Desesperado: Trump promete 5.000 dólares a cada americano se os republicanos vencerem
Por Juan Andrés Gallardo — Esquerda Diário

Em um espetáculo feito sob medida para Trump, na tentativa de contornar a grave crise de popularidade que assola seu governo, o presidente prometeu um “dividendo” de 5.000 dólares caso os republicanos vençam as eleições de meio de mandato em novembro. Uma cartada desesperada nos acréscimos.
A pouco mais de 50 dias das eleições de meio de mandato (midterms em inglês) de novembro, um Donald Trump acuado liderou uma reunião inédita de dois dias do Partido Republicano no American Airlines Center, em Dallas, Texas. No que foi um evento sob medida para o mandatário tentar enfrentar a grave crise de popularidade que assola seu governo. O ponto alto do encontro foi seu longo discurso, que ele repetirá nesta quinta-feira ao lado do vice-presidente JD Vance.
Em um gesto que analistas e até mesmo vários republicanos classificaram como uma manobra desesperada, Trump prometeu pagar um “dividendo” direto de 5.000 dólares a cada cidadão adulto estadunidense caso os republicanos consigam manter o controle da Câmara dos Representantes e do Senado.
Em sua mensagem, o presidente buscou personalizar totalmente a disputa legislativa, exigindo apoio de sua base: “Peço que finjam que estou na cédula de votação. Estou na cédula, apenas mais uma vez”. Logo em seguida, lançou sua proposta financeira delirante: “Se os republicanos vencerem, vocês vencem conosco e recebem 5.000 dólares. Vai se chamar ‘Dividendo Trump’”. Em outro trecho do discurso, acrescentou: “Pagarei um dividendo de 5.000 dólares a cada cidadão adulto dos Estados Unidos da América, de forma muito semelhante a como uma empresa bem-sucedida distribui dinheiro aos seus acionistas”.
Esse anúncio implicaria um desembolso estatal estimado entre 1,2 e 1,35 trilhão de dólares para atender aos cerca de 240 a 270 milhões de adultos do país. Apesar do volume astronômico do valor, Trump não esclareceu em nenhum momento de onde viria o dinheiro para financiar tal despesa, em meio a um déficit fiscal que já beira 1,8 trilhão anuais e a uma dívida nacional que, sob a gestão de Trump, atingiu o recorde de 40 trilhões de dólares.
Posteriormente, o vice-presidente JD Vance tentou justificar a promessa afirmando que o dinheiro viria da arrecadação de tarifas internacionais, embora economistas e analistas apontem que as receitas tarifárias estão a anos-luz de cobrir uma conta dessa magnitude — ainda mais quando Trump teve de recuar na maioria de suas ameaças tarifárias e o restante não chega a cobrir seus déficits recorrentes.
Esta reunião partidária no Texas não foi uma convenção nacional propriamente dita — eventos realizados apenas em anos de eleições presidenciais para oficializar as candidaturas à Casa Branca e a plataforma do partido. Tratou-se, na verdade, de uma encenação orquestrada para inflamar o clima de campanha e sustentar a figura enfraquecida do presidente. As pesquisas mostram um cenário extremamente adverso para o Partido Republicano, projetando um claro avanço democrata na Câmara dos Representantes e uma disputa acirrada no Senado, impulsionados por um índice de aprovação presidencial que despencou para a faixa entre 35% e 38%.
As causas por trás do declínio trumpista — e republicano — são múltiplas. Em primeiro lugar, a intervenção militar deflagrada em conjunto com Israel contra o Irã não alcançou seus objetivos e revelou a fraqueza estratégica de Washington no Oriente Médio. A guerra provocou uma grave perturbação no abastecimento de energia, fazendo o preço do petróleo disparar para além dos 100 dólares o barril, o que resultou em uma alta generalizada da gasolina nas bombas dos EUA (atingindo médias de 4,10 dólares por galão) e rapidamente se refletiu no custo de vida, gerando um profundo mal-estar na população.
Em segundo lugar, as operações militares e as isenções fiscais levaram a dívida pública dos EUA a superar a marca histórica de 40 trilhões de dólares, um número recorde que compromete a gestão de um governo que prometeu melhorar a economia.
Trump tão pouco, navega em águas tranquilas dentro do seu próprio partido. A guerra no Irã e a aliança incondicional com Israel implodiram a coalizão de apoio a Trump, aprofundando a divisão entre a facção isolacionista do “America First” e o setor militarista da agenda MAGA.
Finalmente, Trump também tem enfrentado uma recente resistência social tanto contra suas políticas mais brutais e autoritárias quanto contra a caça desenfreada aos imigrantes em todo o país. Sua política bonapartista de deportações em massa através dos métodos repressivos do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) provocou uma onda de indignação popular. Essas medidas foram respondidas com mobilizações massivas como as marchas “No Kings” — que convocaram milhões de manifestantes em todo o país — e por processos de greve e organização operária e comunitária em cidades como Minneapolis. Isso, no entanto, não impediu que Trump insistisse em manter esses ataques, extremando a violência em estados onde atua em sintonia com os poderes locais.
Diante desse cenário sombrio, recorrer à promessa de cheques eleitorais não passa de um ato de desespero. Não é a primeira vez que o magnata recorre a esses anúncios: no início de seu segundo mandato, prometeu um “dividendo DOGE” de 5.000 dólares derivado dos cortes impulsionados por Elon Musk; depois, insinuou a entrega de cheques de 2.000 dólares financiados pelas tarifas; e posteriormente chamou de “dividendo guerreiro” um pagamento de 1.776 dólares aos militares, que não passava de uma verba de habitação já aprovada previamente pelo Congresso. Nenhuma das promessas de dinheiro em espécie à população civil jamais se concretizou. Trump se tornou um especialista em prometer coisas que não cumpre ou das quais recua rapidamente.
A própria convenção deixou à mostra as crescentes divisões dentro do Partido Republicano. Vários legisladores e candidatos em distritos competitivos optaram por se ausentar do evento em Dallas para não ficarem ligados à imagem desvalorizada de Trump a poucas semanas de abrir as urnas.
O desespero mostrado no Texas reflete a realidade que a Casa Branca enfrenta: se as previsões se confirmarem e eles perderem o controle de uma ou de ambas as câmaras do Congresso em novembro, Trump vai se tornar um verdadeiro ‘pato manco’ pelo resto do seu mandato. É um cenário de pesadelo para um líder com pretensões autoritárias que tenta se mostrar todo-poderoso para o mundo, mas que é constantemente forçado a recalcular e recuar diante da resistência de outras potências mundiais, da oposição social interna e das contradições de sua própria gestão.
Fonte: Esquerda Diário