‘Elas nos ofereceram um pedaço de suas vidas’: livro reúne relatos de mulheres palestinas escritos sob as bombas em Gaza

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Por André Lucena — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

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São várias as formas de olhar para o genocídio promovido por Israel em Gaza. Uma delas é pela lente das mulheres que, ao longo dos últimos anos, enfrentam o luto enquanto se veem forçadas a irem de um ponto a outro do território, tentando encontrar o fio da esperança. São mães, filhas, estudantes e profissionais das mais diferentes áreas; cada qual, por sua maneira, tenta superar a mera busca pela sobrevivência. Entre escombros e luto, elas se esforçam, quando podem, para registrar o que vivem.

“O Mundo que conhecíamos ficou para trás”, coletânea de testemunhos escritos por mulheres da Faixa de Gaza durante o genocídio israelense, chega às livrarias brasileiras. Publicado pela Mórula Editorial, o livro reúne relatos coletados pelo Instituto de Estudos da Mulher da Universidade Birzeit, na Cisjordânia ocupada, e republicados ao longo de meses na página da instituição no Facebook.

A edição brasileira tem 152 páginas, tradução direta do árabe, ilustração de capa de Maha Abuelkas e texto de abertura da jornalista e ativista Gizele Martins, do Complexo da Maré. Todo o trabalho foi voluntário.

Escrever enquanto uma ofensiva tão grave acontece é tarefa mais que difícil. Entre as ações concretas e as palavras que chegam ao papel, 73.669 palestinos já foram mortos no território até o início de setembro. O cessar-fogo firmado em outubro do ano passado passou longe de interromper os ataques, e a Comissão Internacional Independente do Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado concluiu que Israel, pelas mãos do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cometeu genocídio na Faixa de Gaza.

O Brasil de Fato entrevistou Rania Jawad, organizadora do livro, professora assistente e atual chefe do Departamento de Língua e Literatura Inglesa da Universidade Birzeit. Quando a ofensiva começou, ela dirigia o Instituto de Estudos da Mulher da universidade. Na entrevista por escrito, Jawad conta como os textos foram reunidos, descreve o contato com as autoras sob os apagões impostos por Israel e afirma que ler os relatos representa apenas um passo no sentido de compreender o genocídio.

Brasil de Fato: O livro “O Mundo que conhecíamos ficou para trás” é composto por vozes que escrevem enquanto a guerra acontece. De que forma esse modo de relato tão singular leva os leitores a compreenderem a dimensão do que ocorre em Gaza?

Rania Jawad: É importante reconhecer o grande volume de textos que mulheres, homens e jovens palestinos produziram durante a campanha de aniquilação mais intensa do regime colonial de povoamento sionista, durante o genocídio. Esses textos eram, em grande parte, de acesso público nas plataformas de redes sociais, assim como em sites que passaram a hospedar essa escrita. A imensa maioria deles não foi encomendada para publicação: surgiu do desejo de pôr em palavras o que o genocídio significa para quem é brutalmente submetido a ele, não apenas para os outros, mas também para si mesmos. Essa escrita, que continua até hoje, abrangeu desde homenagens a entes queridos assassinados, cujos restos mortais tiveram negado um sepultamento digno, até relatos das humilhações cotidianas da ajuda humanitária e da busca por água limpa, de como o cerco prolongado e a inanição desfiguraram o senso de si, críticas contundentes a quem participa da obliteração de Gaza e a quem se cala diante dela, até o parto nos acampamentos de tendas. 

Por outro lado, o que quem escreve tem reconhecido é que o genocídio, da escala maior da obliteração e do desmembramento às escalas do mundano e do cotidiano, desafia a linguagem. Em outras palavras, a leitura não se traduz em uma sensação de saber, assim como o cheiro opressivo de estar soterrado sob os escombros ou a sensação de não conseguir alimentar os próprios filhos não podem ser transmitidos ao vivo. Por isso, eu diria que o objetivo não é a compreensão, mas o que você faz com o que leu, como isso te afetou e como isso se conecta às lutas que você enfrenta e às batalhas que trava contra forças fascistas, racistas, capitalistas, sexistas e chauvinistas que, direta e indiretamente, proclamam que a sua vida vale pouco.

O que você destaca no contato com as mulheres autoras dos livros? E quais histórias você pode nos contar sobre a composição da obra?

No início deste genocídio, que sabemos ser uma continuação da Nakba e de anos de cerco israelense e de políticas e práticas de limpeza étnica, eu era diretora do Instituto de Estudos da Mulher da Universidade Birzeit, que se compromete com ferramentas analíticas feministas em sua pesquisa e em seu trabalho comunitário. Por isso, reunir e amplificar as palavras das mulheres foi uma ação imediata para nos conectarmos com o nosso povo em Gaza. Começamos procurando mulheres com quem já tínhamos contato e depois passamos a coletar o que já vinha sendo escrito por mulheres de diferentes origens, idades e posições. No final das contas, foi um ato de dizer a elas que estávamos guardando suas palavras com cuidado e, assim, uma forma de construir uma conexão e algum apoio. Compartilhar suas vozes, portanto, não era um fim em si mesmo. 

Formei uma pequena rede de pessoas que queriam apoiar o trabalho de coletar, traduzir, revisar e republicar os textos das mulheres. Isso durou oito meses e incluiu também a organização de cartas-resposta de colegas feministas anti-imperialistas, que entregamos às mulheres. Publicar na página do Instituto no Facebook tornou público, em certo sentido, aquele espaço de escuta e comunicação que construímos. A ideia do livro veio de dois amigos: Geo Britto, da Escola de Teatro Popular (ETP), que conheci no Egito há algum tempo, quando ele conduzia oficinas de Teatro do Oprimido, e Pepa Conde, que também conheci no Egito, mas que hoje vive em Sevilha e organiza ações de solidariedade à Palestina. Na época, compartilhei esses textos com os dois e com outros colegas, artistas e acadêmicos, e Geo voltou com a ideia de um projeto de livro. Ele conheceu a Mórula Editorial, sediada no Rio de Janeiro, e seu editor, Vitor Castro, que assumiu o projeto como um ato político de solidariedade. 

O que talvez surpreenda é que não foi difícil estabelecer contato com as mulheres, mesmo em meio à violência extrema. É claro que nem todas as pessoas que procuramos responderam, e a destruição deliberada das telecomunicações e os apagões impostos por Israel foram mais um ato de selvageria. Mas as mulheres responderam com tanto detalhe e tanta delicadeza, pondo em palavras os significados deste genocídio nas particularidades do cotidiano. Elas nos ofereceram um pedaço de suas vidas.

Tem sido significativo para as mulheres que tenhamos mantido contato com elas desde a primeira vez que as procuramos, e construir essas relações ao longo do tempo tem sido valioso para elas, assim como tem sido para nós. Receber as minibiografias atualizadas delas para o livro deixa cruamente claro que o genocídio não terminou, tanto na contínua destruição sionista da vida palestina quanto na marca que ele deixa em nossos corpos, memórias e futuros, e em toda a pátria. Algumas das mulheres estão preparando vídeos curtos em que vão ler um trecho de seus textos e falar um pouco da vida que levam agora, como parte do lançamento do livro.

Embora cada história seja única, juntas elas narram uma tragédia coletiva. O livro também se propõe a tratar do genocídio em Gaza em uma perspectiva mais ampla, tratando de outras regiões?

Precisamos reconhecer que essa tragédia coletiva não está restrita à Faixa de Gaza, nem ao povo palestino, nem mesmo à região. A tragédia é que vivemos em uma ordem mundial racista e imperialista que não apenas aceita a aniquilação brutal de qualquer povo ou comunidade considerada “indesejável” por essa ordem, mas que promoveu ativamente, e por séculos, a dizimação de povos indígenas, negros e pardos. A coletânea nunca teve a intenção de ser abrangente. O livro é, antes, a materialização de um momento específico dentro da temporalidade do genocídio. Nós, geograficamente situados na Cisjordânia e submetidos ao mesmo regime colonial de povoamento e às suas políticas de assassinato, encarceramento em massa, roubo de terras e demolição de casas, ainda que em outra escala e configuração, estávamos impedidos pelo bloqueio de estar fisicamente ao lado do nosso povo na Faixa para deter a máquina de tortura. Mas desafiávamos essa posição de sujeito, por menor e mais íntima que fosse a escala.

Como tem sido a experiência de ter o livro publicado no Brasil? O que esperar da recepção de públicos de outros países?

Reunimos os textos dessas mulheres não com o objetivo de publicar um livro, mas como forma de nos conectarmos com o nosso povo em Gaza e de registrar e compartilhar suas palavras. Aquela ação inicial se transformou em diferentes formas de relações e colaborações mais duradouras, e este livro tem sido uma maneira de dar continuidade a essa conexão e de ampliá-la. É especialmente importante fazer isso com povos e comunidades que também foram submetidos a guerras coloniais de povoamento e imperiais. Por isso, ter os textos das mulheres traduzidos para o português e o livro publicado no Brasil é um produto concreto desse tipo de trabalho político.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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