Por Miguel PaivaBrasil 247

Nunca pensei em ser de direita, mesmo quando era criança e essa divisão nem existia assim tão forte em mim. Quando o golpe aconteceu eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, literalmente. Lembro de ainda fazer algumas piadas sobre o bloqueio a Cuba no quadro negro da sala de aula, mas muito mais pelo humor do que pela posição política. Em seguida fui pegando o desvio para a esquerda e logo-logo assumi. O Colégio de Aplicação onde estudei foi o berço de toda a esquerda atuante e brilhante do cenário político brasileiro. Forneceu pensadores, combatentes, intelectuais, guerrilheiros, resistentes e consistentes, fundamentais para a minha formação.

Ser de direita era uma coisa tão absurda, ligada ao que havia de pior na política, que nem quem não era esquerdista se dizia de direita. O inimigo da democracia era muito evidente. A ditadura militar foi tirada de cenário por exigência da sociedade que não aguentava mais aquela opressão. Mas ser de direita continuava sendo impensável. Trabalhei muito tempo na Editora Nova Fronteira com a Carlos Lacerda, clássico representante da direita, mas conversávamos e ele me enquadrava muito mais como jovem metido do que como esquerdista. Conseguiu vistos de saída para mim (na época existia essa aberração) e me visitou algumas vezes em Milão. Tínhamos pensamentos opostos, mas nos entendíamos. O termo esquerda ou direita nunca surgiu ou se surgiu foi rapidamente, sem determinar nossa conversa. Lacerda foi perseguido pela ditadura apesar de tê-la apoiado no princípio. Morreu depois de ter tentado articular com JK e Jango a famosa Frente Ampla que não deu em nada. Os três morreram em situações suspeitas e a morte de JK já foi classificada como assassinato. Leia o livro de Alex Solnik chamado Código 12 e você ficará sabendo de todos os detalhes.

Esquerda e direita eram conceitos mais abstratos do que são hoje. O tempo passou, a democracia voltou e conseguimos eleger, depois de algumas tentativas, o governo Lula. Festejamos muito, Fernando Henrique passou a faixa e o Brasil seguiu seu destino em paz. Pensamentos divergentes havia, intenções espúrias também, mas um mínimo de convivência democrática também havia. E assim fomos até que Aécio Neves, candidato derrotado por uma mulher, ex- guerrilheira, e petista concretizou isso. O que Aécio fez? Contestou o resultado, prerrogativa da democracia, mas que foi totalmente mal usada.

Começava aí a tentativa constante de golpe que perdura até hoje. Dilma foi impichada, Temer, o vampiro, assumiu, Lula foi preso e Bolsonaro venceu, usando a democracia e tentou continuar no poder a qualquer custo longe da democracia. A partir dai vivemos essa instabilidade política com a ameaça constante de golpe que tira o nosso sono democrático. Abençoada pelas benesses do regime democrático, a direita foi se instalando, perdendo a vergonha de assim se denominar e com o apoio da conservadora igreja evangélica tentando estabelecer um regime teocrático que determinaria o nosso futuro reacionário pelo resto desses tempos.

A luta virou insana e temos que nos defender, gastando energia à toa de uma onda ilegal, golpista e antidemocrática para nos mantermos vivos. A palavra esquerdista passou a significar aos bons olhos ser democrata. Ser de direita virou um assumir despudorado de uma posição que concorda com o golpe, a ilegalidade e a roubalheira sem qualquer finalidade. Ser de direita significa hoje se identificar com qualquer iniciativa que despreze a população, destruir o que vem sendo feito e trabalhar para a mentalidade teocrática e conservadora.

Uma vez meu saudoso amigo João Fernando me disse, no auge do mensalão, que era contra o que se estava acontecendo. E que se ser contra isso era ser de direita, ele passaria a ser. Eu respondi, João, não diga isso. Ser de direita não tem volta. É um horror, já dizia a história. Continue de esquerda e conteste o que não concordar. A esquerda aceita. Só não diga nunca mais que é de direita. É um pesadelo que te coloca do lado errado da história.

Fonte: Brasil 247

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