Eleições 2026: um balanço necessário
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
O resultado do primeiro turno das eleições gerais de 2026 revelou uma importante mudança na correlação de forças políticas do país. A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o Presidente Lula, por 47% a 45% dos votos válidos, contrariou as pesquisas que apontavam liderança mais confortável do candidato à reeleição e até a possibilidade de vitória em turno único. Mais do que a disputa presidencial, entretanto, foi a composição do Congresso que revelou a dimensão da mudança: a direita e a extrema direita avançaram de forma consistente, ampliaram sua presença institucional e criaram um ambiente muito mais desafiador para o campo progressista.
A principal contradição produzida pelas urnas é, portanto, esta: a eleição presidencial continua em aberto, mas a correlação de forças no Congresso já se deslocou explicitamente para a direita. Essa distinção é fundamental para compreender o que está em jogo no segundo turno e, sobretudo, os desafios que qualquer governo enfrentará a partir de 2027.
O primeiro turno presidencial foi marcado por fatores que ultrapassaram o debate programático. Questões como o Banco Master, denúncias envolvendo magistrados, vazamentos seletivos e conflitos entre integrantes do TSE e do STF foram intensamente explorados pela extrema direita e contribuíram para deslocar parte do debate eleitoral para uma agenda de denúncias, conflitos institucionais e rejeição ao governo Lula. Na reta final, a chamada “onda azul” fortaleceu candidaturas bolsonaristas ao Senado, enquanto parte do eleitorado que desejava derrotar Lula parece ter antecipado o chamado voto útil, concentrando sua escolha em Flávio Bolsonaro.
Esse movimento não significa que o resultado presidencial possa ser explicado por um único fator. A eleição foi resultado da combinação de avaliação do governo, rejeição ao PT, identidade ideológica, percepção sobre a situação econômica e social, atuação das redes digitais e capacidade de mobilização dos diferentes campos políticos. O que se pode afirmar é que a extrema direita conseguiu deslocar parte da campanha para uma disputa marcada mais pela rejeição ao governo e pela exploração de conflitos institucionais do que pela comparação entre projetos de país.
No Legislativo, a mudança é ainda mais expressiva. A Câmara dos Deputados registrou uma das menores taxas de renovação desde a redemocratização: 40,9%, com 303 deputados reeleitos. O PL consolidou-se como a maior bancada, com 121 deputados, enquanto a direita e extrema direita, reunindo conservadores e bolsonaristas, alcançou 265 cadeiras, ultrapassando a maioria absoluta de 257. No Senado, embora a renovação tenha chegado a 74,1%, o PL passou de quinze para 28 senadores, e a direita e extrema direita ampliaram significativamente sua presença, alcançando 48 das 81 cadeiras. O Centrão, que inclui boa parte dos conservadores/direita, mesmo com alguma perda relativa de espaço, continua decisivo, com 252 deputados e 35 senadores. A esquerda (PSOL, Rede, PV, PCdoB, PT, PSB e PDT) soma quinze senadores e 124 deputados federais.
O resultado produz uma consequência política evidente: ganhar a Presidência não significa ganhar o Congresso. Qualquer presidente eleito terá de governar diante de um Parlamento mais conservador e precisará construir maiorias para aprovar sua agenda. As mudanças constitucionais, por exemplo, dependem de 308 votos na Câmara e 49 no Senado. A eventual eleição de Flávio Bolsonaro não lhe daria automaticamente uma maioria governista, mas colocaria a direita e o bolsonarismo em posição privilegiada para disputar a formação dessa maioria. Para o campo progressista, a situação é ainda mais complexa: será necessário construir alianças amplas e, ao mesmo tempo, preservar uma identidade política capaz de impedir retrocessos.
O segundo turno, entretanto, será uma nova eleição. O resultado do primeiro turno não determina o vencedor. Flávio Bolsonaro, que chegou até aqui beneficiado pela força do sobrenome, pela mobilização bolsonarista e pela rejeição ao governo Lula, terá agora de enfrentar uma comparação mais direta com o atual presidente. Lula, por sua vez, terá a oportunidade de apresentar de forma mais clara as diferenças entre os dois projetos, comparar trajetórias e governos e mostrar os resultados de sua administração.
O governo Lula chega a essa etapa com um conjunto de realizações que precisa ser apresentado de maneira mais objetiva à sociedade: políticas de redução ou eliminação de despesas para famílias de baixa renda, programas sociais como o Gás para Todos e o Pé-de-Meia, valorização do salário mínimo, ampliação de concursos públicos, reajustes para servidores, mudanças na tributação da renda e outras medidas voltadas à proteção social e à recuperação do poder de compra. Mais importante do que uma longa relação de realizações será demonstrar como essas políticas afetam concretamente a vida das famílias.
A candidatura de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não pode ser dissociada do legado político do bolsonarismo. Sua candidatura carrega a defesa de uma agenda que inclui a anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos, uma postura de confronto com o Supremo Tribunal Federal e uma orientação econômica fortemente associada à contenção do gasto público e à redução do papel do Estado. Para os trabalhadores, servidores públicos e setores dependentes das políticas sociais, essa perspectiva merece atenção especial.
A experiência do governo Bolsonaro constitui parte importante dessa comparação. A agenda daquele período foi marcada pela reforma da Previdência, pela redução de direitos e pela tentativa de restringir o papel do Estado em diferentes áreas. Na pandemia, o governo também adotou uma postura amplamente criticada na condução da crise sanitária, em um período no qual o Brasil registrou mais de 700 mil mortes por Covid-19. A candidatura de Flávio Bolsonaro, portanto, não disputa apenas o futuro: ela também é julgada pelo eleitor a partir do legado político de seu grupo e de seu campo ideológico.
Para os trabalhadores e servidores públicos, a diferença entre os projetos permanece substantiva. A eventual continuidade do governo Lula significa preservar uma agenda de valorização do salário mínimo, fortalecimento de políticas sociais, investimentos públicos, concursos e defesa do papel do Estado na prestação de serviços essenciais. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, por outro lado, tende a recolocar na agenda propostas defendidas pelo campo bolsonarista, como uma reforma administrativa de caráter restritivo, maior abertura para privatizações, novas mudanças previdenciárias e trabalhistas e revisão das vinculações e políticas públicas que asseguram recursos para saúde e educação.
Não se trata, portanto, apenas de uma disputa entre partidos ou candidatos. Está em jogo uma concepção de Estado e de sociedade. De um lado, a ideia de que o Estado deve atuar como indutor do desenvolvimento, provedor de serviços públicos e instrumento de redução das desigualdades. De outro, uma visão que atribui maior espaço ao mercado, reduz o papel do Estado e prioriza o equilíbrio fiscal, mesmo quando isso implica restringir direitos ou reduzir políticas públicas.
Para o movimento sindical, porém, a principal lição da eleição talvez esteja em outro lugar. A eleição presidencial não encerra a disputa política nem resolve a correlação de forças. Mesmo que Lula seja reeleito, o Congresso será mais conservador e exigirá uma atuação sindical muito mais organizada e permanente. Não será suficiente esperar que o Executivo encaminhe propostas ou que o Parlamento espontaneamente reconheça as demandas dos trabalhadores.
Será necessário recuperar a capacidade de dialogar com a sociedade. Salário, aposentadoria, escola pública, saúde, Previdência e serviço público não são interesses corporativos de determinadas categorias. São temas que dizem respeito à maioria da população. O desafio consiste em demonstrar essa conexão de maneira simples, concreta e permanente, disputando a narrativa com uma direita que aprendeu a falar diretamente com parcelas importantes da sociedade.
A baixa renovação parlamentar também merece reflexão. Muitos dos chamados “novos” parlamentares não são propriamente novos na política: são ex-deputados, ex-prefeitos, ex-governadores ou deputados estaduais que apenas mudaram de posição dentro do sistema. Além disso, a reeleição é favorecida por vantagens institucionais importantes, como emendas parlamentares, fundo eleitoral e estrutura partidária. A renovação quantitativa, portanto, não significa necessariamente renovação qualitativa.
Esse fenômeno revela outro problema: o eleitor nem sempre dispõe de informação suficiente para avaliar o desempenho de seus representantes. A existência de instrumentos que permitem acompanhar votações e posicionamentos parlamentares, como as iniciativas do DIAP, é importante, mas ainda insuficiente para produzir uma cultura de responsabilização eleitoral. O desafio é fazer com que o eleitor não avalie apenas o discurso do candidato, mas também sua trajetória, seus votos e sua atuação concreta no Parlamento.
A principal lição do resultado de 2026 é justamente essa: não basta eleger o Presidente; é preciso disputar a sociedade e o Congresso. A esquerda não pode depender exclusivamente da popularidade do presidente ou da força do governo federal. Precisa reconstruir capacidade de organização, comunicação e mobilização, formar novas lideranças e estabelecer pontes com setores sociais que hoje não se identificam com suas pautas.
Por isso, o movimento sindical precisa transformar o resultado eleitoral em aprendizado. Legado de governo é importante, mas precisa ser comunicado. Institucionalidade é necessária, mas não substitui mobilização. Unidade política é indispensável, mas precisa ser construída a partir de objetivos concretos. E a defesa de direitos precisa ser apresentada não apenas como resistência ao retrocesso, mas como projeto de futuro.
No curto prazo, o segundo turno exige iniciativas capazes de produzir esperança e confiança. O governo Lula poderia dar sinais concretos de compromisso com demandas que mobilizam setores importantes da sociedade e do movimento sindical. Entre elas estão o apoio à apensação da PEC 555 à PEC 6, com o objetivo de enfrentar a contribuição previdenciária de aposentados e pensionistas; medidas para avançar na superação da escala 6×1; e a pressão pela votação do projeto que regulamenta a negociação coletiva no serviço público.
Essas iniciativas não resolveriam, por si sós, os problemas revelados pelas urnas. Mas poderiam demonstrar que a eleição não deve ser reduzida à disputa entre dois nomes. Ela precisa ser compreendida como uma escolha entre projetos e como uma oportunidade para reconstruir uma relação de confiança entre o campo progressista e a sociedade.
A eleição de 2026, portanto, não encerra a disputa política brasileira. Ela inaugura uma nova etapa. O país chega ao segundo turno com a Presidência ainda em disputa, mas com um Congresso mais conservador, uma extrema direita institucionalmente fortalecida e um campo progressista diante da necessidade de rever suas estratégias.
A eventual vitória de Lula será importante, mas não suficiente. Será preciso governar, construir maioria, disputar o Congresso e reconquistar a confiança de parcelas da sociedade. E, diante do fortalecimento do bolsonarismo, será necessário também enfrentar politicamente seu projeto, sem subestimá-lo e sem abrir mão da defesa da democracia, dos direitos sociais e do papel do Estado.
A principal lição das urnas é simples: a eleição pode mudar quem ocupa o governo; a correlação de forças só muda quando se conquista a sociedade. Para o movimento sindical e para o campo progressista, essa é a tarefa que começa agora.
Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, mestre em Políticas Públicas pela FGV. Membro do Conselhão da Presidência da República e foi diretor do DIAP por 35 anos. É sócio da Consillium Soluções Institucionais e Governamentais.
Fonte: Fundação Perseu Abramo