políticas de combate à violência, autonomia econômica e igualdade de gênero.
Irina Ferrari destaca que o crescimento das candidaturas conservadoras não ocorreu espontaneamente. Segundo ela, a direita investiu na formação de lideranças femininas por meio de estruturas partidárias, redes religiosas e movimentos conservadores, construindo discursos voltados a questões como maternidade, família, violência e segurança dos filhos.
“Quando uma liderança fala sobre medo, filhos, violência, família, cuidado e insegurança, ela está falando de problemas que essas mulheres reconhecem como reais em suas vidas. A divergência está muitas vezes na explicação para esses problemas e nas soluções apresentadas”, analisa.
Marília Arraes, que disputou o governo de Pernambuco em 2022, afirma que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ultrapassam as regras eleitorais e se manifestam também no tratamento dado às candidatas.
“Somos cobradas de maneira diferente, temos nossa capacidade questionada e, quando defendemos nossas posições com firmeza, somos chamadas de brigonas. Vivi isso e sei que essa realidade afasta muitas mulheres da política”, relatou.
No Senado, Marília pretende priorizar o enfrentamento à violência contra as mulheres, a ampliação do acesso às creches, a saúde feminina e a autonomia econômica. Também defende uma articulação com Teresa Leitão (PT-PE), cujo mandato prossegue até 2031, e outras senadoras progressistas para assegurar recursos e fiscalizar políticas públicas.
A divisão do trabalho de cuidado aparece igualmente entre as preocupações de Luisa Cela. A deputada eleita considera que as responsabilidades domésticas, ainda concentradas nas mulheres, dificultam sua permanência no mercado de trabalho e o acesso a cargos de liderança. Ela defende políticas que envolvam o Estado, os homens e a iniciativa privada na distribuição dessas tarefas.
Os direitos reprodutivos serão outra frente de disputa. Às vésperas do primeiro turno, o Fórum Direitos Reprodutivos e Democracia, formado por pesquisadoras, juristas e profissionais de diferentes áreas, divulgou um manifesto em apoio à reeleição de Lula e alertou para o risco de retrocessos nos direitos das mulheres em caso de vitória da extrema direita. O documento defende a autonomia feminina, os direitos sexuais e reprodutivos e a igualdade de gênero, além de rejeitar o uso político da religião.
Uma das integrantes do Fórum, a socióloga Jacqueline Pitanguy, fundadora e coordenadora executiva da Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), critica o silêncio de setores progressistas sobre o aborto durante as campanhas eleitorais, enquanto a direita transforma a oposição a esse direito em instrumento de mobilização política.
Estefane Maria, da Marcha Mundial das Mulheres, considera que a composição do novo Congresso exigirá atenção especial à preservação das hipóteses legais de aborto e das políticas de proteção às mulheres. “A gente vai precisar fazer esse enfrentamento de defender o que já é legalizado para garantir que não não exista a regressão e que se tenha um cumprimento dessa lei.”
Ela defende também a ampliação das políticas de cuidado e o fim da escala de trabalho 6×1, pautas que associa à autonomia econômica feminina.
Em São Paulo, Sofia Favero avalia que a atuação das parlamentares de esquerda precisará relacionar a defesa dos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ a problemas enfrentados pelo conjunto da população. A deputada estadual eleita cita, entre suas prioridades, o fortalecimento da educação pública, da ciência, das políticas de permanência estudantil e dos serviços públicos.
“Diante da força da direita na Assembleia, nosso principal desafio será mostrar que defender os direitos das mulheres e da população LGBT não é fazer política de nicho”, afirmou.
Para Sofia, a disputa com o conservadorismo também dependerá da capacidade da esquerda de ampliar seu diálogo com a sociedade e recolocar demandas econômicas e sociais no centro do debate público.
“Nosso desafio é mudar essa agenda: falar de vida real, de educação, ciência, saúde, moradia, trabalho e dignidade”, disse.
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Fonte: Brasil de Fato