Eleições 2026: maioria dos presidenciáveis ignoram a crise climática e limitam ações a respostas de emergência

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Em meio a um ano marcado por impactos severos do fenômeno El Niño e pelo avanço de eventos climáticos extremos, os planos de governo dos candidatos à Presidência da República para as Eleições de 2026 revelam lacunas no enfrentamento da crise socioambiental. Embora o Brasil seja o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, análises de entidades especializadas indicam que a pauta climática ainda é tratada como assunto acessório ou puramente reativa pela maioria dos presidenciáveis.
Levantamentos realizados por organizações como o Observatório do Clima (OC) e a “Política por Inteiro” do Instituto Talanoa, examinaram as propostas apresentadas por seis candidaturas: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Hertz Dias (PSTU). Evidenciando contrastes na profundidade dos compromissos assumidos.
Raio-X dos Programas de Governo
Presidenciáveis nas eleições 2026
Divulgação
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): O programa foi avaliado pelo Observatório do Clima como o que reúne mais compromissos socioambientais positivos. É a única proposta a citar a meta climática brasileira (NDC) até 2035 e o Acordo de Paris, sugerindo um Plano Nacional de Adaptação articulado com estados e municípios. Especialistas, contudo, apontam a manutenção da forte dependência do petróleo e o incentivo ao gás natural como combustível de transição, sem prazo definido para encerramento.
Ronaldo Caiado (PSD): Apresenta uma abordagem transversal, conectando a política climática às agendas de desenvolvimento regional, saúde, segurança energética e resiliência. O plano propõe medidas operacionais de gestão de riscos e drenagem, reconhecendo o impacto do clima na agricultura. No entanto, omite a NDC brasileira, metas de redução de emissões e compromissos com a demarcação de terras indígenas.
Flávio Bolsonaro (PL): O programa omite o termo “mudança do clima” e concentra as ações ambientais na fiscalização e na resposta via Defesa Civil, sob a ótica da segurança pública. O Observatório do Clima identificou uma escassez de compromissos positivos e criticou o viés das propostas ambientais. Na imprensa, o candidato já manifestou ceticismo sobre a atribuição direta de desastres recentes às mudanças climáticas.
Romeu Zema (Novo): Trata a pauta ambiental prioritariamente como gestão de riscos urbanos e segurança pública. Embora cite a ocorrência de eventos extremos, não detalha ferramentas de implementação para monitoramento e resposta a desastres. Análises de sua gestão no governo de Minas Gerais apontam reduções orçamentárias expressivas nas verbas de prevenção a impactos de chuvas.
Renan Santos (Missão): É o único plano que não cita o desmatamento como um problema a ser combatido. O texto menciona instabilidades no setor agropecuário sem vinculá-las ao clima e propõe a criação de um marco regulatório para a exploração mineral em territórios indígenas.
Hertz Dias (PSTU): Reconhece o agravamento da crise climática e critica os resultados do Acordo de Paris. Destaca-se como a única candidatura a defender o veto a novas fronteiras de exploração de petróleo, como a Margem Equatorial, embora o programa careça de diretrizes para a implementação de uma política climática coordenada.
Desmatamento, Energia e Mineração
De acordo com a especialista em políticas climáticas e uma das responsáveis pelo levantamento do “Política por Inteiro”, Taciana Stec, um dos maiores entraves dos planos é a desconexão entre as propostas e as metas globais de sustentabilidade.
“A gente vê que 100% dos candidatos falam em energias limpas e renováveis e colocam a transição energética como uma diversificação da matriz, mas ainda com petróleo e gás dentro desse sistema. Na verdade, nenhum programa coloca um objetivo claro de se afastar dos combustíveis fósseis”, diz.
Stec reitera que há uma desconexão entre as propostas dos candidatos e a realidade climática. “Eles vão muito num viés de legalidade: acabar com o desmatamento porque é crime ambiental, ou prevenir desastres ‘porque chove'”. Segundo ela, os planos não estão conectados com a crise climática global nem com a NDC brasileira, a meta que o país precisa entregar de redução de emissões alinhadas com o Acordo de Paris. “Isso para a gente é um problema, porque a solução parte de um princípio negacionista de apenas reação a um problema e não em uma conexão global”, diz.
São destacadas as abordagens dos candidatos em três aspectos centrais da agenda climática: combate a desmatamento, transição energética e utilização de minerais críticos.
Risco regulatório no desmatamento: Abordado pela maioria sob a perspectiva da legalidade e da segurança pública, o combate ao desmatamento não costuma ser vinculado à redução de emissões. Especialistas alertam que tratar a questão apenas como crime ambiental gera riscos de flexibilização, onde normas podem ser alteradas para legalizar atividades hoje proibidas.
Transição energética incompleta: O tema é frequentemente reduzido à diversificação da matriz elétrica com fontes renováveis, sem cronogramas claros para o fim da dependência fóssil. Enquanto alguns planos defendem o incentivo ao fracking (gás não convencional), apenas um cita diretamente a descontinuidade do uso do carvão.
Minerais críticos sem salvaguardas: A exploração de minerais estratégicos é uma pauta unânime, variando da aceleração de licenciamentos à criação de estatais para agregar valor nacional. Contudo, os programas falham em apresentar salvaguardas socioambientais sólidas para a proteção de territórios sensíveis.
Moradia Digna e Justiça Climática
A ausência de políticas públicas estruturadas de longo prazo agrava o cenário de injustiça climática no país. Thayná Shervis, especialista de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, ressalta que a habitação é o ponto central onde a desigualdade social e a emergência climática se cruzam de forma direta, destacando que a cada 100 hectares de favela no Brasil, 15 estão em áreas suscetíveis a eventos climáticos extremo.
“São mais de 16 milhões de pessoas vivendo nesses territórios. Essa é a população que menos contribui para as mudanças climáticas e a que mais sofre com seus efeitos extremos”, diz.
Estudo realizado pela TETO Brasil em 2025 com 119 comunidades vulneráveis revelou que 86% dos moradores enfrentaram eventos climáticos extremos no último ano. Para Thayná, o poder público precisa superar a lógica reativa e adotar a moradia digna como infraestrutura vital de sobrevivência.
“O poder público reage a desastres pontualmente, mas não trata a emergência habitacional contínua pelo que ela é, ou seja, um padrão estrutural e super previsível ligado à falta de planejamento urbano, saneamento e infraestrutura climática. Por isso nosso documento situa a habitação como uma estrutura de resiliência climática permanente”, avalia.
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Fonte: umsoplaneta

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