Erguer nossa força nas ruas para enfrentar Zucco (PL), a extrema direita e os capitalistas no RS
Por Valéria Muller — Esquerda Diário

Luciano Zucco, um tenente-coronel reacionário, representante de Flávio Bolsonaro, Donald Trump e de toda a corja da extrema direita, foi eleito governador do RS no primeiro turno com 58,05% dos votos neste domingo. Seu governo será de ainda mais ataques contra a maioria da população, deixando o estado à mercê de eventos climáticos extremos e buscando aprofundar a política privatista que Leite vinha levando à frente. Não há outra alternativa: é urgente organizar desde já a luta para enfrentá-lo com a força da classe trabalhadora e da juventude nas ruas e nos locais de trabalho e estudo.
Zucco é parte de um projeto reacionário, que tomou conta do Senado e elegeu a maior bancada da Câmara graças às suas relações com as milícias, com garimpeiros, com o agronegócio e outros setores dos capitalistas. São contra o fim da 6×1 em nome dos lucros dos patrões. São parte dessa mesma extrema direita que comemora sua vitória com chicote em mãos retomando suas raízes escravistas. A extrema direita que vai buscar aprofundar os ataques econômicos, legitimar ainda mais a violência machista, racista e LGBTfóbica.
É a extrema direita negacionista ambiental, que apesar de não poder evitar alguma demagogia sobre as enchentes, quer aprofundar as privatizações e atacar os povos indígenas e quilombolas a serviços dos interesses dos capitalistas. Uma direita que não foi derrotada eleitoralmente e que precisa ser enfrentada na luta de classes, apostando na força da classe trabalhadora e de todos os setores oprimidos da sociedade que sofrem e sofrerão com as consequências desse governo nefasto, que agora será continuidade de uma sequência de muitos governos de direita no estado nos últimos anos. Se a direita se fortalece ao se radicalizar, é necessário uma resposta dos de baixo, que seja também de radicalização à esquerda
Isso porque a eleição de Zucco também demonstra que a moderação política é um fracasso diante da extrema direita. No RS, quem encabeçou a principal chapa de oposição a Zucco foi Juliana Brizola, com um discurso bastante liberal, sem questionar as privatizações e inclusive colocando formulações de defesa das PPPs e outras políticas liberais. Sua busca de diálogo mais “popular” não resistia ao programa concreto defendido, sem questionar em nada os lucros dos capitalistas, que é de onde precisam sair os recursos para atender as demandas da maioria da população.
Junto a esse conteúdo a candidata ainda decidiu por um tipo de “pacto de não-agressão” com Zucco. Sim, a candidatura para a qual o PT e o PSOL estavam fazendo campanha simplesmente entrou em acordo com a extrema direita para desgastar Gabriel Souza (MDB), sucessor de Leite, fazendo “dobradinhas” nos debates contra ele, que aliás, não aparecia com chances reais de ir ao segundo turno ou ganhar em nenhuma pesquisa.
O ápice dessa atuação vergonhosa, que ajudou a extrema direita a levar o governo do estado no primeiro turno, se materializou no próprio dia da eleição. A cena simbólica e repugnante de um fraterno abraço entre a candidata e o representante da extrema direita, mais do que uma “civilidade democrática”, é o coroamento de uma candidatura que jamais se propôs a nenhum enfrentamento.
Não é nenhuma surpresa que o PT apoie uma candidatura encabeçada por uma figura política de direita como Juliana Brizola, que inclusive foi candidata a vice-prefeita de ninguém menos que Sebastião Melo (MDB) em Porto Alegre. No comando do governo federal entregou ministérios para partidos que hoje declaram apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, levando à frente uma política de conciliação que fortaleceu a extrema direita. Mas que o PSOL tenha se somado a essa campanha, colocando sua militância para defender esse programa liberal, é algo que vale a reflexão sincera de todas as pessoas que são parte desse partido e defendem genuinamente uma perspectiva de mudanças estruturais da sociedade em sentido socialista. A justificativa de que uma candidatura independente e da esquerda “não teria chance” parece não fazer muito sentido. Com quase toda a oposição na chapa de Juliana e defendendo uma candidatura de direita o resultado não surpreende que quem se fortaleça seja a direita. Juliana e seu programa liberal não só não teve chance de sequer ir para o segundo turno, mas se diluindo em sua chapa, o PSOL também abriu mão de apresentar uma política alternativa e que pudesse efetivamente responder aos principais problemas vividos pela população gaúcha.
O que mostram essas eleição é que não há tempo nem espaço para a moderação política para a esquerda. “A direita avançou pela passividade e pela moderação”, como afirma Myriam Bregman em seu livro Moderada Nunca, abordando o avanço da extrema direita na Argentina, mas que cabe também para refletir o Brasil e o Rio Grande do Sul. O caminho da não moderação, da radicalização pela esquerda, de enfrentar a extrema direita na luta de classes, que é o caminho no qual aposta Myriam e o PTS, organização-irmã no MRT na Argentina, levou ela a ser a referência política com melhor avaliação popular do país. Diante disso, ao invés de esperar passivamente as eleições, Myriam e o PTS buscam ativar em mobilização real e organizar em torno de uma política independente essa simpatia de massas que ela conquistou. Diante do dramático cenário nacional, o exemplo argentino precisa incitar a reflexão pois mostra um outro caminho possível a seguir
Agora, com Flávio chegando ao segundo turno com vantagem, com todo o Congresso tomado de bolsonaristas e diversos estados além do RS também governados por eles, mais do que nunca é preciso mover todas as nossas forças para enfrentar a extrema direita. Batalhar por nenhum voto em Flávio Bolsonaro como parte de preparar os combates que inevitavelmente virão, mostrando a responsabilidade da frente ampla nesse avanço contundente da extrema direita a nível regional e nacional. Não podemos esperar mais, é necessário desde já fortalecer a organização em cada local de trabalho e estudo, em cada bairro, para erguer nossa força contra Zucco e a extrema direita regional e nacionalmente. Os sindicatos e centrais sindicais, assim como entidades estudantis e movimentos sociais, precisam organizar desde já suas bases, tanto para colocar essa força em movimento na campanha contra Flávio no segundo turno e também para preparar os combates contra Zucco dos próximos anos.
A luta contra esse governo e contra os capitalistas se dará com a força das ruas, através de greves, paralisações e manifestações que demonstrem quem realmente move este estado. É hora de romper com as ilusões com a conciliação e o reformismo e batalhar por uma perspectiva política independente, sem moderação, sem negociar nossos direitos, para fazer frente à radicalidade da extrema direita.
Fonte: Esquerda Diário