Democratas denunciam ações de Rubio para ajudar Flávio e ‘sabotar’ eleição
Por Jamil Chade — ICL Notícias
Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
Uma carta enviada por doze congressistas americanos ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrou explicações sobre o envolvimento do governo de Donald Trump com o clã Bolsonaro e criticaram o que chamaram de “escalada” na ingerência dos EUA nas eleições no Brasil.
O documento foi enviado depois da definição dos candidatos que farão parte do segundo turno das eleições no país e marca o terceiro posicionamento público por parte da oposição americana diante das suspeitas de ação de Trump no país, em apenas poucas semanas.
A composição do grupo dá peso institucional à cobrança. Seis dos 12 signatários integram o Comitê de Relações Exteriores da Câmara, responsável por temas de política externa e supervisão do Departamento de Estado. Entre eles está Gregory Meeks, principal democrata do colegiado (Ranking Member). A carta também reúne Sydney Kamlager-Dove, copresidente do Congressional Brazil Caucus, e James McGovern, copresidente da Comissão Tom Lantos de Direitos Humanos.
No texto, os congressistas classificam o episódio da retirada de visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Viotti, como uma “disputa diplomática fabricada” pelo Departamento de Estado e descrevem a revogação da autorização como uma medida “extraordinária e sem precedentes”. Para os signatários, o episódio aprofunda a deterioração das relações com a maior democracia e economia da América do Sul e tem implicações que ultrapassam a controvérsia diplomática imediata.
Na carta, os deputados pedem que Rubio dê respostas até o dia 20 de outubro e cobram explicações sobre ações que podem ajudar Flávio Bolsonaro na eleição. Para eles, há uma tentativa de “sabotar” o processo eleitoral no Brasil.
Escrevemos em relação à disputa diplomática fabricada pelo Departamento de Estado com o Brasil, que resultou na revogação do visto diplomático da Embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Essa escalada desnecessária é a mais recente de uma série de ações que levaram a uma ruptura em nossa relação com a maior democracia e economia da América do Sul. Em um momento em que o Governo Trump afirma estar priorizando o Hemisfério Ocidental, essa decisão equivocada
prejudica ainda mais a reputação dos Estados Unidos na região e aproxima o Brasil das mãos de nossos adversários.
A revogação extraordinária e sem precedentes do visto diplomático da Embaixadora Ribeiro Viotti
representa mais um exemplo do tratamento punitivo do Governo Trump a um parceiro democrático na região. O Governo Trump criou uma cisão em nossa relação bilateral
com o Brasil ao impor tarifas de 50% sobre o Brasil e sancionar um de seus ministros do Supremo Tribunal Federal, tudo em um esforço fracassado para proteger o ex-presidente Bolsonaro, condenado por planejar um golpe violento e um plano de assassinato contra seus oponentes políticos.
Após seu encontro com o presidente Lula, o presidente Trump elogiou o presidente Lula, declarando: “Tive uma ótima reunião com o presidente do Brasil”, descrevendo Lula posteriormente como “um bom homem” e “um cara inteligente”. No entanto, estamos preocupados que as ações subsequentes do Departamento de Estado tenham buscado sabotar a relação com o Brasil, para fabricar essa crise diplomática a meses das eleições no Brasil.
A revogação do visto do embaixador Ribeiro Viotti é apenas a mais recente escalada no esforço contínuo do governo Trump para influenciar os resultados das eleições brasileiras de 2026. Desde
funcionários do seu Departamento viajando para se encontrar com o ex-presidente Bolsonaro, que foi condenado por sua tentativa violenta de golpe para subverter a vontade do povo brasileiro em 2022, até sancionar o Ministro do Supremo Tribunal Federal, De Moraes, numa tentativa de proteger o ex-presidente Bolsonaro de processo, até questionar a credibilidade de eleições livres e justas no Brasil, o governo Trump tem buscado repetidamente influenciar os assuntos políticos internos do Brasil de maneiras que ameaçam as instituições democráticas e os processos eleitorais do país. Além disso, seu Departamento de Estado nomeou Darren Beattie como “Enviado para o Brasil”, em fevereiro deste ano, um indivíduo com um histórico bem documentado de retórica racista e inflamatória, incluindo discursar em uma conferência com a presença de proeminentes nacionalistas brancos.
Relatórios públicos indicam que autoridades americanas buscaram viajar ao Brasil para levantar preocupações infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro e que o governo brasileiro negou esses vistos porque acreditava que tais visitas resultariam em outra tentativa de influenciar as eleições brasileiras de 2026.
Embora desentendimentos diplomáticos entre aliados não sejam incomuns, a decisão de revogar o visto de um embaixador em exercício representa uma escalada substancial que deveria ser reservada para os casos mais graves. O Brasil é um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos, um importante parceiro regional de segurança e uma das maiores democracias do mundo. Ações que tensionam desnecessariamente essa relação bilateral têm implicações que vão muito além da disputa diplomática imediata.
O Congresso, portanto, tem a obrigação de entender por que o Departamento de Estado se afastou das práticas estabelecidas e tomou a medida extraordinária de revogar o visto do embaixador brasileiro. Além disso, solicitamos mais informações sobre as provocações do Departamento de Estado para prejudicar a relação bilateral após o produtivo encontro entre Trump e Lula em maio de 2026.
Solicitamos respeitosamente respostas às seguintes perguntas:
1. Quais fatos ou circunstâncias específicos fundamentaram a determinação extraordinária do Departamento de Estado de que a revogação do visto do Embaixador era justificada?
2. A revogação do visto do Embaixador foi supostamente uma ação retaliatória após o Brasil ter negado os vistos de Riley M. Barnes, Secretário de Estado Adjunto para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL), e Samuel Samson, Subsecretário Adjunto para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL). Qual era o propósito da viagem deles ao Brasil e quais reuniões estavam planejadas no país?
3. Qual foi o nível de coordenação entre o Departamento de Estado e a Casa Branca? O Presidente foi informado da decisão de revogar o visto do Embaixador Ribeiro Viotti?
4. O Secretário, o Subsecretário ou qualquer outro alto funcionário do Departamento de Estado autorizou contatos com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou seus representantes a respeito da revogação do visto do Embaixador Ribeiro Viotti?
5. Por que funcionários do Departamento de Estado buscaram examinar o sistema eleitoral brasileiro no meio-termo?
Eu comecei como terceirizado. Meu jaleco era cinza. O azul pertencia aos funcionários da firma, aos que haviam atravessado uma fronteira invisível dentro da própria fábrica
Fonte: ICL Notícias