De fã de ‘Star Trek’ a indicado ao EMMY: Como o otimismo geek me ajudou a criar Lupi e Baduki
Por ABRANIMA — Catraca Livre
Por Reynaldo Marchesini, da produtora FLAMMA
Todo criador de séries e personagens de animação é fã de sua Obra. Aliás, ele é o primeiro fã dela.
“Ah, mas fã é quem admira, tem um entusiasmo e paixão por algum universo ficcional, personagens e ‘consome’ tudo relacionado a esta paixão, não é quem cria essa Obra”. Eu discordo.
Eu nasci em 1966. Sim, no mesmo ano que estreou Star Trek (Jornada Nas Estrelas) na TV. Sou um Trekkie assumido (ou “Trekker”, dependendo do termo que você preferir). Assisto TUDO que é produzido neste universo utópico criado pelo incrível Gene Roddenberry. Por todas essas décadas acompanho, leio, vou a convenções e tive o privilégio de conhecer e conversar com alguns atores que representaram os meus personagens do coração, como Leonard Nimoy, William Shatner e George Takei. Esse sentimento GEEK pela Obra de Roddenberry me impele a acompanhá-la e refletir sobre ela em diversos níveis e aspectos. Saber o máximo sobre os personagens, sobre as raças, sobre a filosofia do criador ao desenvolver e propor a Obra…e o otimismo utópico de Star Trek é o aspecto que mais ficou dentro de mim ao me tornar, eu mesmo, um criador de histórias.
Criação de Lupi e Baduki
Em 2014, inspirado nos meus filhos (e intrigado em como conseguiam brincar juntos e se amar tanto sendo tão diferentes) mas também pelo mesmo otimismo que sempre admirei em Star Trek, criei o universo de “Lupi e Baduki” – um projeto para falar sobre as diferenças e como o mundo pode ser um lugar melhor se os “diferentes” aprenderem a conviver em harmonia, com mais empatia, admirando a beleza da diversidade. Se nossos projetos são nossos “filhos”, este era inspirado pelos meus filhos de verdade.
A paixão de fã pela minha Obra e a perseverança de quem trabalha com animação infantil me fez insistir. Inscrevi e fui selecionado em um edital de desenvolvimento em 2015 – que me possibilitou contratar a consultora pedagógica da série, a professora Teresa Rego que me apresentou e aprofundou o conceito da Alteridade que o projeto desejava abordar. Convidei naquele momento o estúdio Birdo de animação para se unir a minha produtora. Eu também desejava que cada episódio tivesse uma canção original, e os talentosos compositores Ruben Feffer e Gustavo Kurlat se juntaram ao projeto. De 2017 a 2021, viajei com o projeto embaixo do braço para levantar financiamento junto à executivos de canais de TV e plataformas de streamings pelo mundo… num trabalho que chamamos de Pitching. Em 2021, a Warner Bros (antes da fusão com a Discovery) fiz o pitch ao executivo que disse “Sim” para a série. Iniciamos a produção em Outubro de 2022, com 175 pessoas. A primeira temporada de 13 episódios estreou em Junho de 2024, na HBO MAX e no Discovery Kids.
Fim do trabalho de criador e produtor? Nada disso. Se foram precisos 10 anos entre a criação até a estreia da primeira temporada, alguns podem imaginar que as coisas entrariam num modo automático para as próximas temporadas… Não pela minha experiência. O produtor precisa continuar provando a relevância, a qualidade e o potencial do seu universo e dos seus personagens. Por isso passamos a inscrever a série em festivais e premiações, com esse objetivo de construir ainda mais a reputação e validação junto a jurados e público. Fomos selecionados ou premiados em diversos deles, como no Chilemonos (Chile), Ajayu (Peru), Lanterna Mágica (Brasil), Mosca (Brasil), Quirino (Espanha), Animaí (Brasil), Festival de Cinema Infantil de Florianópolis (Brasil), MA Beach (Brasil), Múmia (Brasil), entre outros. E, para grande alegria de todos da equipe, fomos indicados como um dos 4 finalistas (nominees) do International EMMY Awards na categoria Kids:Animation de 2025! Para se ter uma ideia do feito, aproximadamente 800 séries de animação de TV do Mundo todo concorrem ao EMMY Internacional nesta categoria, passando por várias etapas de seleção de jurados em vários países ao longo do ano que escolhem no final os 4 finalistas.
Não ganhamos o prêmio. A excelente série BLUEY foi a ganhadora. Mas, sinceramente, considero uma “vitória” ficar entre os 4 finalistas.
E o que um “apaixonado, entusiasmado” pela Obra faz em seguida? O que um fã faz pela sua Obra favorita? Continua a insistir e desejar que ela se expanda. O Criador-fã deseja entregar aos fãs novas histórias deste Universo. Por isso, agora em Outubro estou lançando o primeiro livro de Lupi e Baduki, “O Colar Perdido da Coragem”. Ironicamente (ou não) é uma história que fala também sobre isso: a coragem de insistir em sermos quem realmente somos! Uma fábula vibrante sobre diversidade, empatia e pertencimento, oferecendo a crianças, pais e educadores uma reflexão profunda sobre como a identidade, a cooperação e o respeito às diferenças e a família são caminhos fundamentais para encontrarmos a verdadeira coragem de enfrentar os desafios do crescimento. Ou seja, a firmeza e paixão pelo propósito é o que faz o criador e produtor de Obras (sejam séries, livros, filmes) seguir em frente…
Transmídia: quando o criador precisa construir o próprio Fandom
A série de TV e o livro são apenas as primeiras manifestações visando expandir a expressão artística e temática desta criação. Nos episódios animados de 11 minutos, por exemplo, conseguimos um certo tipo de entretenimento e estrutura narrativa para contar as histórias, uma certa linguagem para abordar os temas, se conectando emocionalmente com o público através do visual, dos movimentos e das canções e trilhas originais. Todos à serviço dessa linda forma de expressão que é a Animação. No livro é possível oferecer outro tipo de conexão: entrar na mente dos personagens, contar uma história que não “caberia” em 11 minutos, e deixar o leitor ditar o ritmo da história, entre outras belas características da leitura. E vou compartilhar dois spoilers para vocês: Estamos desenvolvendo um game co-op onde um jogador controla a Lupi e outro o Baduki, para que, juntos, resolvam os puzzles e avancem pelas fases e estou escrevendo uma peça de teatro Musical…
Além de serem iniciativas super interessantes e divertidas, são também parte de uma estratégia profissional e comercial do criador e dos coprodutores. Afinal, são anos de investimento pessoal, emocional e financeiro de diversos artistas e parceiros. Com este crescimento transmidiático de séries, livros, games, teatro, licenciamento de produtos, aumenta-se, e muito, a chance de retorno comercial (e emocional!) da Obra. Por outro lado, exige-se dos produtores não mais conhecer sobre uma linguagem (animação no meu caso) e como levantar recursos para produzi-la. É preciso agora prospectar editoras, desenvolvedoras de games, companhias de teatro, e coordenar ao mesmo tempo o desenvolvimento, captação de dinheiro, para todas essas frentes…
Curiosamente esta estratégia de transmídia vem crescendo em relevância em um outro nível: “provar” para os players do audiovisual (canais de TV, plataforma de streaming, etc) que existe um fandom ávido por mais temporadas. Ou seja, não basta criar uma Obra relevante, artisticamente reconhecida em premiações, bem produzida por profissionais super competentes. É preciso agora criar também o Fandom dessa Obra (curiosamente algo que, no passado, se esperava vir justamente do trabalho de exibição e divulgação destes mesmos players)…
No final das contas, tanto o “fã-criador” quanto o “fã-público” buscam a mesma coisa: explorar todas as possibilidades de conexão emocional com sua “paixão”. Todo Geek sabe e sente isso.
Vida longa e próspera aos fãs – criadores e público – brasileiros!
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Fonte: Catraca Livre