Enem: como treinar o foco e vencer a maratona dos textos longos
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Publicado em 19 de Setembro de 2026 às 15:10
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Acostumados a rolar a tela a cada 15 ou 30 segundos, os estudantes que se preparam para o Enem enfrentam um desafio que vai além do conteúdo das disciplinas: reaprender a sustentar a atenção diante de enunciados longos.
Para neurocientistas e especialistas em educação, a saída passa por técnicas de concentração conhecidas como deep work (do inglês, trabalho profundo) e por um uso mais criterioso de ferramentas de inteligência artificial (IA) na hora de treinar a redação.
O alerta vem da neurociência. Segundo Jader Vinicius da Silva Rocha, pesquisador de neurorreabilitação e neuromodulação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o cérebro do estudante está exposto a um fluxo contínuo de
estímulos de alta velocidade, o que altera o funcionamento do circuito cerebral de recompensa.
“As plataformas de vídeos curtos, como Instagram e TikTok, entre outras redes sociais, produzem picos rápidos de dopamina, e isso não seria nem pelo prazer em si, mas pela expectativa do próximo clique”, explica o pesquisador.
Segundo ele, a exposição precoce e constante a esse tipo de conteúdo aumenta a probabilidade de a criança desenvolver déficit de atenção e uma descompensação do circuito de recompensa no futuro.
A técnica de deep work – ou trabalho profundo, na tradução para o português – consiste em períodos de concentração intensa e livre de distrações. De acordo com o pesquisador, estudos recentes mostram a eficácia de exercícios de atenção plena tanto para o desempenho cognitivo quanto para o fortalecimento do córtex pré-frontal, que é a região do cérebro responsável pelo controle e pela tomada de decisões.
“Exercícios de concentração ajudam a melhorar a distração e diminuir os níveis de ansiedade, principalmente em pessoas que têm a tendência de ficar muito tempo com telas” , afirma.
Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, reforça que o consumo exagerado de vídeos curtos e informações nas redes sociais tem consequências para o cérebro adulto e, ainda mais, para o cérebro em desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Ela cita a proibição do uso de celulares em sala de aula como uma medida que já vem sendo adotada em diversas escolas e países como forma de reduzir essa distração.
Na prática, os dois especialistas recomendam blocos de estudo de cerca de 20 minutos, seguidos de pausas curtas de cinco a dez minutos, aumentando progressivamente a duração dos períodos de concentração ao longo das semanas.
“O trabalho na academia é uma boa comparação: a pessoa começa com uma determinada carga e, quando percebe, já consegue assumir mais carga, ficando mais forte e tendo melhores resultados. Esse é um exercício bastante interessante para a escola aplicar”, recomenda Sonia.
O celular deve ficar fisicamente afastado do ambiente de estudo, e não apenas desligado ao lado do estudante.
“Se você deixar o celular do lado, mesmo de cabeça para baixo, e tiver alguma notificação, o cérebro já começa a ter esse processamento para tentar identificar o que chega”, explica Jader.
Sonia Dias confirma que há estudos que mostram que só o celular vibrando dentro da mochila, apenas perto do estudante, já causa de dez a 15 minutos de distração, mesmo que ele não veja a mensagem.
Segundo os especialistas, o processo deve ser encarado como um desmame gradual do vício em estímulos rápidos e não como uma recompensa imediata. Com o tempo, o cérebro passa a associar o estudo a uma recompensa futura, como a aprovação em um vestibular ou concurso.
É bom também ficar atento à prática. Passar muitas horas com os olhos no material de estudo não é sinônimo de concentração efetiva, alerta Jader. Ele recomenda a chamada leitura ativa.
Depois de ler um trecho, o estudante deve tentar explicar o conteúdo em voz alta para outra pessoa ou anotar, sem consultar o texto, o que conseguiu reter.
Um estudo do Itaú Social mostra que 84% dos estudantes brasileiros já recorrem à inteligência artificial para resolver atividades, tirar dúvidas e pesquisar, assim como
parte dos professores.
Para Sônia, o problema não está na ferramenta, mas no uso que se faz dela.
“O grande risco da IA é terceirizar a informação. Não digo terceirizar a aprendizagem, porque a IA é uma coletânea de informações, não de aprendizado. O aprendizado é humano. O que a IA faz é simular esse aprendizado”, explica.
Jader segue a mesma linha e sustenta que não se pode depender das inteligências artificiais para escrever nem deixar que pensem por nós. “Elas são ótimas para revisar um texto que você já escreveu, mas o ideal é que, no final, ela aponte o que melhorou, para que você entenda o motivo. Você precisa pensar para dar os comandos para a máquina, não o contrário.”
Sonia resume o desafio como um equilíbrio : “Quanto mais a gente conseguir qualificar esse uso, e não colocar na mão da IA todas as respostas, mais ela nos ajuda”.
5 passos para treinar o foco até a redação do Enem
1. Afaste o celular
Deixe o aparelho desligado em outro cômodo. Perto e vibrando, o celular já rouba de 10 a 15 minutos de atenção mesmo sem ser consultado.
2. Estude em blocos
Comece com ciclos de 20 minutos de concentração e cinco a 10
minutos de pausa, aumentando a duração aos poucos.
3. Pratique leitura ativa
Depois de ler, explique o conteúdo em voz alta ou anote de
memória o que conseguiu reter, sem consultar o texto.
4. Escreva à mão
Reserve momentos de escrita manual: o gesto exige mais
concentração e fortalece o desenvolvimento cognitivo.
5. Use a IA para revisar, não para escrever
Produza seu próprio texto antes de recorrer à ferramenta;
peça apontamentos de melhoria, nunca a redação pronta.
Fonte: Jader Vinicius da Silva Rocha e Sonia Dias
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