Durigan sugere que Flavio Bolsonaro pode dar calote, assim como Collor
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez duras críticas à proposta apresentada pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de permitir que famílias e empresas deixem de pagar dívidas por um período de seis meses a um ano. Em vídeo publicado nas redes sociais, Durigan classificou a medida como inviável e alertou que sua implementação poderia provocar uma paralisação do crédito no Brasil, com consequências para consumidores, empresários e produtores rurais.
A manifestação ocorreu após o debate presidencial promovido pela Band no domingo (18), entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O candidato do PL também prometeu abrir espaço de mais de R$ 200 bilhões no Orçamento da União para auxiliar famílias endividadas. Durigan contestou a ideia de uma suspensão generalizada dos pagamentos, afirmando que ela poderia comprometer o funcionamento do sistema financeiro.
“Uma promessa que o candidato Flávio Bolsonaro fez no debate de domingo da Band me chamou atenção. Me chamou atenção porque é aquela promessa que parece boa à primeira vista, até parece que vai te ajudar, mas no fundo é o contrário”, afirmou o ministro.
Na avaliação de Durigan, a proposta poderia atingir justamente os brasileiros que dependem de financiamentos para realizar compras, manter seus negócios ou adquirir imóveis.
“É algo impossível de ser implementado e que prejudicaria diretamente você, empresário, cidadã, que precisa de crédito para comprar uma geladeira, um móvel ou até a sua casa própria”, acrescentou.
Durigan alerta para risco de calote generalizado
Ao explicar os possíveis efeitos da medida, o ministro argumentou que uma interrupção generalizada dos pagamentos comprometeria a capacidade das instituições financeiras de conceder novos empréstimos.
“O que o Flávio Bolsonaro disse? Que as pessoas e empresas iriam deixar de pagar suas dívidas por seis meses ou um ano. Até parece legal, né? Mas nenhum governo tem o poder de implementar um calote geral na economia que, na prática, travaria todos os sistemas de crédito”, declarou.
Durigan destacou que as consequências poderiam ser sentidas imediatamente por diferentes setores da economia. Pequenos empresários teriam dificuldades para financiar suas atividades, consumidores enfrentariam restrições na compra de bens parcelados e produtores rurais poderiam perder acesso a recursos necessários para custear suas safras.
“Se isso acontecer, no dia seguinte, você, que precisa de um crédito para antecipar uma fatura do seu negócio, ou que for financiar a compra de um bem em qualquer loja, ou o produtor rural que precisa do crédito para financiar a sua safra, tudo isso estaria inviabilizado”, afirmou.
O ministro também sustentou que o custo da proposta acabaria sendo transferido à própria população, diante da possibilidade de uma crise de liquidez no sistema bancário.
“Essa proposta, na verdade, seria paga por você, o prejuízo ficaria no seu bolso”, advertiu.
Segundo Durigan, uma suspensão prolongada dos pagamentos de dívidas poderia comprometer não apenas a oferta de novos financiamentos, mas também a capacidade das instituições de atender às necessidades de seus clientes.
A avaliação do ministro, contudo, refere-se ao cenário de uma interrupção generalizada dos pagamentos. Os efeitos concretos de um eventual programa dependeriam de suas regras, da abrangência das dívidas contempladas e da existência de mecanismos de compensação aos credores.
Alerta remete aos impactos do Plano Collor
As advertências sobre possíveis dificuldades de acesso aos recursos depositados nos bancos remetem a um dos episódios mais traumáticos da história econômica brasileira: o Plano Collor, implementado em março de 1990, durante o governo do então presidente Fernando Collor de Mello.
Na ocasião, o governo determinou o bloqueio de grande parte dos depósitos bancários e das aplicações em cadernetas de poupança, com o objetivo de conter a inflação e reduzir a quantidade de dinheiro em circulação.
De acordo com o Banco Central, o plano restringiu os saques e resgates a 50 mil cruzados novos, mantendo os valores excedentes bloqueados por 18 meses. A medida provocou forte desorganização da atividade econômica, com cancelamento de encomendas, aumento da inadimplência, demissões e adiamento de investimentos.
O bloqueio também contribuiu para uma severa recessão e não conseguiu controlar de maneira duradoura a inflação, que atingiu 1.621% em 1990, segundo o histórico divulgado pela autoridade monetária.
Embora Durigan não tenha mencionado Collor diretamente no vídeo, sua advertência sobre o risco de dificuldades para devolver recursos mantidos em bancos estabelece um paralelo com os efeitos de uma crise de liquidez. As medidas, entretanto, são distintas: o Plano Collor bloqueou depósitos e aplicações financeiras, enquanto a proposta atribuída a Flávio Bolsonaro envolve a suspensão temporária do pagamento de dívidas.
Ministro afirma que suspensão das dívidas não resolveria endividamento
Outro ponto levantado por Durigan é que a interrupção dos pagamentos não significaria necessariamente o perdão dos débitos existentes.
Segundo ele, caso os contratos continuassem prevendo a incidência de juros, os valores devidos poderiam aumentar durante o período de suspensão, agravando a situação financeira dos consumidores.
“Você continua endividado nessa proposta e os juros continuam aumentando a sua dívida”, afirmou.
A distinção entre adiar pagamentos e reduzir efetivamente o valor das dívidas é um dos principais aspectos do debate sobre políticas de renegociação. Uma moratória pode oferecer alívio temporário ao devedor, mas seus resultados dependem de condições como a suspensão de juros, o prazo de pagamento e a forma de compensação das instituições credoras.
No vídeo, Durigan argumenta que uma solução sustentável exige mecanismos de renegociação capazes de reduzir o endividamento sem comprometer a circulação de recursos na economia.
Durigan defende Desenrola e promete descontos superiores a 90%
Como alternativa à proposta de Flávio Bolsonaro, o ministro defendeu a ampliação do programa Desenrola, iniciativa do governo Lula destinada à renegociação de dívidas de famílias e pequenos empreendedores.
“A solução para o endividamento das famílias e das empresas não é por toque de mágica, nem com promessas impossíveis de serem cumpridas”, declarou.
Durigan afirmou que uma nova etapa do programa, anunciada pelo presidente Lula, deverá permitir a aquisição de dívidas com descontos superiores a 90%.
“A solução é um programa sustentável, como temos feito no Desenrola, em que, já na próxima etapa anunciada pelo presidente Lula, nós vamos adquirir suas dívidas com descontos acima de 90%, sem calote, sem magia, tudo com muita responsabilidade”, disse.
O governo federal lançou, em maio de 2026, uma nova versão do Desenrola Brasil, com condições especiais para a renegociação de débitos. Segundo a Agência Brasil, a iniciativa foi estruturada para oferecer descontos de até 90%, juros reduzidos e possibilidade de utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para amortizar dívidas.
O programa contempla determinadas modalidades de crédito, como dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, observados critérios de contratação e atraso. As condições divulgadas pelo governo incluem juros de até 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses.
A promessa de descontos superiores a 90% mencionada por Durigan diz respeito à etapa futura anunciada pelo ministro, não devendo ser confundida com as condições já estabelecidas para a versão anterior do programa.
Suspender pagamento de dívida? https://t.co/X7iiVCLcV9
— Dario Durigan (@DarioDurigan) October 21, 2026
Fonte: Brasil 247