Em defesa do Estado laico: a necessária reação católica ao projeto teocrático bolsonarista

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Por Toninho Kalunga — Brasil 247

O Brasil enfrenta uma disputa política que ultrapassa os limites das eleições. Está em curso uma tentativa de apropriação da fé cristã por um setor radicalizado do bolsonarismo, que mistura religião, poder político e projeto eleitoral para apresentar seus próprios interesses como se fossem a vontade de Deus. Esse movimento ganhou contornos ainda mais preocupantes com a declaração atribuída a Flávio Bolsonaro de que, caso seja eleito presidente da República, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus”.

À primeira vista, a frase pode parecer apenas uma manifestação de fé. Quando pronunciada por alguém que disputa o comando do Estado, entretanto, assume outro significado: transforma uma convicção religiosa em programa de governo. O Brasil não pertence exclusivamente aos católicos, aos evangélicos ou aos seguidores de qualquer outra religião. Também pertencem ao país os espíritas, os adeptos das religiões de matriz africana, os judeus, os muçulmanos, os povos indígenas que preservam suas tradições espirituais e os seguidores das religiões e filosofias religiosas asiáticas, como o budismo, o hinduísmo, o xintoísmo e o sikhismo.

Pertencem igualmente ao Brasil aqueles que não professam religião alguma. O Brasil pertence ao povo brasileiro. Por isso, a laicidade do Estado não representa uma ameaça ao cristianismo. Ao contrário, é justamente o Estado laico que garante a liberdade religiosa e impede que uma religião seja perseguida, controlada ou utilizada pelo poder político. A separação entre Igreja e Estado protege tanto a democracia quanto a própria fé.

Nesse contexto, causam enorme preocupação as informações sobre setores religiosos que defendem a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, sob o argumento de que ela representaria apenas os católicos. Mesmo que essa proposta ainda não tenha sido apresentada formalmente como programa eleitoral, sua circulação no ambiente político-religioso precisa ser levada a sério. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma devoção particular do catolicismo. Sua imagem está profundamente ligada à história, à cultura e à identidade do povo brasileiro. Encontrada por pescadores pobres, negra e pequena, Aparecida tornou-se sinal da fé de milhões de pessoas e símbolo de um Brasil que nasce das margens, das águas e das mãos do povo trabalhador.

O respeito por Nossa Senhora Aparecida também ultrapassa as fronteiras institucionais da Igreja Católica. Há pessoas e setores evangélicos, espíritas, muçulmanos e pertencentes a outras tradições religiosas que, mesmo não compartilhando da devoção mariana, reconhecem sua importância histórica, cultural e popular. Respeitar Aparecida não significa obrigar todos os brasileiros a professarem a fé católica, mas reconhecer um símbolo que se incorporou à formação e à memória do país. Tentar criar uma competição entre Jesus Cristo e Nossa Senhora é uma falsificação teológica. Maria nunca ocupou, na fé católica, o lugar de Cristo. Toda devoção mariana conduz a Jesus. No Evangelho, a própria Maria proclama que Deus “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”. O problema, portanto, não é uma disputa entre Jesus e Maria.

O que existe é uma estratégia política que utiliza o nome de Jesus para dividir os cristãos, atacar a tradição católica e enfraquecer a presença pública de uma Igreja comprometida com os pobres. É por isso que a manifestação de bispos católicos em defesa do voto consciente possui tanta importância. Ao pedir que os fiéis examinem a história, os compromissos e a conduta dos candidatos, colocando a opção preferencial pelos pobres no centro do discernimento, os bispos não estão transformando a Igreja em partido político. Estão cumprindo uma responsabilidade pastoral. A Igreja não deve indicar candidaturas nem se tornar parte do Estado. Isso, porém, não significa permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental ou dos ataques à democracia. A Doutrina Social da Igreja ensina que a política deve estar a serviço da dignidade humana e do bem comum.

A defesa dos pobres não é um acessório ideológico acrescentado ao Evangelho. É uma exigência da fé cristã. Jesus se identificou com quem tem fome, sede, está doente, preso, estrangeiro ou abandonado. Defender o Estado laico significa estabelecer uma relação de respeito e autonomia. O Estado não pode controlar a vida interna das igrejas, determinar sua doutrina ou perseguir seus fiéis. Da mesma maneira, nenhuma igreja pode se apoderar do Estado, impor seus dogmas ao conjunto da população ou transformar a máquina pública em instrumento de conversão e domínio religioso. A oração do Pai-Nosso nos ajuda a compreender essa diferença.

Quando rezamos “venha a nós o vosso Reino” e “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”, não estamos declarando uma pertença política nem reivindicando que o Estado pertença exclusivamente aos cristãos. Estamos reconhecendo que a justiça de Deus é maior do que a justiça humana. A realização do Reino não pode ser reduzida à vontade de um governante, de um partido, de uma denominação religiosa ou mesmo de uma maioria eleitoral. Ela nasce do amor do Pai e do seu desejo de que exista, também aqui na Terra, um mundo justo, fraterno e solidário, como acreditamos existir no Céu. A vontade de Deus não se confunde com o projeto pessoal de quem ocupa o poder. Também não autoriza ninguém a falar em nome de Deus para dominar os outros. Ao rezar o Pai-Nosso, o cristão não pede que sua religião governe o país. Pede que a humanidade seja transformada pela justiça, pela misericórdia, pela partilha e pelo amor. Por isso, o Reino de Deus não é implantado por decreto presidencial. Não nasce de uma eleição nem pode ser confundido com um governo. Para os cristãos, ele começa a se manifestar quando a justiça vence a opressão, quando o faminto é alimentado, quando o estrangeiro é acolhido, quando o doente é cuidado e quando a dignidade dos últimos é respeitada.

Um projeto que divide a sociedade entre “povo de Deus” e “inimigos de Deus”, que se apresenta como representante exclusivo de Jesus e transforma adversários políticos em adversários espirituais não fortalece a fé. Produz fanatismo, intolerância e alienação religiosa. O bolsonarismo religioso precisa ser compreendido, portanto, não apenas como uma corrente eleitoral, mas como um projeto de poder que instrumentaliza símbolos cristãos. Em sua expressão mais radicalizada, torna-se anticatólico e contradiz o próprio Evangelho que afirma defender. A Igreja Católica precisa reagir — não para conquistar privilégios, mas para defender a liberdade religiosa, o Estado democrático e o direito de todas as pessoas viverem conforme sua consciência. Precisa também impedir que o silêncio permita a consolidação de uma teocracia disfarçada de defesa da fé. Nas próximas eleições, os cristãos devem observar não apenas as palavras religiosas pronunciadas pelos candidatos, mas sobretudo os frutos de suas ações. Devem perguntar quem defende a democracia, quem combate a fome, quem promove a paz, quem protege os pobres e quem respeita a diversidade religiosa do povo brasileiro. O voto consciente não é aquele orientado pelo candidato que mais repete o nome de Deus. É aquele discernido à luz do Evangelho, da solidariedade, da justiça social e do compromisso com o bem comum. Jesus Cristo não precisa ser decretado Senhor do Brasil. Precisa ser reconhecido na vida e na dignidade dos brasileiros, especialmente dos mais pobres e abandonados.

Fonte: Brasil 247

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