Emenda de Mario Frias para produtora de Dark Horse pagou material esportivo que não foi entregue
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – Auditorias da Controladoria-Geral da União apontaram falhas na execução de dois projetos financiados com emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP) e vinculados ao Instituto Conhecer Brasil, ligado à empresária Karina Gama, produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL). Segundo os auditores, houve pagamentos por materiais esportivos sem comprovação suficiente de entrega, além de pendências em um projeto educacional que previa capacitar multiplicadores e atender estudantes da rede pública.
As informações foram reveladas base na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou mandados de busca e apreensão cumpridos nesta quinta-feira (10) pela Polícia Federal e pela CGU. A operação investiga suspeitas de desvio de recursos públicos repassados por meio de emendas parlamentares.
No centro da apuração estão dois repasses de R$ 1 milhão cada, feitos ao Instituto Conhecer Brasil. O primeiro, chamado Jovem Empreendedor, foi financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em fevereiro de 2025. O segundo, Lutando pela Vida, recebeu recursos do Ministério do Esporte em outubro do mesmo ano. A decisão do STF afirma que ambos tiveram origem em emendas de Frias.
O caso mais sensível apontado pela CGU envolve o projeto esportivo. A iniciativa previa aulas de esportes de combate para 500 beneficiários em dois núcleos de Pirassununga, no interior de São Paulo. A auditoria identificou pagamento de R$ 457.818,78 à empresa Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas por itens como quimonos, faixas, uniformes e 120 placas de tatame.
Segundo a decisão de Dino, o valor foi quitado integralmente em 26 de maio de 2026, apesar de não haver comprovação contemporânea de que os produtos tivessem sido entregues. A fornecedora, de acordo com a CGU, informou em julho que os materiais ainda estavam em fabricação e que nenhum dos itens faturados havia sido entregue.
“No caso do ICB, a aquisição supostamente foi comprovada por meio da Nota Fiscal nº 575, que ‘abrangia 16 itens, entre eles quimonos, faixas, uniformes e 120 placas de tatame’, e foi paga integralmente em 26.05.2026 ‘embora o canhoto de recebimento não estivesse preenchido e não houvesse comprovação contemporânea da entrega dos bens’”, registra a decisão.
O ministro também reproduziu a conclusão da CGU de que a Pulsa Uniformes teria negado a entrega dos materiais tanto em resposta aos auditores quanto durante inspeção realizada em 6 de julho de 2026. A empresa teria afirmado que os itens permaneciam em fabricação.
O Instituto Conhecer Brasil apresentou um termo de recebimento parcial indicando que os tatames haviam sido entregues em maio. Os auditores, no entanto, identificaram outra compra de 120 placas de tatame feita pelo instituto com fornecedor diferente, no valor de R$ 58.800. Para a CGU, não havia controles capazes de vincular os materiais encontrados nas visitas à nota fiscal da Pulsa. Por isso, o órgão considerou insuficiente a comprovação da entrega dos produtos pagos com recursos públicos.
A auditoria também questionou a comprovação das aulas. Seis prestadores responsáveis por coordenação, instrução, monitoria e acompanhamento de educação física receberam R$ 94.564,55 entre março e julho de 2026. Segundo a CGU, o instituto não apresentou “listas mensais assinadas, relatórios individualizados ou outros registros independentes que relacionassem os pagamentos às aulas, às turmas e às cargas horárias efetivamente realizadas”.
A entidade entregou fichas de matrícula, planilhas de frequência, fotografias e relatório parcial. Para os auditores, porém, os documentos não eram suficientes: as fichas demonstravam apenas inscrições, enquanto as planilhas de frequência não tinham assinatura dos beneficiários.
O outro projeto investigado, Jovem Empreendedor, previa a produção de materiais físicos e digitais e a formação de 250 multiplicadores para atuar com 2.250 estudantes do 4º e do 5º anos do ensino fundamental. A execução também estava prevista para Pirassununga.
O R$ 1 milhão repassado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi distribuído a seis empresas. Cinco delas aparecem como alvos de busca e apreensão na decisão do STF. A Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros recebeu R$ 400 mil para kits pedagógicos físicos; o Instituto Super Poder Educacional, R$ 300 mil para kit pedagógico digital; a MTS Assessoria e Consultoria, R$ 150 mil para manutenção da plataforma; a LF&P Consulting Apoio Administrativo, R$ 80 mil para serviços jurídicos, contabilidade e apoio administrativo; e a Marcelo Machado 7 Comunica, R$ 50 mil para divulgação. A Projetus recebeu R$ 20 mil para consultoria, mas não aparece entre os alvos das buscas.
Os pagamentos foram concluídos em fevereiro de 2026. Mesmo assim, em relatório de 25 de maio, o próprio instituto afirmou que ainda faltavam etapas como treinamento operacional, organização das turmas e execução das atividades educativas. A entidade declarou ter concluído a produção de 2.500 kits físicos, implantado a plataforma digital e preparado o conteúdo pedagógico, mas disse que listas de presença, fotos e vídeos seriam apresentados depois da finalização das atividades com as turmas.
A vigência do projeto terminou em 11 de janeiro de 2026. De acordo com a decisão de Flávio Dino, o instituto pediu mais 12 meses de prazo em 28 de maio, quando o período de execução já havia acabado. A CGU apontou que, nesse pedido, a entidade reconheceu a necessidade de articular escolas, mobilizar famílias, preparar espaços, organizar atividades no contraturno, mobilizar multiplicadores e atender as crianças.
“Após o encerramento da vigência e do prazo para prestação de contas, o MCTI, em 18/05/2026, cobrou a apresentação da documentação pertinente. Em 28/05/2026, o ICB solicitou a prorrogação do Termo por mais 12 meses, alegando necessidade de ampliar atividades relacionadas ao projeto”, diz trecho da decisão.
O documento acrescenta que o próprio pedido confirmou a não execução integral do objeto. Segundo a decisão, a CGU afirmou que “não haviam sido capacitados os 250 multiplicadores nem atendidos os 2.250 estudantes previstos”.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação negou a prorrogação em 2 de junho, sob o argumento de que a vigência já havia expirado. Em 9 de julho, a pasta emitiu parecer técnico pela rejeição das contas, por entender que o objeto da parceria não havia sido cumprido. O instituto foi notificado no dia seguinte e recebeu prazo de 30 dias para apresentar defesa e documentos complementares.
Apesar disso, consulta ao Transferegov feita pelo g1 nesta quinta-feira mostrava os objetivos do projeto como alcançados “integralmente”, embora o relatório anexado pelo próprio instituto indicasse execução parcial das atividades educativas.
A operação deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU recebeu o nome de Make Up. Ao todo, foram anunciados 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão Mario Frias, Karina Gama e fornecedores ligados aos projetos.
A investigação apura se recursos públicos de emendas parlamentares foram direcionados a empresas subcontratadas de forma irregular e sem comprovação dos serviços prestados. Os fatos seguem sob apuração.
A frente supervisionada por Flávio Dino trata do possível uso irregular de dinheiro público destinado a entidades e empresas ligadas à produtora de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
Fonte: Brasil 247