Por Carlos Carvalho — Brasil 247

As primeiras chuvas que banham o Nordeste entre os meses de julho, agosto, setembro e outubro, recebem o nome de “chuvas de cajus” e são sinal de alegria e fartura para todos nós. Nas praças, feiras e supermercados lá estão os cajus: amarelos, lindos e vermelhos também. Alguns mais azedos, mas a maioria doce feito mel. Seguindo em direção à Universidade Estadual do Ceará, no Itaperi, eis que minhas retinas tão fatigadas capturam a imagem de um vendedor de cajus em uma movimentada avenida de Fortaleza. Outubro tem dessas coisas! Já no Itaperi, sede da UECE, escuto a professora e ceno poeta Claudiana Alencar defender seu Memorial para ascender à classe de Professora Titular. Ela fala do andarilhar entre rios de poesia, mangues, raízes, sertão e práticas de linguagem de esperança. Uma lindeza só! E eu, lá no cantinho, a escutá-la falar, declamar e cantar, mas ainda pensando no vendedor de cajus. 

Na volta pra casa, dentro do carro, sobre o trevo a 60 por hora, Alceu Valença canta baixinho: “Ela virá no verão/Com as chuvas de cajus/Os flamboyants estão sangrando/Nessa tardes tão azuis”. E lembro que ouvi essa canção pela primeira vez, vindo de Quixadá para Fortaleza, de carona com o amigo Miguel Leocádio. Eram sempre três horas de estrada regadas a muita música e agradáveis conversas sem fim. Escuto Alceu e, enquanto o carro entra na minha rua, vejo a fachada da escola onde votarei no domingo. O coração acelera um pouco e penso na importância das eleições do dia 04 de outubro, quando o Brasil decidirá entre a civilização e a barbárie. O carro reduz a marcha exatamente quando a voz de Noel Rosa ecoa em meus ouvidos e me diz, em Conversa de Botequim, para “fechar a porta da direita com cuidado”. Quem sou eu para discordar do “Poeta da Vila”, penso. E penso também com que roupa que eu vou pro “samba” que a democracia me convidou.  

Mas como o voto é secreto, não posso dizer aqui em quem votarei no domingo. O que posso afirmar, no entanto, é que votarei por mim e por aqueles que passam fome. Votarei também por melhores condições de saúde e educação para o nosso povo, ou seja, votarei para que o Ceará e o Brasil continuem seguindo em frente e para que o fascismo não nos domine. Ao contrário, que seja banido de terras tão belas, como aquelas cantadas pela ceno poeta Claudiana Alencar. Também votarei para que mulheres, pretos, pobres, LGBTs e todas as pessoas colocadas à margem da sociedade possam ter uma existência digna. As eleições de domingo já batem à nossa porta nos chamando para a luta. Será o momento de sermos e fazermos história, já no primeiro turno, e permitir que ele venha com as chuvas de cajus.

Fonte: Brasil 247

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