Em Nova Déli, Xi Jinping quer BRICS na linha de frente da reforma da ordem global
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O presidente da China, Xi Jinping, participará da 18ª Cúpula do BRICS, marcada para os dias 12 e 13 de setembro, em Nova Déli, na Índia, em um encontro voltado à ampliação da cooperação entre os países do bloco e ao fortalecimento da participação do Sul Global na governança internacional. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (10) pela agência chinesa Xinhua, com base em anúncio do Ministério das Relações Exteriores da China.
O líder chinês deverá se reunir com outros líderes do BRICS para discutir uma nova etapa de desenvolvimento do mecanismo, que hoje reúne 11 países-membros e 10 países parceiros. A agência destaca que o grupo passou a ter peso maior em debates sobre multipolaridade, reforma da governança global, comércio, desenvolvimento, inovação e financiamento.
Durante a trajetória de Xi Jinping, uma de suas principais declarações feitas pelo presidente chinês foi registrada nos encontros da cúpula de Kazan, na Rússia, em 2024. “É por nossa busca compartilhada e pela tendência geral de paz e desenvolvimento que nós, países do BRICS, nos reunimos”, afirmou.
A participação do presidente chinês em Nova Déli ocorre em um momento em que o BRICS amplia seu alcance político e econômico. De acordo com os dados citados pela Xinhua, os países do grupo concentram quase metade da população mundial, cerca de 30% da economia global e aproximadamente um quinto do comércio internacional.
Xi defende integração econômica e cooperação política desde 2013
A relação de Xi Jinping com o BRICS começou ainda no início de seu mandato. Em março de 2013, ele participou da quinta cúpula do bloco, em Durban, na África do Sul, seu primeiro encontro internacional desse tipo como presidente da China.
Na ocasião, Xi defendeu a formação de mercados mais integrados, redes financeiras em diferentes níveis, maior conectividade terrestre, aérea e marítima e expansão dos intercâmbios culturais.
Dois anos depois, na cúpula de Ufa, na Rússia, o presidente chinês voltou a defender uma parceria voltada à paz, ao desenvolvimento, ao diálogo entre civilizações e a uma governança econômica internacional mais eficiente.
Em 2017, quando a China presidiu o BRICS, Xi apresentou o modelo de cooperação “BRICS Plus”, com a proposta de aproximar outros mercados emergentes e países em desenvolvimento das iniciativas do grupo.
Ampliação do BRICS ganha espaço na agenda chinesa
A expansão do bloco passou a ocupar posição central na estratégia de Pequim para o BRICS.
Na cúpula de Kazan, em outubro de 2024, Xi defendeu que o grupo atuasse em cinco frentes: paz, inovação, desenvolvimento verde, justiça e aproximação entre os povos.
A Xinhua cita Alexander Gusev, diretor do Instituto de Planejamento Estratégico e Previsão da Rússia, que atribui às propostas de Xi parte da expansão da interlocução do BRICS com países do Sul Global.
Mohamed Hussein, primeiro vice-chefe do Serviço de Informação Estatal do Egito, afirmou que a China busca construir consensos entre os integrantes do grupo por meio de diálogo e interesses compartilhados.
O professor Marcos Cordeiro Pires, da Universidade Estadual Paulista, também citado pela agência, avaliou que as diferenças entre os integrantes não reduzem o potencial da plataforma.
Segundo ele, o BRICS amplia a presença política do Sul Global em discussões sobre segurança, desenvolvimento e governança.
Cooperação econômica avança em projetos e investimentos
A agenda do BRICS também passou a incorporar instrumentos voltados à cooperação econômica direta.
No fim de julho, o porto de Xiamen, na província chinesa de Fujian, lançou o BRICS Go-Global Express, iniciativa voltada a facilitar a entrada de empresas chinesas em mercados de países do bloco.
A primeira ação do programa teve como foco a Nigéria, que passou a integrar o BRICS como país parceiro.
Outro projeto citado pela Xinhua é o Centro de Inovação da Parceria do BRICS para a Nova Revolução Industrial, também instalado em Xiamen.
Desde sua criação, o centro facilitou mais de 100 projetos de cooperação, com investimentos superiores a 62 bilhões de yuans, equivalentes a US$ 9,24 bilhões.
A estrutura também criou programas de formação e bolsas em áreas ligadas à indústria, às comunicações e a setores emergentes.
Novo Banco de Desenvolvimento amplia presença
O Novo Banco de Desenvolvimento também aparece como um dos principais instrumentos financeiros do BRICS.
Segundo a Xinhua, até o fim de 2025 a instituição havia aprovado 139 projetos, com financiamento total de aproximadamente US$ 43 bilhões.
Os recursos foram direcionados a áreas como energia verde, infraestrutura de transportes e acesso à água potável em países do Sul Global.
A China considera o banco uma das expressões práticas da cooperação do grupo.
Xi já afirmou que o BRICS não deve funcionar apenas como espaço de debates.
“BRICS não é um clube de conversa, mas uma força-tarefa que faz as coisas acontecerem”, disse o presidente chinês.
Desenvolvimento digital e energia limpa entram no radar
Nos últimos anos, a China também passou a propor iniciativas de cooperação no BRICS em áreas como recursos de águas profundas, economia digital, indústrias verdes, energia limpa, inteligência artificial e educação digital.
Essas propostas se conectam à Iniciativa de Desenvolvimento Global, apresentada por Xi em 2021 na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Segundo Siti Mutiah Setiawati, professora da Universidade Gadjah Mada, na Indonésia, as duas agendas passaram a se complementar.
Ela afirma que a combinação entre BRICS e a iniciativa chinesa ajudou a elevar o tema do desenvolvimento na agenda internacional e a transformar objetivos políticos em projetos voltados a mercados emergentes.
China quer BRICS mais ativo na reforma da governança global
Outro eixo central da participação chinesa no bloco é a reforma das instituições multilaterais.
Em setembro do ano passado, Xi apresentou a Iniciativa de Governança Global durante uma reunião ampliada da Organização para Cooperação de Xangai, em Tianjin.
Poucos dias depois, em uma cúpula virtual do BRICS, ele afirmou que a iniciativa buscava estimular ações conjuntas por um sistema internacional mais justo e equilibrado.
Na cúpula de 2024, Xi também defendeu que o BRICS se tornasse “uma vanguarda para avançar a reforma da governança global”.
B. R. Deepak, professor da Universidade Jawaharlal Nehru, afirmou que essa visão pode fortalecer um sistema internacional centrado nas Nações Unidas e ampliar a representação dos países em desenvolvimento.
BRICS pressiona por reformas no FMI e no Banco Mundial
Os países do bloco também defendem mudanças nas principais instituições financeiras globais.
Na Declaração do Rio de Janeiro, aprovada na 17ª Cúpula do BRICS, realizada no ano passado, os integrantes defenderam nova redistribuição de cotas no Fundo Monetário Internacional.
O documento também pediu maior participação dos países em desenvolvimento na estrutura acionária do Banco Mundial.
A proposta busca corrigir o que os integrantes do grupo classificam como sub-representação histórica das economias emergentes.
Ronney Ncwadi, professor e diretor da Escola de Economia, Desenvolvimento e Turismo da Universidade Nelson Mandela, afirmou que uma das principais contribuições do BRICS foi mudar o debate sobre governança internacional.
“BRICS demonstrou que economias emergentes e em desenvolvimento não são mais apenas receptoras de regras globais, mas participam cada vez mais da formulação dessas regras”, afirmou.
A cúpula de Nova Déli deve aprofundar essa agenda, com Xi Jinping defendendo maior coordenação entre os países do bloco em comércio, desenvolvimento, inovação e reforma das instituições multilaterais.
Fonte: Brasil 247