Diretor de inteligência da PF não tem relação com depoimento de porteiro no caso Marielle
Por Luiz Fernando Menezes — Aos Fatos | Em busca da verdade na política – feed
Leandro Almada, diretor de inteligência da PF (Polícia Federal) afastado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, não foi o responsável pela falsa acusação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teria recebido um dos assassinos da vereadora Marielle Franco (PSOL) no dia do crime. O testemunho foi dado por um porteiro do condomínio do ex-mandatário à Polícia Civil do Rio em 2019. Na época, Almada estava lotado na PF do Amazonas.
A alegação enganosa foi propagada pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) em vídeo publicado nas redes sociais. O conteúdo reunia ao menos 20 mil curtidas no Instagram e 50 mil visualizações no X até a tarde desta quarta-feira (9).
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Leandro Almada. Foi no período em que Leandro Almada atuava na Polícia Federal que surgiu uma das mentiras mais graves lançadas contra Jair Bolsonaro. A tentativa de associar o seu nome ao assassinato de Marielle Franco por causa de um depoimento de um porteiro.

O deputado Mario Frias (PL-SP) engana ao dizer em vídeo que o diretor de inteligência da PF, Leandro Almada, afastado por decisão de André Mendonça, posteriormente suspensa, teria sido o responsável por uma acusação falsa que chegou a envolver o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no caso Marielle Franco.
Na ocasião, um porteiro do condomínio de Bolsonaro no Rio de Janeiro disse que um dos assassinos da vereadora teria se encontrado com o ex-mandatário no dia do crime. Um mês depois, ele voltou atrás.
O depoimento do porteiro foi feito em outubro de 2019, em meio às investigações do caso na Polícia Civil do Rio — não na Polícia Federal. Na época, ele disse que o ex-presidente teria autorizado a entrada de Élcio Queiroz, um dos assassinos de Marielle, no condomínio. Essa investigação era chefiada pelo delegado Daniel Rosa que, inclusive, foi atacado por Bolsonaro.
Um mês depois, no entanto, o porteiro afirmou, desta vez em depoimento à PF, que errou ao citar o nome do ex-presidente.
Nessa época, Almada atuava como delegado regional no Amazonas, conforme consta no currículo disponível no site da PF.
Antes disso, ele foi responsável por um inquérito relacionado ao caso Marielle, mas que investigava a atuação da Polícia Civil. Os resultados da investigação foram entregues em maio de 2019 — cerca de cinco meses antes do depoimento do porteiro — e concluíram que um policial e sua advogada estavam tentando atrapalhar as investigações do assassinato.
O policial voltou à investigação sobre o assassinato da vereadora do PSOL quando foi nomeado superintendente da PF no Rio de Janeiro em 2023, já no governo Lula.
Marielle e Anderson foram assassinados em março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. Um ano depois, os ex-policiais Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, apontados como os executores do crime.
Só em março de 2024, seis anos depois do assassinato, foram presos os mandantes do crime — o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, seu irmão, Domingos Brazão — e o delegado Rivaldo Barbosa, acusado de ter atuado para tentar blindá-los.
Nota
Mentiras nas redes usam família Brazão para culpar esquerda por assassinato de Marielle
Contexto. O vídeo de Frias ganhou tração nas redes em meio à crise institucional no STF e na PF. Na semana passada, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de mensagens que mostram que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, foi convidado para eventos organizados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master.
Mais tarde, vazamentos de um depoimento de Vorcaro ao gabinete de Mendonça sugeriram que o empresário teria culpado Andrei Rodrigues por não ter conseguido fechar um acordo de delação premiada. Segundo os relatos, o empresário afirmou que mantinha uma relação próxima com o diretor e que os dois chegaram, inclusive, a viajar juntos.
Na terça-feira (8), Mendonça, com base em um pedido do partido Novo, determinou o afastamento preventivo de Rodrigues e de Almada, bem como a abertura de procedimentos investigativos contra os dois. O ministro acusa a diretoria de ter produzido relatórios ilícitos a pedido de Alexandre de Moraes e de ter vazado informações sigilosas.
O afastamento havia sido referendado pela Segunda Turma do STF no mesmo dia, com três votos favoráveis — Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux —, mas Gilmar Mendes pediu vistas.
Nesta quarta-feira (9), no entanto, o ministro Flávio Dino atendeu uma liminar de Rodrigues e reintegrou os dois à PF. Dino entendeu que a decisão viola os trâmites processuais e que Mendonça não teria competência para determinar o afastamento do diretor-geral da PF — que deveria ter sido julgado pelo Presidente do STF ou pelo Plenário.
Na tarde desta quarta, o presidente do Supremo, Edson Fachin, suspendeu as decisões de Mendonça e de Dino. O ministro deu prazo de 48 horas para que Andrei Rodrigues preste esclarecimentos ao STF.
Outro lado
Aos Fatos tentou entrar em contato com o deputado por meio do WhatsApp e dos telefones disponíveis em suas páginas oficiais, mas não teve sucesso.
A reportagem entrou, então, em contato com os diretórios nacional e paulista do PL, que orientaram que o pedido fosse feito pelo email do gabinete do parlamentar. Aos Fatos enviou, então, uma mensagem com o resumo da checagem na tarde desta quarta-feira (9).
A checagem será atualizada caso haja resposta do parlamentar.
O caminho da apuração
Aos Fatos procurou informações sobre o contexto do depoimento citado, como a data, o conteúdo e o delegado responsável pelo testemunho. Depois, a reportagem recuperou o currículo de Leandro Almada e quais suas contribuições para a investigação do assassinato de Marielle Franco e Anderson.
Aos Fatos também procurou informações sobre a decisão de André Mendonça sobre o afastamento da diretoria da PF, bem como seus desdobramentos mais recentes.
Por fim, a reportagem procurou o deputado federal Mario Frias, que não respondeu.