Era uma vez no Iraque: Comida, guerra e a busca pela paz

0

Por Brasil 247 — Brasil 247

Por Wang Meiqi, Wang Xiaopeng e Yang Yuanyuan

Beijing, 3 out (Xinhua) — Na cena final do filme chinês de sucesso “Era uma Vez no Oriente Médio”, a luz do sol inunda um restaurante do pós-guerra enquanto um garçom apresenta a especialidade da casa: o “arroz refogado de Xu Fu”, um prato simples nascido das privações da guerra.

Tudo começa com uma simples panela de arroz refogado, preparado por um cozinheiro chinês chamado Xu Fu para crianças famintas que fugiam de um conflito regional. No entanto, o prato carrega algo mais profundo: uma esperança compartilhada de paz.

O garçom é interpretado por Ameen Muneer Mohammed Al-Obaidi, um iraquiano que adotou o nome chinês Fang Haoming. Ele é um jovem repórter e sobrevivente da Guerra do Iraque iniciada pelos Estados Unidos. Em 2003, quando mísseis americanos iluminaram o céu noturno sobre sua cidade natal, Bagdá, Al-Obaidi tinha apenas três anos de idade.

“A única comida que tínhamos na época eram batatas cruas e pão sírio duro como pedra. Nem mesmo isso era garantido”, relembrou ele. “Meu pai ficava horas na fila para conseguir duas ou três batatas para a família”.

“Quando vi os escombros e os grafites no cenário, tudo veio à tona”, disse Al-Obaidi. Ele se mudou para Yinchuan, capital da Região Autônoma Hui de Ningxia, no noroeste da China, em 2011, para reencontrar sua irmã mais velha. Ela havia se casado com um chinês que conheceu no Oriente Médio e, mais tarde, estabeleceu-se em Yinchuan.

“Antes de vir para a China, eu não sabia o que era paz”, disse ele.

Poucos dias depois de Al-Obaidi se instalar na cidade chinesa, ele vivenciou a Festa da Primavera, a festa tradicional mais importante da China, quando as famílias se reúnem para celebrar.

À noite, o som de bombinhas e fogos de artifício assustou a família iraquiana. “De onde eu venho, quando se ouve esse barulho, todos ficam tensos e querem se refugiar em um abrigo antibombas”, observou Al-Obaidi.

Mas o que ele viu lá fora foi muito diferente: crianças rindo e vibrando, famílias abraçadas enquanto fogos de artifício coloridos iluminavam o céu. “Foi a primeira vez que percebi que sons assim podem trazer felicidade, e não necessariamente medo”, acrescentou ele.

Desde então, a Festa da Primavera se tornou a data festiva favorita de Al-Obaidi, que faz questão de participar do jantar de véspera do Ano Novo Chinês com a família e os amigos todos os anos.

“Poder se sentar para uma refeição tranquila é a maior alegria para nós”, disse o jovem.

Essa ideia está no cerne do filme. Segundo Wen Muye, o diretor, a decisão de contar uma história de guerra tendo um restaurante como cenário surgiu de um contraste simples: a guerra traz destruição, enquanto a comida está intimamente ligada ao acolhimento, ao reencontro e à felicidade cotidiana.

O filme acompanha a jornada de Xu ao Oriente Médio para trabalhar em um restaurante chinês, após acumular dívidas em sua terra natal. Ao lado do gerente do restaurante, Ma Junsheng, ele ajuda a construir um estabelecimento popular que se torna ponto de encontro para pessoas de diversas origens. Então, a guerra eclode, e o restaurante, antes um local de vida comum, vê-se envolvido pela violência.

A obra retoma frequentemente o tema da culinária, desde os bolinhos preparados antes de Xu sair de casa até um banquete de casamento onde as tradições gastronômicas chinesa e árabe se fundem. Mais tarde, enquanto foge dos combates com um grupo de crianças órfãs, Xu prepara uma simples panela de arroz.

A refeição é modesta, disse Wen, mas, para as crianças assustadas, oferece algo mais importante: um momento de segurança e um gostinho de vida normal. O prato acaba ficando conhecido no restaurante como o “arroz refogado de Xu Fu”.

20261005ef2c1018aa8d4bcdb233851ab8eebf14_20261005983588eddb0a4f5d8de147b613e926bd.jpeg?w=1024&quality=76&strip=all

Foto tirada em 24 de agosto de 2026 mostra um cenário de rua em miniatura para o filme “Era uma Vez no Oriente Médio”, em Qingdao, na província de Shandong, no leste da China. (Xinhua/Li Ziheng)

Desde seu lançamento em agosto, o filme obteve ótimos resultados de bilheteria e críticas positivas, arrecadando mais de 2,3 bilhões de yuans (cerca de 343 milhões de dólares americanos).

Embora ambientado no Oriente Médio, o núcleo emocional do drama de guerra está em outro lugar. Ele pode ser encontrado no desejo universal por uma vida comum, na qual uma pessoa possa comer, trabalhar e se sentar com a família sem medo.

“Não se esqueça de comer direito” é uma expressão cotidiana de cuidado na China. No filme, ela ganha uma dimensão muito maior, tornando-se um lembrete da vida normal que a guerra ameaça tirar.

Embora Al-Obaidi nunca tivesse atuado antes deste filme, Wen estava determinado a escalar o jovem iraquiano que havia vivenciado a guerra e abraçado a paz. Ao explicar sua escolha, Wen disse: “O simples fato de ele estar ali parado já é a melhor atuação”.

RESTAURANTE CHINÊS EM BAGDÁ EM TEMPOS DE GUERRA

O restaurante Loong, onde Xu trabalha como chef no filme de sucesso, também se inspira em histórias da vida real. Há décadas, administrar restaurantes é uma das formas mais comuns de os chineses ganharem a vida no exterior, e alguns restaurantes chineses tornaram-se pontos de encontro inesperados entre culturas.

Chen Xianzhong, formado em língua árabe e que visitou o Iraque pela primeira vez em 1984, deixou seu emprego estável em uma empresa estatal chinesa anos depois e abriu um restaurante chinês chamado Yan Loong Wan no centro de Bagdá, em 2003.

Na época, era um dos poucos restaurantes chineses da cidade. Como o Iraque é um país de maioria muçulmana, Chen conta que fez questão de garantir que todos os ingredientes utilizados no restaurante estivessem em conformidade com os costumes locais e fossem aceitáveis ​​para os clientes muçulmanos.

Então, a Guerra do Iraque eclodiu e, ainda assim, Chen se recusou a desistir de seu negócio. Em uma cidade onde explosões estilhaçavam janelas e o medo esvaziava as ruas, o restaurante se tornou algo raro: um gostinho de vida normal. Os clientes podiam encontrar pratos chineses autênticos, incluindo bolinhos, ao lado de especialidades locais como o samoon, um tipo de pão comum no Iraque.

Famílias iraquianas, jornalistas e diplomatas internacionais e até mesmo soldados americanos que chegavam em veículos blindados, todos iam comer lá, disse Chen, acrescentando que o restaurante o colocou em contato com pessoas de todas as esferas da vida. Quando os carros-bomba tornaram a cidade perigosa demais para se viver, Chen fechou o restaurante em 2005 e enviou sua equipe chinesa de volta para casa. No entanto, ele escolheu ficar, continuando a administrar um hotel e um centro comercial.

“Eu já conhecia o país e podia usar o idioma que aprendi todos os dias”, disse ele à Xinhua ao explicar sua decisão de permanecer no Iraque, apesar do conflito. Para Chen, oportunidade e risco caminhavam lado a lado, e ele estava preparado para correr esse risco.

“Quase todo centavo que ganhei veio do Iraque”, disse o homem de 72 anos. “Agora só quero retribuir ao povo iraquiano e aos meus compatriotas chineses”.

A hospitalidade, relembrou Chen, está intrinsecamente ligada ao modo de vida iraquiano. Seus vizinhos, alguns deles agricultores que tinham pomares, costumavam aparecer com tâmaras frescas e, às vezes, até mesmo com um peixe inteiro assado.

“Já estive em muitos lugares no Oriente Médio, e o Iraque é o meu favorito. As pessoas de lá são muito amigáveis ​​com os chineses”, disse ele, acrescentando que costuma presentear seus vizinhos com produtos de porcelana chinesa como forma de agradecimento pela gentileza deles.

A história real de Chen reflete uma das ideias centrais do filme: mesmo em tempos de conflito, pessoas comuns continuam buscando lugares para comer, conversar e criar laços.

LAÇOS DE LONGA DATA

A China e os países árabes possuem uma longa história de intercâmbios amistosos. Durante séculos, as civilizações chinesa e árabe percorreram as Rotas da Seda terrestres e marítimas, trocando mercadorias, conhecimentos e ideias por vastas distâncias.

Para Al-Obaidi, o jovem iraquiano que cresceu na China, o calor humano que vivenciou entre as duas culturas faz parte dessa história mais ampla. A China e o mundo árabe podem estar muito distantes no mapa, disse ele, mas compartilham a mesma reverência pela paz e o desejo de uma vida melhor, valorizando igualmente a família e a hospitalidade.

Quando Al-Obaidi finalmente retornou a Bagdá em 2024, viu guindastes se erguendo onde antes caíam projéteis. Empresas chinesas estão entre as que contribuem para a reconstrução de sua terra natal, inclusive com a construção de escolas.

“Ao olhar para os rostos sorridentes daquelas crianças, lembrei da minha infância e, naquele momento, me convenci de que o futuro do Iraque seria diferente”, disse ele.

Em sua terceira visita à China, em junho deste ano, o ex-presidente iraquiano Abdul Latif Rashid elogiou o papel construtivo da China na reconstrução do Iraque no pós-guerra e expressou gratidão pelo valioso apoio chinês nas áreas de energia, infraestrutura e outras áreas.

20261005ef2c1018aa8d4bcdb233851ab8eebf14_202610054ab47143a1484712a69960a774638915.jpeg?w=1024&quality=76&strip=all

Funcionários da China e do Iraque verificam o funcionamento das unidades geradoras na Usina Elétrica de Wasit, na província de Wasit, Iraque, em 10 de fevereiro de 2025. (Xinhua/Duan Minfu)

Em entrevista à Xinhua, à margem do Fórum 2026 sobre Governança Global de Direitos Humanos, realizado em Beijing em junho, Rashid elogiou os esforços da China para melhorar as relações internacionais e promover os direitos humanos.

Com base na própria experiência do Iraque, ele observou que seu país enfrentou décadas de guerra, sanções e terrorismo, o que o convenceu de que a paz e a estabilidade são pré-requisitos para o desenvolvimento, e que esse, por sua vez, é a base dos direitos humanos.

Hoje, cerca de 10 restaurantes chineses funcionam em Bagdá, disse Chen, que retornou recentemente a Beijing. Ele observou que restaurantes de culinária do Oriente Médio já podem ser encontrados em Beijing, enquanto tâmaras iraquianas estão disponíveis na China por meio de lojas on-line.

Segundo ele, produtos chineses para o lar também conquistaram um mercado crescente no Iraque, com destaque para a popularidade de louças e produtos de porcelana de uso cotidiano.

Esses intercâmbios, ressaltou ele, vão muito além da gastronomia. Veículos de nova energia também começam a surgir nas estradas iraquianas, com veículos de marcas chinesas se tornando cada vez mais comuns, disse ele.

Para Al-Obaidi, que fala chinês fluentemente, a China é o lugar onde ele renasceu. Atualmente, ele trabalha para uma emissora de satélite de língua árabe, cobrindo as relações entre a China e o mundo árabe.

“A China sempre trabalhou para trazer paz ao mundo. Isso não é retórica diplomática vazia. É um fato que vivenciei pessoalmente”, disse ele.

20261005ef2c1018aa8d4bcdb233851ab8eebf14_20261005222caa5b228f4dc8877e27d1731bae35.jpeg?w=1024&quality=76&strip=all

Espectadores fazem fila para a verificação de ingressos ao lado de um pôster do filme “Era uma vez no Oriente Médio” em uma sala de cinema em Qingdao, província de Shandong, no leste da China, em 24 de agosto de 2026. (Xinhua/Li Ziheng)

Talvez seja por isso que uma simples fala no filme tenha tanta força. Quando Xu Fu diz às crianças para “comerem bem”, isso é mais do que um lembrete para terminarem a refeição. É um desejo por algo que a maioria das pessoas dá como garantido: uma refeição quente ao fim do dia, uma família reunida à mesa e crianças que crescem sem ter medo do som de explosões.

Comam bem. Vivam em paz.

Fonte: Agência Xinhua — https://portuguese.news.cn/20261005/ef2c1018aa8d4bcdb233851ab8eebf14/c.html

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *