‘Disputa pela inteligência artificial já é a nova bomba atômica da geopolítica mundial’, adverte Chico Teixeira

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – A disputa pela hegemonia global atingiu um patamar de inflexão em que tecnologia de ponta, poderio bélico e controle territorial se entrelaçam de maneira inédita. Esta foi a tônica do debate do programa Brasil no Mundo, conduzido pela jornalista Cristina Serra, com a participação dos analistas Jamil Chade, direto de Genebra, e Ian Boechat, de São Paulo. O convidado central da edição foi o prestigiado historiador e cientista político Chico Teixeira, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que esmiuçou o impacto das novas fronteiras científicas e militares na correlação de forças internacional.

O ponto de partida do debate foi a súbita movimentação de donos de Big Techs norte-americanas pedindo cautela e desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) generativa e autônoma — retórica que encontrou forte resistência da China, cujos porta-vozes estatais denunciaram a manobra como um “novo manual da Guerra Fria” desenhado para frear o avanço de concorrentes fora da órbita de Washington.

IA como arma geopolítica e o mito da ‘pausa neutra’

Ao dissecar as contradições do discurso do Vale do Silício, Chico Teixeira destacou que a inteligência artificial já superou o âmbito das ferramentas operacionais ou utilitárias e ingressou definitivamente no núcleo do poder estatal e militar. Para o historiador, o apelo por “pausas” por parte de empresas ocidentais reflete o nervosismo diante da velocidade da planificação tecnológica chinesa.

“O investimento para se manter na ponta tecnológica é astronômico. Enquanto a economia chinesa conta com um caráter estatal e dirigista capaz de sustentar projetos estruturais por décadas, as Big Techs ocidentais estão subordinadas à volatilidade da bolsa de valores e à necessidade de lucros trimestrais imediatos”, explicou Teixeira. “Quando determinados setores propõem freios agora, o diagnóstico subjacente é o de uma corrida assimétrica. Tenta-se congelar a partida no momento em que o outro campo demonstra capacidade de emparelhamento acelerado.”

O jornalista Jamil Chade ressaltou que diplomatas internacionais já tratam o domínio da inteligência artificial com o mesmo peso conferido à posse da bomba atômica a partir de 1945. “Quem controla a tecnologia tem a capacidade de ameaçar, impor ou dissuadir. Não por acaso, já vemos a formação nítida de blocos: os Estados Unidos articulam seu arranjo tecnológico (‘Pax Silícia’) com nações como a Índia, enquanto a China aproxima países do Sul Global, inclusive com ofertas de cooperação técnica ao Brasil”, destacou Chade.

Teixeira traçou ainda um paralelo histórico com a regulação nuclear do século XX: “Quando se criou a Agência Internacional de Energia Atômica na década de 1950, houve uma clara tentativa de congelar o status quo: quem tem, tem; quem não tem, não pode ter. O Brasil historicamente resistiu a inspeções intrusivas por compreender que sob a capa da ‘segurança internacional’ operavam a geopolítica de contenção e a espionagem industrial. O debate sobre IA repete esse arquétipo.”

Militarização espacial e a doutrina do ‘Domo de Ouro’

Outro eixo alarmante debatido na bancada foi a declaração da Força Aérea dos Estados Unidos sobre a presença de sistemas de armas orbitando a Terra, acendendo o sinal de alerta global sobre a quebra definitiva do Tratado do Espaço Exterior de 1967.

Ian Boechat pontuou que o movimento norte-americano busca responder ao salto de mísseis hipersônicos desenvolvidos por Rússia e China, capazes de manobras imprevisíveis em altitudes orbitais.

Chico Teixeira conectou o anúncio espacial à guinada isolacionista e agressiva defendida pelo trumpismo: o projeto de erguer um chamado “Domo de Ouro” sobre o território norte-americano, emulando em escala continental as baterias antimísseis.

“Nada disso é retórica descolada da realidade. Quando Donald Trump fala em anexar o Canadá ou adquirir a Groenlândia, há uma lógica militar crua: os mísseis russos não dariam a volta pelo Equador, eles viriam pela rota polar, que é muito mais curta. Proteger o norte com a Groenlândia e subordinar o território canadense significa avançar as trincheiras de interceptação para muito longe das grandes cidades americanas”, pontuou o cientista político. “É o desmonte completo da ordem multilateral em favor de um unilateralismo fortificado.”

Mar Vermelho e Ucrânia: a reorganização das linhas de fratura

Ao analisar os conflitos em curso, os participantes examinaram o estrangulamento das rotas marítimas no estreito de Bab el-Mandeb pelas forças Houthi do Iêmen. Ian Boechat explicou que a ocupação de ilhas e o bloqueio naval ao petróleo saudita no Mar Vermelho ameaçam o Canal de Suez e pressionam as cotações internacionais de energia. Para Chico Teixeira, a incapacidade saudita de repelir a insurgência demonstra os limites da dependência militar de terceiros e complica a mediação diplomática de atores como o Paquistão e o Irã.

No front leste-europeu, Boechat e Teixeira debateram o ataque recente de drones russos a um terminal ferroviário ucraniano a meros dois quilômetros da fronteira polonesa — rota estratégica por onde transitam autoridades e arsenais fornecidos pela Otan. “Trata-se de uma demonstração de força calculada de Moscou, mostrando que nenhuma artéria de suprimento ocidental está fora de alcance”, frisou Teixeira, sublinhando que as tensões internas na Rússia levam Vladimir Putin a endurecer o discurso diante de qualquer perspectiva de envolvimento direto da Polônia ou dos países bálticos.

Brics, ONU e as ameaças à soberania brasileira

Encerrando as reflexões, o painel tratou da recente cúpula dos Brics na Índia e da abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, fórum tradicionalmente inaugurado pelo discurso do chefe de Estado brasileiro.

Jamil Chade e Chico Teixeira definiram a atual resistência diplomática do Sul Global e o texto final dos Brics como uma verdadeira “guerra de trincheira”. Sem a ilusão de avanços imediatos, o objetivo central das nações em desenvolvimento passou a ser impedir que o multilateralismo e o direito internacional sejam completamente soterrados pelo arbítrio unilateral das superpotências.

Nesse cenário, Teixeira alertou para as crescentes pressões que cercam a política externa independente do Brasil:

“Nós iremos à Assembleia Geral da ONU sob um clima de novas ameaças e pressões externas diretas contra a nossa soberania. A imprensa corporativa de Washington já ventila abertamente teses de retaliações ou intervenções sob pretextos genéricos como o combate ao crime internacional. Mais do que nunca, a defesa intransigente da autodeterminação nacional e da soberania do Sul Global terá de ser afirmada em alto e bom som no púlpito das Nações Unidas”, concluiu Chico Teixeira.

Assista à íntegra da edição do programa Brasil no Mundo com o professor Chico Teixeira na TV 247:

Fonte: Brasil 247

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