Dois gigantes à mesa, um mundo em combustão: o que está em jogo no encontro entre Trump e Xi Jinping

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Por Matheus SpiessSeu Dinheiro

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Depois de uma semana dominada pelos bancos centrais, a geopolítica volta a tomar o centro do palco.

Na última quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, BC dos Estados Unidos) elevou os juros em 25 pontos-base, para a faixa entre 3,75% e 4,00%, retomando o aperto monetário diante de uma inflação ainda desconfortável e de uma economia americana que continua mostrando resiliência.

A mensagem foi importante porque o problema já não pode ser atribuído apenas à energia: dirigentes do Fed têm chamado atenção para pressões persistentes em serviços, enquanto o Treasury de dez anos voltou a superar 5% ao ano.

Para o investidor, isso significa um custo de capital maior justamente quando empresas e governos precisam financiar volumes crescentes de investimento e dívida.

Agora, porém, parte do próximo movimento dos mercados pode vir menos de uma planilha econômica e mais de salas de reunião em Nova York e Washington.

A Semana de Alto Nível da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas reúne chefes de Estado em um momento de rara sobreposição de conflitos: a guerra no Oriente Médio mantém o petróleo e os derivados sob pressão; a guerra entre Rússia e Ucrânia voltou a atingir refinarias e infraestrutura energética; e a rivalidade entre Estados Unidos e China atravessa comércio, tecnologia, minerais críticos, Taiwan e inteligência artificial (IA).

É nesse ambiente que Donald Trump receberá Xi Jinping na Casa Branca na quinta-feira (23).

O que realmente está em jogo no encontro entre Trump e Xi

A reunião não começa do zero. Estados Unidos e China chegam a Washington sob uma espécie de trégua comercial construída ao longo do último ano, que evitou uma escalada tarifária capaz de produzir um choque relevante sobre comércio, inflação e cadeias globais de suprimento.

Quando Trump e Xi se encontraram em maio, houve muita cerimônia e poucos avanços concretos. A reunião desta semana, portanto, não precisa produzir um grande acordo para ser importante.

Para os mercados, preservar o canal de negociação, estender a trégua tarifária e reduzir a probabilidade de novas barreiras já seria um resultado relevante.

As conversas preparatórias ajudam a entender a agenda. No domingo (20), o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e o vice-premiê chinês He Lifeng se reuniram em Nova York para discutir comércio, investimentos, cadeias de suprimento e inteligência artificial.

Os dois lados classificaram o diálogo de forma construtiva e avançaram na discussão de um mecanismo bilateral para notificar incidentes de IA com implicações de segurança nacional.

A ideia parece técnica, mas revela uma mudança importante: a inteligência artificial deixou de ser apenas uma corrida empresarial e passou a fazer parte da arquitetura de segurança entre as duas maiores potências do planeta.

Ao mesmo tempo, permanecem questões bem mais tradicionais. Washington e Pequim ainda divergem sobre a duração de uma eventual extensão da trégua comercial, sobre tarifas aplicadas a produtos específicos e sobre temas como agricultura, energia e minerais críticos.

Há discussões inclusive sobre redução de tarifas chinesas sobre o gás natural liquefeito americano. Para os Estados Unidos, ampliar vendas de energia e produtos agrícolas ajuda a reduzir o déficit comercial; para a China, diversificar fornecedores e preservar acesso a tecnologias e mercados continua sendo parte de uma estratégia mais ampla de segurança econômica.

A corrida por IA agora é geopolítica

A presença da inteligência artificial na agenda merece atenção especial. Estados Unidos e China são, hoje, os dois polos mais importantes da corrida por modelos avançados, chips, data centers e infraestrutura computacional.

Essa disputa envolve empresas como Nvidia, OpenAI, Apple e outras gigantes americanas, mas também companhias chinesas que continuam avançando apesar dos controles de exportação impostos por Washington.

É por isso que uma conversa sobre IA entre Trump e Xi não se resume a inovação: ela passa por segurança cibernética, uso militar, proteção de infraestrutura crítica, acesso a semicondutores e pelo risco de sistemas cada vez mais autônomos produzirem incidentes com consequências transfronteiriças.

Esse tema também se conecta ao mercado de capitais. A construção da infraestrutura necessária para a IA exige volumes extraordinários de investimento em chips, energia, redes elétricas e centros de dados. Ao mesmo tempo, governos ampliaram gastos com defesa, segurança energética e infraestrutura estratégica.

Em um mundo de juros longos mais altos, empresas e Estados passaram a competir com mais intensidade pelo mesmo capital. O resultado é uma taxa de desconto estruturalmente mais exigente: projetos precisam oferecer retornos maiores e empresas precisam provar, com mais frequência, que o crescimento de lucros justifica o investimento.

Trump e Xi se sentam à mesa, e um mundo em guerra chega à ONU

Enquanto Washington recebe Xi, Nova York recebe praticamente o resto do mundo.

O Debate Geral da Assembleia da ONU ocorre entre 22 e 28 de setembro sob o tema de restaurar a confiança e administrar a transformação.

A formulação é diplomática, mas descreve bem o problema: o sistema multilateral tenta funcionar em um ambiente no qual as principais potências estão mais desconfiadas umas das outras, as guerras se prolongam e a política comercial voltou a ser utilizada como instrumento de segurança nacional.

No Oriente Médio, o petróleo recuou nos últimos pregões com a melhora parcial dos fluxos pelo Estreito de Ormuz e a adaptação das rotas de exportação. Isso não significa que a crise tenha sido resolvida.

Ataques dos houthis mantêm a pressão sobre a infraestrutura saudita e sobre Bab el-Mandeb, enquanto o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, uma alternativa estratégica a Ormuz, foi atingido.

O mercado de derivados também continua apertado. Ataques a refinarias russas e problemas no Oriente Médio reduziram a oferta de diesel, elevaram margens de refino e aumentaram os custos de transporte e seguro.

Em alguns mercados, portanto, o risco não é simplesmente faltar petróleo bruto, mas faltar capacidade de transformar e levar esse petróleo até onde ele é necessário.

A guerra na Ucrânia amplia essa fragilidade. Ataques recentes interromperam operações em refinarias russas, contribuindo para restrições internas de combustíveis e menor disponibilidade de derivados no mercado internacional.

Ao mesmo tempo, a Ucrânia se prepara para mais um inverno sob pressão sobre seu sistema energético. Mesmo iniciativas de cessar-fogo voltadas à infraestrutura não eliminam rapidamente o problema: refinarias danificadas levam tempo para voltar a operar, e sanções dificultam acesso a equipamentos e peças especializadas.

Esse é um dos motivos pelos quais a diplomacia desta semana importa para os mercados. Se houver redução do risco de escalada no Oriente Médio, maior previsibilidade no relacionamento entre Estados Unidos e China ou algum avanço no conflito ucraniano, o efeito pode aparecer primeiro em energia, fretes e juros longos.

O contrário também é verdadeiro: um novo choque de oferta poderia devolver pressão ao petróleo, reacender preocupações inflacionárias e reforçar a necessidade de juros elevados por mais tempo.

E onde o Brasil entra nessa história

Como ocorre tradicionalmente, o Brasil abre o Debate Geral da Assembleia, seguido pelos Estados Unidos.

A expectativa é de que Luiz Inácio Lula da Silva concentre sua fala em soberania, multilateralismo, reforma das instituições internacionais, críticas a medidas comerciais unilaterais e cooperação no combate ao crime organizado, com ênfase no respeito ao direito internacional e à integridade territorial.

O discurso também ocorre em um momento de tensão comercial entre Brasília e Washington e, por isso, deverá ser acompanhado tanto pelo conteúdo diplomático quanto por sua repercussão doméstica.

Para o investidor, porém, o aspecto mais relevante é perceber que o Brasil não está isolado dessa reorganização. Um petróleo mais caro pode favorecer exportadores e empresas de energia, mas também pressiona inflação e combustíveis.

Uma trégua comercial entre Estados Unidos e China reduz o risco para o crescimento global e para commodities, enquanto uma nova escalada tarifária faria o oposto. E uma corrida tecnológica mais intensa pode sustentar investimentos em semicondutores, infraestrutura elétrica e data centers, mas também manter elevada a competição global por capital.

O melhor resultado para os encontros entre Tump e Xi e da ONU

É comum olhar para cúpulas entre líderes e esperar um grande acordo, uma fotografia histórica ou uma frase capaz de mudar o mercado. Talvez essa não seja a régua correta para esta semana.

Trump e Xi chegam à mesa com interesses profundamente diferentes e poucas razões para fazer concessões amplas.

O que os mercados precisam, neste momento, é de previsibilidade: uma extensão da trégua comercial, regras mínimas para administrar a competição tecnológica e canais de comunicação capazes de impedir que Taiwan, IA, tarifas ou o Oriente Médio produzam uma ruptura maior.

Em um mundo mais fragmentado, reduzir a probabilidade dos cenários extremos já tem valor econômico.

Menos risco de guerra comercial significa menos pressão sobre cadeias de suprimento e inflação; menor tensão energética reduz o prêmio do petróleo; e um ambiente geopolítico mais estável pode aliviar parte da pressão sobre os juros longos.

Nenhum desses movimentos resolve os desequilíbrios fiscais dos Estados Unidos, encerra as guerras ou transforma rivais estratégicos em parceiros. Mas pode criar algum espaço para que o mercado volte a olhar para crescimento, lucros e fundamentos, em vez de precificar permanentemente o próximo choque.

Por isso, a reunião desta quinta-feira merece atenção mesmo que termine sem uma manchete espetacular. Em 2026, diplomacia e mercado voltaram a falar a mesma língua: a linguagem do risco.

E, quando duas das maiores potências do mundo se sentam à mesma mesa em meio a guerras, petróleo caro, juros altos e uma corrida tecnológica sem precedentes, às vezes o avanço mais importante não é fechar um grande acordo. É conseguir manter a mesa de pé.

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Fonte: Seu Dinheiro

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