Esquema nas redes sociais expõe militância paga a favor de Raquel Lyra e ataques a João Campos
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Uma investigação do Metrópoles revelou a existência de uma operação de engajamento pago nas redes sociais voltada a inflar a imagem pública da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), e a promover ataques e críticas ao seu adversário político, o prefeito do Recife, João Campos (PSB). A engrenagem funcionava por meio da distribuição de missões e metas em grupos de mensagens no WhatsApp, com remunerações financeiras periódicas comprovadas aos participantes.
Mensagens e comprovantes de transferências bancárias via Pix documentam que os pagamentos semanais eram efetuados pela advogada Maria Eduarda Lucena, conhecida como Duda. Ela manteve vínculo profissional com a empresa de apostas Aposta Ganha entre janeiro de 2024 e junho deste ano.
Os integrantes do grupo recebiam o valor fixo de R$ 75 por semana para cumprir as diretrizes de publicação e engajamento. A advogada afirmou que, no ano de 2024, foi abordada por um emissário ligado ao prefeito de Caruaru, Rodrigo Pinheiro (PSD) — aliado político estratégico da governadora —, com a missão de estruturar e gerenciar a atuação nas redes digitais. O levantamento identificou uma série de comentários elogiosos a Raquel e postagens críticas a João Campos publicados exatamente nos períodos correspondentes às orientações repassadas pela advogada, entre os meses de julho e dezembro de 2024.
O acervo de conversas expõe um esquema rígido de cobrança, monitoramento e disciplina sobre a militância paga. Em uma das interações registradas em dezembro de 2024, Duda ordenou uma mobilização em massa para publicar comentários positivos em uma postagem específica sobre a avaliação da gestão estadual. Em outro diálogo, a advogada informou a realização dos repasses via Pix e advertiu expressamente que os participantes que não demonstrassem o rendimento esperado ou descumprissem as metas poderiam ser cortados do grupo ou sofrer descontos nos valores recebidos.
Outro detalhe operacional revelado foi a instrução direta para o uso de emojis de corações roxos nas postagens, marca visual associada à militância de Raquel Lyra. Uma amostragem de dados analisada constatou que 30 dos 86 comentários publicados nas postagens indicadas continham o símbolo ao final da mensagem, o que corresponde a 35% do volume total verificado. Questionada, a advogada negou ter determinado ataques sistemáticos contra João Campos e assegurou que jamais orientou comentários contrários a qualquer figura pública.
O caso ganha novos contornos políticos ao alcançar o pleito eleitoral de 2026. Segundo revelou a advogada, integrantes da equipe de Raquel Lyra voltaram a procurá-la em 2026 com a proposta de montar um novo grupo no WhatsApp. A administradora alegou que, nesta nova etapa, a atuação teria caráter voluntário. No entanto, duas testemunhas confirmaram que a nova estrutura foi efetivamente criada e colocada em funcionamento no mês de agosto.
A investigação também trouxe à tona teias de relações empresariais e políticas entre os operadores do grupo e a empresa Aposta Ganha. Duda declarou manter vínculo com a empresa Prospect Eventos e Consultoria, da qual afirma ser proprietária. Dados oficiais da Receita Federal, contudo, apontam que a empresa está registrada em nome de Alex Galindo. Ele era participante ativo de um dos grupos de mensagens e atua como chefe de operações da Aposta Ganha.
Outro integrante citado no esquema é o advogado David Antony Neves, que atuou ao lado de Duda e também prestou serviços para a empresa de apostas. Anteriormente, ele ocupou cargo comissionado no Governo do Estado de Pernambuco, exercendo funções na Secretaria de Agricultura entre agosto de 2023 e abril de 2024.
Procurada pelo portal Metrópoles, a assessoria de imprensa da governadora Raquel Lyra informou que ela não se manifestaria nem concederia entrevista. A Aposta Ganha negou categoricamente qualquer tipo de financiamento de atividades político-eleitorais, declarando que não apoia, financia ou contrata pessoas para manifestações em redes sociais a favor ou contra partidos e candidatos.
Fonte: Brasil 247