Erika Hilton celebra avanço feminista apesar da força da extrema direita: ‘EUA e big techs impulsionam ataque aos direitos das mulheres’

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Por Rodrigo Chagas — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

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A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) foi reeleita com 1.596.472 votos e se tornou a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. O resultado ocorreu em uma eleição que ampliou a presença feminina no Congresso, mas também fortaleceu uma maioria de direita e levou mulheres de discurso antifeminista a votações expressivas em diferentes estados.

A partir de 2027, a Câmara terá 109 deputadas, contra 91 eleitas em 2022. As mulheres ocuparão 21,2% das 513 cadeiras. Entre elas, 47 foram eleitas por partidos de esquerda, enquanto 62 são de direita.

Hilton vê, no desempenho das candidaturas progressistas, um reconhecimento do trabalho realizado durante a atual legislatura. No próprio caso, atribui a votação à combinação entre pautas que atingem diretamente a vida dos trabalhadores, como o fim da escala 6×1, atuação institucional e presença nas redes.

“Entendo que esse resultado é, primeiramente, um reconhecimento do trabalho que desenvolvi nos últimos quatro anos. Mas também é fruto de uma combinação entre propostas de grande relevância, como o fim da escala 6×1, uma atuação constante no Judiciário e uma comunicação efetiva”, afirmou ao Brasil de Fato.

A parlamentar diz que sua atuação procurou combinar essas agendas com a defesa de grupos historicamente discriminados.

“As pessoas esperam respostas para os seus problemas reais, e é isso que eu me dediquei a fazer de forma interseccional, sem nunca deixar de falar dos direitos das mulheres, da comunidade LGBT+, da população negra, da população em situação de rua e outros grupos atacados por esse sistema.”

Para Hilton, o desempenho eleitoral das mulheres de esquerda também decorre da atuação construída durante os últimos quatro anos dentro e fora do Congresso.

“As candidaturas das mulheres de esquerda fizeram história por conta do enfrentamento que fomos capazes de fazer, na Câmara, nas ruas e nas redes, mesmo sendo a minoria da minoria na política”, diz. “Uma parcela relevante da população viu o nosso trabalho e confiou em nós para protegermos seus direitos frente a uma agenda de ódio e subalternização das mulheres.”

O avanço das candidaturas progressistas ocorreu ao mesmo tempo em que mulheres identificadas com a direita conquistaram espaços importantes. A nova bancada feminina da Câmara será mais plural ideologicamente, enquanto o conjunto da Casa continuará majoritariamente à direita. Parlamentares conservadoras também tiveram algumas das maiores votações estaduais.

Hilton insere esse resultado em um movimento internacional de reação a direitos conquistados por mulheres e minorias.

“Existe um movimento global de ataque aos direitos das mulheres que está sendo impulsionado abertamente pelo governo dos EUA e pelos bilionários das big techs. No caso das big techs, há até a monetização do discurso red pill e incel”, afirma.

A deputada considera que esses discursos procuram redirecionar para mulheres e minorias a insatisfação com problemas econômicos e sociais. “O que eles querem é convencer a população de que, de alguma forma, as condições materiais precárias que o sistema capitalista lhes oferece são culpa da liberdade, da felicidade e dos direitos das mulheres e minorias políticas”, diz.

“Estão pegando a insatisfação causada pelo sistema em que vivemos e colocando a culpa dela nas maiores vítimas desse sistema”, completa.

Para Hilton, a força eleitoral de candidaturas antifeministas mostra que esse discurso extravasou das redes para as urnas. “E isso colou. Isso virou voto feminino em quem quer o fim do voto feminino.”

A nova composição da Câmara impõe, na avaliação da deputada, uma disputa ainda mais dura em torno dos direitos das mulheres. A direita elegeu 303 dos 513 deputados federais, enquanto os partidos classificados à esquerda ficaram com 124 cadeiras.

Hilton afirma que a atual legislatura demonstrou, porém, que uma correlação de forças desfavorável não impede avanços quando há mobilização dentro e fora do Parlamento.

“Nessa legislatura, mesmo com tudo apontado contra nós, conseguimos avanços importantes nos direitos das mulheres, como o avanço da criminalização da misoginia e outras legislações que protegem a vida das mulheres, e derrotar bancadas gigantescas que queriam aprovar propostas como o PL do Estupro.”

O projeto que criminaliza a misoginia, já aprovado pelo Senado, teve a urgência aprovada pela Câmara em julho, mas ainda aguarda votação de mérito no plenário. A proposta equipara crimes motivados por misoginia aos previstos na Lei do Racismo.

Já o PL 1.904/2024, apelidado por seus críticos de “PL do Estupro”, teve o regime de urgência aprovado em 2024, mas não avançou para votação de mérito após mobilização popular. A proposta estabelece pena equivalente à de homicídio para abortos realizados após 22 semanas, inclusive em casos de gravidez decorrente de estupro.

“Isso foi fruto de mobilização, nas redes e nas ruas, ininterrupta. E é assim que precisaremos continuar, de forma ainda mais intensa, nessa próxima legislatura. Pois é isso que temos em mãos com a nova composição do Congresso”, afirma Hilton.

A deputada também relaciona a capacidade de conter o avanço da extrema direita à disputa por questões materiais. Para ela, uma das tarefas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) será tornar mais explícitas as diferenças entre os dois projetos na vida cotidiana.

“Precisamos de comunicação direta e didática sobre os riscos que Flávio Bolsonaro oferece para a vida cotidiana das pessoas em comparação com as entregas reais do governo Lula.”

Hilton aponta o fim da escala 6×1 como exemplo. A proposta, já aprovada pela Câmara e no segundo dia de discussões no Senado, reduz a jornada semanal e amplia os dias de descanso sem redução de salário. Flávio Bolsonaro criticou a medida e defendeu maior liberdade para negociação de jornadas e remuneração entre trabalhadores e empregadores.

“Flávio Bolsonaro defende que as pessoas recebam pelas horas trabalhadas. Lula quer o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Quem compara, vota Lula”, afirma.

Para a deputada, a pauta não deve ser vista apenas como uma proposta a ser aprovada, mas como parte de um esforço mais amplo para reconquistar eleitores que votaram na direita ou se afastaram do campo progressista no primeiro turno.

“Não apenas a aprovação do fim da escala 6×1 pode influenciar, como o próprio processo legislativo para tal já está influenciando e ajudando a virar esse jogo”, analisa a deputada, que completa: “E sim, há condições de aprovarmos a proposta antes do segundo turno. E é para isso que já estamos nos mobilizando”.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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