“É preciso politizar a crise: ela tem uma finalidade eleitoral”, diz Francisco Teixeira
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – A crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) precisa ser compreendida para além das disputas pessoais entre ministros e das controvérsias jurídicas que dominam o debate público. Na avaliação do historiador Francisco Teixeira, o confronto institucional em curso possui objetivos políticos mais amplos e pode produzir consequências para a disputa pelo poder no país.
Em entrevista à TV 247, Teixeira rejeitou a interpretação segundo a qual o embate envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça poderia ser explicado como uma disputa de personalidades dentro do Supremo. Para ele, há interesses políticos em jogo e uma dimensão internacional que precisa ser considerada.
“Não se trata de maneira alguma de um duelo de egos. Não é uma questão entre o Moraes e o Mendonça. Vai muito além disso”, afirmou.
O historiador sustentou que não há elementos suficientes para afirmar que a crise tenha sido produzida a partir do exterior. Avalia, porém, que seus desdobramentos podem chegar aos Estados Unidos e ser incorporados às articulações políticas relacionadas ao Brasil.
“Eu não sei se isso veio do exterior para dentro. Eu não sei e não posso comprovar isso. Mas eu posso afirmar que vai terminar do lado de fora”, disse.
Pressão sobre o Supremo e anistia
Na avaliação de Teixeira, a ofensiva contra o STF e contra figuras diretamente associadas às decisões que atingiram Jair Bolsonaro ocupa posição central nesse movimento.
Segundo ele, colocar sob suspeita a legitimidade do Supremo e de ministros envolvidos nos processos contra o ex-presidente e seus aliados pode abrir espaço para questionar condenações e fortalecer a pressão por uma anistia.
“A ideia de deslegitimar o Supremo Tribunal Federal é absolutamente fundamental para o prosseguimento do bolsonarismo”, afirmou.
Nesse contexto, Teixeira considera que o desgaste de Alexandre de Moraes teria uma função específica. O ministro tornou-se um dos principais alvos de Jair Bolsonaro e de seus aliados em razão de sua atuação nos processos envolvendo o ex-presidente.
“Você desmoralizar o ministro Alexandre de Moraes, aquele que levou à condenação de Jair Bolsonaro, abre muito mais a possibilidade da anistia”, disse.
Para o historiador, a defesa da anistia também não deve ser interpretada exclusivamente a partir da situação pessoal de Bolsonaro. Ela envolveria outros integrantes do campo bolsonarista, incluindo militares atingidos pelas investigações e condenações relacionadas à tentativa de golpe.
“Não é só Jair Bolsonaro. Tem gente muito importante também que quer essa anistia”, declarou.
Uma crise com dimensão internacional
Francisco Teixeira também chamou atenção para as articulações de setores bolsonaristas nos Estados Unidos e para a tentativa de levar disputas políticas brasileiras ao ambiente internacional.
O historiador relacionou esse cenário à atuação de Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e setores da direita norte-americana ligados ao governo de Donald Trump.
Teixeira citou ainda movimentos de empresários brasileiros com interlocução nos Estados Unidos. Segundo sua análise, representantes do empresariado teriam buscado interlocutores norte-americanos para defender a confiabilidade das instituições brasileiras e a normalidade do processo eleitoral.
“A gente continua perante os Estados Unidos defendendo as eleições, a legislação, os meios, os métodos, a urna eletrônica, a contagem eletrônica da eleição brasileira”, afirmou.
Para Teixeira, o fato de empresários com fortes interesses econômicos nos Estados Unidos entrarem nessa discussão mostra a relevância adquirida pelo tema nas relações entre os dois países.
O historiador entende ainda que as articulações políticas ultrapassam as fronteiras partidárias. Na sua avaliação, diferentes setores econômicos, religiosos e militares podem convergir em torno de determinadas pautas, especialmente a anistia.
Em sua análise, existe o risco de que uma eventual derrota da direita seja acompanhada por uma tentativa de buscar respaldo externo para uma contestação política do resultado.
“Eles já apostam que não vão ganhar as eleições e que, para isso, precisam mobilizar todo um aparato de deslegitimação das eleições”, afirmou.
O risco do desgaste das instituições
Teixeira também chamou atenção para um efeito menos imediato, mas igualmente importante: o afastamento da população do debate público.
Segundo ele, uma sucessão de conflitos envolvendo ministros, decisões judiciais, procedimentos técnicos e acusações cruzadas pode produzir a percepção de que todos os atores institucionais são equivalentes e de que a política está inevitavelmente associada à corrupção.
“O que resta para a população brasileira, num profundo enfado da repetição da crise, é: ‘todos são iguais, tudo é igual’”, afirmou.
Para o historiador, esse sentimento pode ter consequências concretas sobre a participação popular. Em vez de mobilizar a sociedade em defesa das instituições, a repetição das crises pode produzir apatia.
“Isso não mobiliza ninguém para sair de casa. Ao contrário, isso desmobiliza as pessoas a participar da política”, alertou.
Teixeira defendeu, por isso, que o debate não fique restrito às discussões técnicas sobre procedimentos jurídicos. Em sua avaliação, é necessário apresentar com clareza os interesses e projetos políticos envolvidos na disputa.
“A gente tem que politizar a crise e colocá-la com clareza: ela tem uma finalidade eleitoral”, resumiu.
Para o historiador, portanto, o ponto decisivo não é determinar qual ministro sairá fortalecido ou enfraquecido do confronto, mas compreender o efeito político do desgaste das instituições e quem pode se beneficiar dele.
Fonte: Brasil 247