Entenda os principais pontos da declaração de Nova Déli, na cúpula do BRICS

0
inoreader-1789290055987

Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 — A declaração aprovada na Cúpula do BRICS em Nova Déli consolida uma agenda ambiciosa para o fortalecimento do Sul Global e para a construção de uma ordem internacional mais multipolar, com maior participação dos países emergentes nas principais instituições de governança mundial.

O documento reafirma princípios históricos do BRICS, como respeito à soberania, igualdade entre os Estados, multilateralismo, cooperação internacional e solução pacífica de conflitos, mas também avança em áreas estratégicas como inteligência artificial, pagamentos internacionais, minerais críticos, soberania digital e financiamento do desenvolvimento.

Um dos fios condutores da declaração é a defesa de uma reforma da arquitetura internacional criada no pós-Segunda Guerra Mundial, de modo a refletir melhor o peso econômico, demográfico e político adquirido pelos países do Sul Global.

Reforma da ONU e maior papel para Brasil e Índia

Os países do BRICS defendem uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança, para ampliar a representação dos países em desenvolvimento.

O texto reafirma apoio a uma participação mais significativa de Brasil e Índia no sistema internacional e também destaca a necessidade de maior representação africana.

A posição reforça uma reivindicação histórica da diplomacia brasileira: a de que a composição do Conselho de Segurança não reflete mais o equilíbrio de poder do século XXI.

FMI e Banco Mundial também precisam mudar

A reforma da governança internacional não se limita às Nações Unidas.

Os países do BRICS defendem mudanças nas cotas e na estrutura de poder do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, para aumentar o peso das economias emergentes e em desenvolvimento.

A mensagem central é que a participação dos países nas instituições financeiras internacionais deve refletir melhor a realidade econômica contemporânea.

Rejeição ao protecionismo e à coerção econômica

A declaração critica medidas comerciais discriminatórias, barreiras protecionistas e instrumentos econômicos utilizados como forma de pressão política.

Os integrantes do BRICS defendem um sistema multilateral de comércio baseado em regras e reiteram a importância da Organização Mundial do Comércio.

O bloco também critica medidas coercitivas unilaterais que produzam impactos econômicos e sociais sobre países em desenvolvimento.

Defesa da solução negociada para conflitos

Em relação aos conflitos internacionais, a declaração procura preservar o consenso entre países com posições diplomáticas distintas.

O documento defende diálogo, negociação, diplomacia e respeito à Carta das Nações Unidas como mecanismos para a solução de disputas.

No Oriente Médio, os países manifestam preocupação com a situação humanitária em Gaza, defendem acesso à ajuda humanitária e reafirmam apoio à solução de dois Estados, com a criação de um Estado palestino soberano e independente.

O texto também aborda outras crises internacionais, sempre enfatizando soberania, integridade territorial e soluções políticas negociadas.

Moedas nacionais ganham espaço

Outro ponto central da declaração é o avanço da discussão sobre o uso de moedas nacionais nas transações entre os países do BRICS.

Em vez de propor a criação imediata de uma moeda comum do bloco, os países adotam uma estratégia mais gradual.

O documento incentiva o aprofundamento do trabalho do BRICS Payment Task Force, com foco na interoperabilidade dos sistemas de pagamentos e na possibilidade de ampliar as liquidações comerciais em moedas nacionais.

Na prática, a estratégia busca reduzir custos cambiais, ampliar a autonomia financeira dos países e diminuir sua vulnerabilidade às oscilações externas.

NDB ganha papel estratégico

O Novo Banco de Desenvolvimento, presidido por Dilma Rousseff, aparece como um dos principais instrumentos financeiros da estratégia do BRICS.

A declaração reafirma o papel do banco no financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável e apoia o fortalecimento das operações em moedas locais.

Essa orientação coincide com uma das prioridades defendidas por Dilma à frente da instituição: ampliar empréstimos em moedas dos próprios países membros, reduzindo o risco cambial para governos e empresas.

O NDB também vem defendendo maior diversificação de suas fontes de financiamento e expansão gradual de sua base de membros. Dilma afirmou recentemente que o financiamento em moeda local continuará sendo uma prioridade estratégica do banco e que o NDB pretende aprofundar sua atuação como plataforma financeira do Sul Global. (NDB⁠)

Não há criação de uma moeda única do BRICS

Apesar das frequentes especulações internacionais, a declaração não estabelece a criação de uma moeda comum do BRICS.

O caminho escolhido é mais pragmático: ampliar o comércio em moedas nacionais, integrar sistemas de pagamentos, criar instrumentos financeiros alternativos e fortalecer instituições como o NDB.

Esse modelo pode representar uma transformação gradual da arquitetura financeira internacional sem exigir, no curto prazo, a criação de uma moeda supranacional.

Soberania digital entra no centro da agenda

Um dos aspectos mais relevantes da declaração é a crescente importância atribuída à soberania tecnológica.

Os países defendem maior autonomia na infraestrutura digital, desenvolvimento de soluções próprias e cooperação em tecnologias estratégicas.

A questão se tornou central para o BRICS porque inteligência artificial, processamento de dados, semicondutores, computação em nuvem e infraestrutura digital passaram a ser elementos fundamentais da soberania econômica.

Inteligência artificial deve servir ao desenvolvimento

A inteligência artificial também ocupa posição importante na declaração.

Os países defendem uma governança internacional da IA que considere as necessidades e interesses das economias emergentes e evite que os benefícios da nova tecnologia fiquem concentrados em poucos países ou grandes empresas.

O BRICS sustenta que a IA deve contribuir para desenvolvimento, produtividade, inclusão social e redução das desigualdades.

A preocupação dialoga diretamente com o debate sobre soberania tecnológica: países que não controlarem infraestrutura, dados e capacidade computacional correm o risco de se tornarem apenas consumidores das tecnologias produzidas pelas grandes potências.

Minerais críticos são tratados como questão de soberania

A declaração também aborda a crescente importância dos minerais críticos para a economia mundial.

Os países reconhecem o direito soberano dos Estados sobre seus recursos naturais e defendem que nações produtoras obtenham maior participação no valor agregado gerado a partir desses minerais.

Esse debate é especialmente importante para países como Brasil, China, Rússia e África do Sul, que possuem grandes reservas de matérias-primas essenciais para baterias, semicondutores, energia renovável e indústria de defesa.

A mensagem política é clara: o Sul Global não pretende repetir o papel histórico de mero exportador de matérias-primas.

Transição energética sem modelo único

O documento reafirma compromissos climáticos, mas rejeita a ideia de uma transição energética baseada em uma fórmula única para todos os países.

O BRICS defende uma transição justa, ordenada e inclusiva, levando em conta as diferentes condições econômicas e sociais de cada nação.

O princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, também é reiterado, com cobrança para que os países desenvolvidos ampliem o financiamento climático destinado às economias emergentes.

Segurança alimentar e agricultura

A segurança alimentar também aparece como prioridade.

O bloco pretende aprofundar a cooperação em agricultura, sementes, tecnologias agrícolas, agroecologia e agricultura digital.

As iniciativas refletem uma preocupação crescente com a vulnerabilidade das cadeias internacionais de alimentos diante de guerras, mudanças climáticas e disputas geopolíticas.

Industrialização volta ao centro

A declaração associa desenvolvimento a industrialização, inovação e domínio tecnológico.

O BRICS pretende fortalecer a cooperação dentro da chamada Nova Revolução Industrial, conectando empresas, universidades, centros de pesquisa e governos dos países membros.

Pequenas e médias empresas também deverão ser estimuladas a participar mais das cadeias produtivas do bloco.

Sul Global ganha identidade política própria

A mensagem mais ampla de Nova Déli é que o BRICS está deixando de ser apenas um mecanismo de coordenação econômica entre grandes economias emergentes.

O bloco passa a funcionar cada vez mais como uma plataforma política do Sul Global.

Essa transformação aparece na defesa de reformas da ONU, FMI, Banco Mundial e OMC, no fortalecimento do NDB, na ampliação das transações em moedas nacionais, na defesa da soberania tecnológica e na tentativa de aumentar a participação dos países emergentes nas decisões globais.

A declaração de Nova Déli indica, portanto, que o BRICS não propõe uma ruptura imediata com as instituições existentes, mas pretende reformá-las enquanto constrói, paralelamente, novos mecanismos próprios de cooperação.

É uma estratégia gradual, mas potencialmente profunda: fortalecer instituições do Sul Global, aumentar a autonomia financeira e tecnológica de seus integrantes e adaptar a governança internacional à realidade de um mundo cada vez mais multipolar.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *