Eleições definirão o futuro das relações Brasil-Rússia, aponta conselho
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Especialistas russos e brasileiros reuniram-se em uma mesa-redonda promovida para debater o impacto das eleições presidenciais de 2026 no Brasil sobre o futuro do relacionamento bilateral com a Rússia. O evento ocorreu na quarta-feira (30) e foi organizado pelo Conselho Russo de Assuntos Internacionais (RIAC), em parceria com o Centro de Diplomacia do Conhecimento e o jornal Diálogos do Sul Global, sob o título “A Escolha do Brasil — 2026: Cenários de Impacto nas Relações Rússia-Brasil”.
A abertura do encontro contou com declarações de Ivan Kryazhev, diretor-adjunto de Relações Internacionais do Centro de Diplomacia do Conhecimento; Alexandra Terzi, coordenadora de programas do RIAC; e Vanessa Martina-Silva, editora-chefe do Diálogos do Sul Global. O painel de debatedores reuniu analistas, acadêmicos e jornalistas de destaque de ambos os países: Feliciano de Sá Guimarães, professor associado do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e editor-chefe do CEBRI-Journal; Leonardo Attuch, presidente do Instituto Sul Global e fundador do Brasil 247; Varvara Kuznetsova, pesquisadora do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia; Ana Lívia Araújo Esteves, docente da Faculdade de Economia Mundial e Assuntos Internacionais da Universidade HSE; Daniela Vieira Secches, coordenadora e cofundadora do Observatório Rússia-América Latina (Ruslat) e professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas); Gustavo Pessoa, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV); Vanessa Martina-Silva (Diálogos do Sul Global); e Alexandra Terzi (RIAC), com mediação de Ivan Kryazhev.
Os participantes abordaram a dinâmica da corrida presidencial brasileira e o alto grau de incerteza do seu resultado, o peso do Congresso Nacional na formulação de políticas, a experiência de governos anteriores, a inércia da política externa brasileira, os riscos para o BRICS em caso de reorientação de prioridades e os fatores estruturais e conjunturais que definem as relações entre Brasília e Moscou.
A perspectiva do desenvolvimento bilateral, BRICS e o contexto da América do Sul
Em sua análise, Leonardo Attuch indicou que as relações entre os dois países continuarão a se intensificar em um eventual quarto mandato do presidente Lula (PT), como demonstrado por visitas de alto nível e negociações em áreas de defesa e fertilizantes. Ele frisou que parcerias internacionais não impedem a autonomia do país: “sob Lula, as relações Brasil-Rússia continuarão a se desenvolver. Sinais recentes incluem a visita de Patrushev ao Brasil, a viagem de Celso Amorim à Rússia e conversas sobre defesa e fertilizantes. Não há razão para esperar uma deterioração na cooperação bilateral, uma vez que o acordo comercial com a UE não obriga o Brasil a seguir as posições europeias sobre a guerra na Ucrânia. Brasília sempre se opôs a guerras e pressionou para unir os defensores do desenvolvimento pacífico”.
Aprofundando a análise sobre um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro (PL), Attuch projetou que a gestão representaria um distanciamento — mas não o abandono — da Rússia e dos parceiros do BRICS. Essa distância ocorreria em função do alinhamento diplomático com as diretrizes de Washington, que na prática seriam conduzidas por nomes como Marco Rubio, embora a inviabilidade de romper laços econômicos com a China, com a Índia e com a Rússia impeça uma saída formal do agrupamento:
“Em um hipotético governo Flávio, a política externa seria, na prática, comandada por Marco Rubio, o que significaria um distanciamento do BRICS, mas não a saída do bloco. O Brasil não pode se afastar do agrupamento: a China é seu maior parceiro comercial, os EUA registram déficit comercial, e o país aposta em laços com a Índia e a Rússia. Jair [Bolsonaro] não tirou o Brasil do BRICS, e Flávio também não tiraria. O que mudaria seria o tom, não a direção: as relações bilaterais repousam sobre uma base estrutural que resiste à troca de governo”, afirmou o jornalista.
Attuch acrescentou que a disputa eleitoral no Brasil afeta o equilíbrio geopolítico da América do Sul. Uma vitória de Lula servirá como contraponto a Donald Trump no Hemisfério Ocidental e influenciará a política na Argentina, onde Javier Milei enfrenta dificuldades para se reeleger, enquanto uma vitória de Flávio consolidaria a diretriz do “Escudo das Américas”, voltada ao endurecimento penal e com impacto negativo na integração regional.
A centralidade da política externa nas escolhas do eleitorado
Durante as exposições, Feliciano de Sá Guimarães salientou que as pautas internacionais deixaram de ser um assunto restrito para se transformar em um tema que influencia diretamente o voto dos cidadãos brasileiros. Guimarães enfatizou que mais parlamentares foram eleitos com plataformas voltadas para a agenda externa e que a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados tornou-se uma das mais disputadas.
Ao detalhar as pesquisas desenvolvidas na Universidade de São Paulo, Guimarães destacou o impacto das questões globais sobre a popularidade dos líderes políticos no país: “pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) mostram que a aprovação ou desaprovação do presidente está mais estreitamente ligada a quatro temas internacionais: Venezuela, o conflito Israel-Palestina, a guerra na Ucrânia e as relações do Brasil com o governo Trump — sendo este último o mais importante. Em três dos quatro, Lula está distante do eleitor médio; ele está mais próximo nas questões de soberania e resistência à pressão dos EUA. Flávio, por outro lado, está mais próximo do eleitor médio em vários desses temas, especialmente na questão da Venezuela e na linha dura contra o crime organizado”.
O docente ressaltou que uma reeleição do presidente Lula representará a manutenção da linha adotada em relação à Rússia, sem rupturas, podendo ocorrer apenas reajustes na condução do Ministério das Relações Exteriores. Ele indicou que a eventual conclusão do acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode aproximar o país de posições europeias em relação à Ucrânia. Em contrapartida, uma vitória de Flávio Bolsonaro abriria uma disputa entre as alas “ideológica” e “pragmática” do movimento conservador, sendo esta última a autora de propostas destinadas a acalmar os mercados financeiros e as autoridades norte-americanas.
Ao diferenciar os componentes da aliança bilateral, Guimarães ressaltou o caráter inevitável da cooperação agrícola: “a relação bilateral pode ser dividida em elementos estruturais e voláteis. O elemento estrutural é a dependência do Brasil em relação aos fertilizantes russos: o calcanhar de Aquiles da sua economia agrícola. Qualquer governo tentará reduzi-la, mas nenhum cortará relações”.
Análise comparativa dos programas e a trajetória diplomática
A pesquisadora Varvara Kuznetsova abordou a evolução das propostas apresentadas na Justiça Eleitoral pelos candidatos, traçando um paralelo entre as campanhas. Ela apontou que em 2026 o programa de Lula desdobra-se em 84 páginas com destaque para a palavra “soberania”, mencionada em 21 páginas, além de “diversidade”, “justiça” e “democracia”, ao passo que a proposta de Flávio Bolsonaro adota um tom focado em segurança pública e estruturado no conceito do “cidadão de bem”.
A especialista Ana Lívia Araújo Esteves relembrou a evolução da política externa no governo de Jair Bolsonaro, salientando a transição da gestão ideologizada do chanceler Ernesto Araújo para o período pragmático conduzido por Carlos França, no qual as conexões estratégicas com Moscou foram restauradas. Esteves apontou para os elementos de continuidade entre governos: “entre o período de França e o governo Lula há uma continuidade marcante: as diretrizes fundamentais — uma posição amparada na Carta da ONU, a recusa a sanções, a rejeição ao isolamento da Rússia e a manutenção do diálogo diplomático com Moscou — permanecem inalteradas”.
A docente ponderou, contudo, que os limites para a cooperação dependem de fatores externos: “as relações Rússia-Brasil são estáveis e possuem suas âncoras, mas são limitadas por pressões externas. Um ex-embaixador russo no Brasil observou que os dois países só podem cooperar até certo ponto e em certas pautas: quando o tema defesa entra em pauta — como ocorreu com a compra dos sistemas russos Pantsir no governo Dilma — as negociações travam. Hoje a relação opera dentro do que o hegemon permite, na área de fertilizantes, o que não colide com os interesses americanos”.
Pragmatismo histórico e comportamento dos mercados financeiros
Ao abordar a trajetória bicentenária dos laços bilaterais, que completarão dois séculos em 2028, a professora Daniela Vieira Secches destacou a resiliência histórica do relacionamento entre as duas nações: “Rússia e Brasil estabeleceram relações diplomáticas em 1828; em breve marcarão 200 anos. Ao longo desse tempo, os laços quase nunca foram rompidos e, mesmo em momentos de crise, a interação continuou. Isso se explica por uma resiliência estratégica que não depende de alinhamento ideológico absoluto, mas de razões de Estado”.
Secches advertiu que as divisões políticas internas e as pressões dos Estados Unidos elevam os custos da autonomia brasileira, acrescentando que o BRICS é o ponto de maior divergência entre os concorrentes à Presidência.
O economista Gustavo Pessoa ressaltou que as decisões do mercado financeiro e a construção de vínculos comerciais internacionais obedecem ao pragmatismo e levam anos para se consolidar, descartando rupturas bruscas nas trocas comerciais com a Rússia: “os países não têm amigos — têm interesses. Portanto, mesmo que Flávio vença, não se devem esperar mudanças abruptas nas relações com a Rússia. Sob Jair Bolsonaro, os laços com a Rússia até se aprofundaram de certa forma, porque os vínculos comerciais e econômicos levam anos para serem construídos. O acordo Mercosul-UE levou trinta anos; o BRICS é uma construção de décadas. É altamente improvável que uma mudança de presidente prejudique o comércio com a Rússia”.
Pessoa destacou ainda como as corporações e as instituições financeiras exercem influência na opinião pública por meio do financiamento dos meios de comunicação.
Disputa acirrada e definição dos quadros ministeriais
A jornalista Vanessa Martina-Silva enfatizou o caráter extremamente equilibrado do pleito de 2026, com projeções indicando uma disputa definida por margens estreitas. Martina-Silva alertou para a politização de órgãos do Judiciário e para as pressões de ordem econômica exercidas externamente contra o Brasil, manifestadas por medidas tarifárias e restrições operacionais.
Encerrando as apresentações, Alexandra Terzi observou a distinção na formação das equipes de assessoria dos candidatos. Enquanto a candidatura de Lula apresenta continuidade institucional e nomes técnicos garantidos em órgãos internacionais — como a manutenção de Gabriel Galípolo no Banco Central até 2028 e de Dilma Rousseff na presidência do Banco do BRICS até 2030 —, o grupo em torno de Flávio Bolsonaro ainda define suas lideranças diplomáticas sob a influência de conselheiros econômicos liberais. Terzi concluiu indicando que a manutenção do pragmatismo comercial prevalecerá em ambas as candidaturas, assegurando o fornecimento de insumos essenciais e a estabilidade diplomática.
Fonte: Brasil 247