Entrevista de Confaloni ao Jornal Opção foi a última: pintor sacro de Goiás morreu logo depois

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Por Herbert Moraes — Jornal Opção

Entrevista de Confaloni ao Jornal Opção foi a última: pintor sacro de Goiás morreu logo depois

Opção estava a caminho das oficinas quando, inesperadamente, chegou a notícia da morte de Frei Nazareno Confaloni. Mais uma vez, como no caso do falecimento de Alcides Araújo Romão (matéria nesta página) produziu-se outra singular coincidência: ainda na nossa última edição publicávamos uma extensa entrevista concedida por Confaloni à jornalista Maria Olga Curado que agora, possivelmente, se transforma no último depoimento do maior pintor sacro de Goiás desde Veiga Valle (que foi, aliás, muito mais escultor).

Confaloni, nessa última entrevista, falou eufórico da viagem que empreendia em setembro vindouro, juntamente com Naura Tim, Vanda Pinheiro, Siron Franco, Cleber Gouveia e D. J. Oliveira, rumo à sua terra natal – a Itália – onde participaria de exposições coletivas em Milão e Roma. Tal era o seu entusiasmo, que a jornalista Maria Olga chegou mesmo a ficar encabulada, comentando depois o assunto já na redação de Opção onde Modesto Gomes anotou a informação e a incluiu na sua coluna publicada nesta edição (redigida quinta-feira). Confaloni, entretanto, não mais retornará à sua Itália. Mas a sua arte, traduzida nos seis quadros que pintou especialmente para a viagem, será levada aos europeus: os outros pintores que iriam acompanhar o frei decidiram que os quadros serão levados por eles e expostos, numa homenagem póstuma ao amigo e companheiro falecido.

A entrevista foi publicada na edição do Jornal Opção de 29 de maio a 4 de junho de 1977, na página 20, na editoria de Artes, sob o título “Nazareno Confaloni. Ou de como um inovador se torna um clássico”, assinada pela jornalista Maria Olga Curado. O texto foi publicado pouco antes da morte de Frei Nazareno Confaloni e, conforme o registro da edição seguinte do jornal, tornou-se a última entrevista concedida pelo artista antes de falecer.

Veja a entrevista abaixo.

Nazareno Confaloni. Ou de como um inovador se torna um clássico

Maria Olga Curado

Jornal Opção — 29 de maio a 4 de junho de 1977, página 20, editoria de Artes.

Encontrei-me com Frei Confaloni entre os muitos quadros de seu atelier, na Casa Paroquial da Igreja São Judas Tadeu. Começamos a percorrer a sala, observando alguns de seus trabalhos encostados junto às paredes.

— O senhor sempre faz os estudos antes de compor a tela?

— Sim, sempre. Estudo as formas, as cores. Tudo.

Enquanto conversávamos eu procurava entre os muitos croquis alguns esboços de quadros que ali se achavam.

— Este aqui é da Santa Ceia. Aquele que está lá na igreja do Rosário.

— Frei, isto aqui merece uma moldura. É um verdadeiro quadro.

Senti um certo pesar observando o descaso dispensado àqueles vários estudos, que Frei Confaloni não se preocupava muito em catalogar ou mesmo sequer guardar com maior cuidado.

— Quando o senhor veio para cá?

— Para o Brasil, em 1950. Fui direto para a cidade de Goiás, onde fiquei até 1952. Depois, vim para Goiânia, onde estou até hoje.

— Já veio como pintor?

— Já. Fui o primeiro pintor em Goiás formado em uma escola. Estudei em Milão. Quando vim para cá pintava. Na cidade de Goiás, por exemplo, fiz os painéis da igreja do Rosário.

Assim, apesar dos vinte e sete anos de Brasil, o Frei José Nazareno Confaloni não consegue esconder o sotaque que denuncia a sua origem, nascido que é em Viterbo — vila ao norte de Roma.

Aqui em Goiânia, ao lado de alguns estudiosos e entusiastas de artes, iniciou o movimento que se concretizou na Escola de Belas Artes, em 1952.

— Fizemos uma exposição, os professores para a abertura da Escola. Lembro-me que foi muito comentada. As pessoas não viam com muito bons olhos aquele negócio de pintura. Havia ainda muitas restrições, e as pessoas não entendiam direito o que significava um movimento de artes. Uma senhora até falava de um dos quadros, que por sinal era de inspiração na arte pompeica, que não entendia nada desses “modernos”.

— E agora, as pessoas ainda se chocam muito com a sua pintura?

— Daquela época para hoje, muita coisa se modificou. Hoje, não é mais considerada extravagância a compra de um quadro. Ainda assim, muita gente não consegue admitir como pagar-se três ou quatro mil cruzeiros por um quadro, o preço de três ou quatro vacas — é absurdo — eles pensam.

— Quem participou do movimento de criação da Escola de Belas Artes?

— Ritter, Luis Curado, José Veiga — falecido há pouco tempo — e eu.

— Como acabou a escola?

— A escola durou 15 anos. Em 1965, a Universidade Federal resolveu abrir uma escola e quase todos os professores foram para ela. Na época, nós sobrevivíamos com muita dificuldade. Não havia comercialização de arte em Goiás.

— O senhor acha possível ensinar-se arte numa escola?

— Claro. Basta ver que antes da criação de uma escola de Artes não havia qualquer movimento desta espécie em Goiás. Acontecia que as pessoas interessadas não tinham onde ver quadros, conversar sobre arte. A escola criou o ambiente. E Goiás é hoje, no país, sem dúvida nenhuma um dos expoentes artísticos.

— E as pessoas que se formam fora da escola?

— O que acontece é que passa a existir um ambiente na cidade onde existe a escola. Os artistas, mesmo que não a frequentem sistematicamente, sofrem a sua influência. Hoje, na Itália, por exemplo, não há mais necessidade de escolas de arte. Já existe o ambiente. O artista pode frequentar inúmeras galerias e museus onde os mais variados estilos estão em exposição. Há lugares onde se discutir sobre arte.

Eu permaneci observando a figura pequena de Frei Nazareno, comparando-a à quase imponência majestosa de alguns de seus trabalhos, onde muitas madonas se superpõem a inéditas interpretações de momentos sacros. Da Sagrada Família, sob uma visão do mundo moderno, onde São José é encarnado por um jovem pai, a Virgem por uma mãe que pode ser confundida com qualquer das mães de nossos dias. E o Menino Deus também é não menos humano.

— Quero sempre conciliar a minha arte com as minhas obrigações sacerdotais.

— Como o senhor definiria a sua arte?

— A minha pintura é sempre sacra. Mesmo quando uso outros modelos eles são mais tarde transformados sob o ponto de vista da religião cristã. Quanto à minha vinculação em alguma escola no sentido tradicional do termo, a minha pintura é eclética. Hoje em dia não se diz mais, como antigamente, onde os limites eram bem característicos de uma tendência puramente impressionista ou expressionista.

Ele mostrou-me então alguns dos quadros, que, na sua opinião, são representativos de algumas de suas fases na pintura.

— Este aqui é de 1958. Do tempo da Escola.

Uma natureza morta. Alguns frutos em um prato sobre a mesa. As cores já um pouco desmaiadas pelo tempo, mas bem claros os traços que, segundo ele, agora começam a ficar mais suaves.

— Este aqui é de 69. Tinha dois. Vendi um na semana passada.

Também desta época é a sua primeira exposição no Hotel Nacional em Brasília. Uma entre as várias que foram aos poucos se alinhando: Florença, que lhe deu medalha de prata no concurso Europa, pela Galeria Ieda.

Ainda aí os traços fortes, as pinceladas mais compactas. A pintura tem a influência do sertão. O homem ainda caboclo. O tratamento é ríspido, lembrando talvez um pouco do expressionismo de Portinari.

— Hoje as madonas são mais suaves. Os traços são mais tênues.

Fiz uma observação sobre o movimento na pintura. O frei atalhou:

— Devemos sempre deixar a impressão de que alguma coisa ainda está acontecendo. Ali (apontou-me um da série dos Bispos — onde um pequeno bispo brinca num balanço) dá a impressão de que ele está se movimentando.

Frei Confaloni, Naura Tim, Vanda Pinheiro, Cleber Gouveia, Siron Franco e D. J. Oliveira aprontam os trabalhos que irão expor, a partir de 15 de setembro, na Europa: Milão, Roma, Paris e Genebra. Cada um deles leva seis trabalhos.

— Estão todos prontos, frei?

— São estes aqui.

Algumas madonas e cenas da Sagrada Família.

— Vamos ver se fazemos uma exposição coletiva antes da viagem.

Fica a ideia.

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Fonte: Jornal Opção

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