Escândalo do Master vai eleger quem pegou dinheiro de Vorcaro?, questiona Bernardo Mello Franco
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – O avanço de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas presidenciais, apesar das investigações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, levou o jornalista Bernardo Mello Franco a apontar um paradoxo na disputa pelo Palácio do Planalto. “O escândalo do Banco Master pode dar votos ao único candidato que tomou dinheiro de Daniel Vorcaro?”, questiona o colunista.
Em artigo publicado em O Globo, Mello Franco afirma que esse cenário “é o que parece acontecer na eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas divulgadas nos últimos dias”. Segundo o jornalista, entre os 12 concorrentes mencionados por ele, Flávio é o único apontado como beneficiário direto de recursos provenientes de Vorcaro.
O colunista lembra que o senador é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A apuração envolve recursos destinados ao projeto Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Segundo Mello Franco, Flávio foi “flagrado pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro”, a quem tratava como “irmão”. O jornalista também recupera a reação inicial do senador quando foi confrontado sobre o episódio: “É mentira! De onde você tirou isso?”.
Mudança de versão e o projeto Dark Horse
Depois que as tratativas com Vorcaro vieram a público, Flávio reconheceu ter solicitado recursos, mas afirmou que buscava patrocínio para a produção cinematográfica.
Mello Franco observa que o senador passou então a apresentar o projeto como uma “obra-prima”. O colunista também ressalta que Flávio não apresentou a prestação de contas que havia prometido sobre os recursos envolvidos na produção.
O jornalista questiona ainda a dimensão financeira do projeto. Em tom crítico, escreve que o senador não explicou “como uma fita capenga, produzida pelo astro de ‘Floribella’, poderia se tornar o filme mais caro da história do cinema brasileiro”.
As expressões são avaliações do próprio colunista. A investigação da PF, por sua vez, busca esclarecer as circunstâncias das operações relacionadas aos recursos destinados ao projeto e eventuais irregularidades.
Flávio recupera espaço nas pesquisas
Para Mello Franco, o aspecto politicamente mais significativo do episódio é que as revelações sobre a relação entre Flávio e Vorcaro não impediram a recuperação eleitoral do senador.
O colunista afirma que Flávio voltou a conquistar os pontos que havia perdido em maio, quando o caso Dark Horse ganhou repercussão. Segundo ele, o senador passou a aparecer em empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas simulações de segundo turno citadas em sua análise.
“Há algumas explicações na praça para o paradoxo do Master”, escreve.
Na interpretação apresentada na coluna, a principal delas é a crise instalada no Supremo Tribunal Federal. Mello Franco afirma que essa leitura seria compartilhada pelas campanhas de Lula e Flávio e sustenta que o senador se beneficia politicamente do desgaste da Corte.
Crise no STF favoreceria discurso antissistema
Segundo Mello Franco, a percepção de envolvimento da cúpula do Judiciário em suspeitas de corrupção cria terreno para candidatos que exploram um discurso contra as instituições e o sistema político.
O jornalista estabelece um paralelo com a eleição de 2018, quando Jair Bolsonaro chegou à Presidência em meio aos efeitos políticos da Operação Lava Jato e à forte rejeição de parte do eleitorado ao sistema partidário tradicional.
Na avaliação do colunista, outro fator que favorece Flávio é o fato de Alexandre de Moraes ter passado a ocupar posição central na crise do STF.
Mello Franco recorda que Moraes foi indicado ao Supremo pelo então presidente Michel Temer, mas posteriormente tornou-se um dos principais alvos do bolsonarismo devido à sua atuação nos processos que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados.
“O ministro foi indicado por um presidente de direita, mas se notabilizou como o homem que prendeu Jair Bolsonaro”, escreve.
O colunista avalia ainda que o desgaste de Moraes pode atingir indiretamente Lula, apesar das tentativas do presidente de manter distância do caso. Trata-se de uma interpretação política apresentada por Mello Franco, e não de uma conclusão das investigações sobre o Banco Master.
Mello Franco aponta atuação de Mendonça
O artigo também concentra críticas na atuação do ministro André Mendonça, relator de investigações relacionadas ao caso no STF e ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro.
“Por fim, é difícil não notar a mão amiga de André Mendonça em favor de Flávio”, afirma Mello Franco.
O jornalista sustenta essa avaliação citando a demora para que viesse a público a informação de que Flávio estava sob investigação da Polícia Federal.
“O ministro ocultou por quase dois meses a informação de que o presidenciável era investigado pela PF”, escreve.
Mello Franco também critica a forma como Mendonça tratou as referências a integrantes do Supremo encontradas no material relacionado a Vorcaro. Segundo a interpretação do colunista, o ministro teria protegido três colegas mencionados no celular do banqueiro ao mesmo tempo em que expôs Moraes.
“E ainda protegeu três colegas citados no celular de Vorcaro enquanto lançava Moraes sozinho na fogueira”, afirma.
O paradoxo político do caso Master
A questão central levantada por Bernardo Mello Franco é, portanto, eleitoral: como um candidato diretamente atingido pelas investigações relacionadas a Vorcaro consegue avançar nas pesquisas justamente enquanto o escândalo do Banco Master ganha dimensão política?
Para o colunista, a resposta passa pela mudança do foco do caso. Em vez de permanecer concentrado exclusivamente nos políticos e empresários que mantiveram relações com Vorcaro, o escândalo passou a atingir o STF e alimentar uma crise dentro da própria Corte.
Nesse ambiente, segundo a análise de Mello Franco, Flávio consegue explorar o desgaste institucional enquanto as suspeitas envolvendo sua própria relação com Vorcaro perdem espaço no debate público.
É essa contradição que leva o jornalista a formular a pergunta que sintetiza sua coluna: se o caso Master atingiu diretamente Flávio Bolsonaro, por que o senador aparece entre os beneficiados politicamente pela crise desencadeada pelo próprio escândalo?
Fonte: Brasil 247