Enquanto o Brasil vota, Adélio permanece no limbo e nem fala sobre eleição
Por Joaquim de Carvalho — Brasil 247
Faltavam duas semanas para a eleição presidencial quando Maria das Graças Ramos de Oliveira viu pela última vez o irmão Adélio Bispo de Oliveira.
Ela estava numa sala da Defensoria Pública da União, em Montes Claros, Minas Gerais. Ele, a mais de mil quilômetros dali, no presídio federal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A visita era remota, através da tela de um computador.
Maria das Graças, a Lia, como Adélio a chama, estranhou o irmão.
Estava cabisbaixo, quieto, muito diferente da visita anterior, quando se mostrara falante e esperançoso de que finalmente deixaria a prisão.
“Desta vez, ele nem sabia que tinha eleição. E é normal: ele não vê televisão, porque não tem TV na cadeia”, contou.
Enquanto o Brasil se preparava para escolher o presidente da República pela terceira vez desde aquele 6 de setembro de 2018 que mudou sua vida, Adélio parecia não saber sequer que uma eleição estava prestes a acontecer.
O país mudou. Jair Bolsonaro foi eleito, governou por quatro anos, perdeu a eleição de 2022 para Lula e agora vê seu filho Flávio Bolsonaro disputar a Presidência.
Adélio continua no mesmo lugar.
Está preso desde 6 de setembro de 2018, quando foi contido por policiais e seguranças depois de atingir Jair Bolsonaro durante um ato de campanha em Juiz de Fora.
O objeto utilizado no episódio foi descrito no inquérito da Polícia Federal como uma faca. Até hoje, no entanto, permanece a controvérsia sobre a possibilidade de demonstrar de forma definitiva que o instrumento posteriormente juntado ao inquérito é exatamente aquele utilizado no episódio.
Oito anos depois, o personagem que interferiu dramaticamente na eleição de 2018 está praticamente excluído da sociedade — e agora até mesmo do conhecimento sobre o processo eleitoral.
Existe decisão da Justiça Federal em Campo Grande determinando sua transferência para Minas Gerais, onde deverá receber tratamento médico. A medida, porém, ainda não se concretizou porque depende de avaliação de uma equipe multidisciplinar sobre seu atual estado de saúde.
O último laudo judicial, realizado no ano passado, confirmou o diagnóstico de transtorno paranoide e registrou evolução do quadro psiquiátrico para esquizofrenia.
Antes da prisão, nada na rotina de Adélio se parecia com os últimos oito anos.
Ele tinha vida social regular, trabalhava como garçom e também atuava como pregador evangélico.
“O Adélio era muito inteligente”, me disse uma pessoa que trabalhou com ele num restaurante em Juiz de Fora.
“Era muito quieto, ficava na dele, mas educado e cumpria bem suas tarefas.”
Hoje, a responsável legal por ele é Maria das Graças. A Justiça Estadual de Mato Grosso do Sul reconheceu a incapacidade civil de Adélio e transferiu a curatela para a família.
Lia espera recebê-lo em sua casa, na periferia de Montes Claros, onde vive com o marido e um filho adulto.
“Já arrumei o quarto para ele”, conta.
O quarto está pronto.
Adélio não.
Ou, pelo menos, o Estado brasileiro ainda não decidiu que ele está pronto para ocupá-lo.
A história ganhou um componente quase inacreditável nesta eleição.
Enquanto espera pelo irmão e sobrevive com muita dificuldade, Maria das Graças precisou fazer um bico na campanha de um candidato a deputado federal.
“Eu segurei bandeirão e distribuí santinho. Você acredita que ele é apoiador do Flávio Bolsonaro?”, contou. No santinho que ele distribuiu, estava a foto do filho de Jair Bolsonaro.
Ela precisava trabalhar.
Em determinado momento da campanha, Flávio Bolsonaro foi a Montes Claros. O coordenador da campanha para a qual Lia trabalhava sabia que aquela mulher que segurava bandeira e distribuía material eleitoral era irmã de Adélio Bispo.
E fez uma piada:
“Se o seu irmão estivesse aqui, furava o Flávio, como furou o Bolsonaro, e ele ganhava a eleição.”
A frase talvez diga mais sobre a história política recente do Brasil do que pretendia quem a pronunciou.
A facada de 2018 foi imediatamente incorporada à narrativa política que impulsionou Jair Bolsonaro. O episódio interrompeu sua participação normal na campanha, provocou enorme comoção nacional e transformou sua imagem eleitoral.
Oito anos depois, o filho disputa a Presidência, e o episódio ainda é tratado, até por pessoas envolvidas numa campanha eleitoral, como uma espécie de fórmula macabra para ganhar eleição.
Lia não achou graça.
Ela não tem nenhuma simpatia por Flávio Bolsonaro.
Mas também não votou.
“É perda de tempo”, justificou.
Maria das Graças não esteve sozinha.
No primeiro turno, 33.469.244 brasileiros não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, a maior registrada numa eleição presidencial desde 2006.
E esses ausentes podem ter decidido o rumo da eleição.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula recebeu 53,9 milhões, 45,16%.
A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
Para cada eleitor que separou Flávio de Lula, portanto, havia cerca de 15 brasileiros que poderiam votar, mas não foram às urnas.
Lia foi um deles.
É uma ironia brutal.
A irmã do homem cujo ato marcou profundamente a eleição de 2018 trabalhou, por necessidade, na campanha de um político aliado do filho de Jair Bolsonaro e, no dia da eleição, preferiu ficar em casa.
O irmão nem sabia que haveria eleição.
Desde setembro de 2018, esta é a terceira eleição presidencial brasileira.
Adélio continua isolado numa cela de aproximadamente sete metros quadrados.
Passa cerca de 22 horas por dia entre paredes brancas, num espaço em que há um colchão colocado sobre uma base de concreto.
Nas duas horas restantes, pode sair para o banho de sol. É revistado ao deixar a cela e novamente ao retornar.
É uma rotina que dura anos.
A família também foi submetida a um longo afastamento.
Maria das Graças levou quatro anos para conseguir a primeira visita virtual ao irmão.
A primeira visita presencial só ocorreu quase cinco anos depois da prisão e foi viabilizada depois de uma iniciativa minha para aproximar Adélio da família.
No ano passado, o deputado estadual paulista Paulo Reis chegou a solicitar audiência com a então ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, para discutir providências que garantissem direitos básicos ao preso.
A audiência chegou a ser marcada.
Foi cancelada poucas horas antes de acontecer, depois que assessores do Ministério souberam que eu acompanharia o deputado.
O encontro nunca ocorreu.
As perguntas que ninguém quer responder
Há ainda questões não esclarecidas sobre o episódio de Juiz de Fora.
Ao longo desses oito anos, surgiram elementos que justificariam o aprofundamento de linhas de investigação, inclusive a de um autoatentadoç
Uma investigação séria deveria servir justamente para separar indícios, coincidências, versões, fatos e fantasias.
Mas isso exige investigar.
E nenhuma autoridade parece hoje interessada em reabrir perguntas que ficaram sem resposta.
A situação produz um paradoxo.
Para a Justiça, Adélio é uma pessoa com grave transtorno mental, inimputável e submetida a medida de segurança.
Para o sistema prisional, continua submetido ao regime excepcional de uma penitenciária federal de segurança máxima.
Para a política, é lembrado sempre que sua história serve a alguma narrativa.
Para a sociedade, praticamente desapareceu.
E para sua irmã é apenas Adélio.
O irmão para quem ela já preparou um quarto.
No dia 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Serão chamados novamente os 33 milhões que não votaram no primeiro turno. Entre eles, Maria das Graças.
Talvez Lia vote. Talvez continue achando que é “perda de tempo”.
Seu irmão provavelmente continuará sem televisão, fechado durante 22 horas por dia numa cela em Campo Grande, sem acompanhar a campanha protagonizada pelo filho do homem que ele encontrou há oito anos, no calçadão da Halfeld.
Há algo profundamente perturbador nessa imagem.
Em 2018, Adélio Bispo entrou abruptamente na história do Brasil.
Desde então, o Brasil atravessou uma eleição, uma pandemia, uma crise institucional, uma tentativa de golpe, a prisão de Jair Bolsonaro, a volta de Lula ao poder e mais uma eleição presidencial.
Agora Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno.
E Adélio permanece onde estava.
Sua irmã espera por ele num bairro pobre de Montes Claros. Há um quarto arrumado dentro de casa.
Há uma decisão judicial prevendo sua transferência.
Há uma doença psiquiátrica diagnosticada.
Há perguntas sobre 2018 que permanecem sem respostas.
E há um homem que já nem sabia que o Brasil estava novamente escolhendo um presidente.
Adélio está no limbo.
Mas a história ensina que o limbo não é necessariamente o fim.
Mesmo quando autoridades perdem o interesse, testemunhas se calam, investigações são encerradas e personagens são esquecidos, fatos permanecem.
E, às vezes, basta uma pergunta antiga encontrar uma resposta nova para que toda a história mude.
Fonte: Brasil 247