Dark Horse: produtora e diretor divergem sobre gastos milionários de filme sobre Bolsonaro
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – A composição dos gastos milionários atribuídos a “Dark Horse”, filme sobre o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), tornou-se alvo de versões contraditórias entre dois dos principais responsáveis pelo projeto. Segundo o G1, o diretor Cyrus Nowrasteh afirma que os valores divulgados sobre o longa já incluem despesas de marketing, enquanto Karina Gama, dona da produtora Go Up Entertain, sustenta que cerca de US$ 13 milhões foram gastos antes mesmo de serem contabilizados os custos de distribuição e divulgação.
A divergência ganha relevância porque a Polícia Federal (PF) apura a destinação de US$ 12,3 milhões repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.
Segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mencionados na investigação, os repasses ocorreram em sete parcelas entre janeiro e setembro de 2025. A PF procura esclarecer se os recursos foram efetivamente aplicados na produção cinematográfica ou se parte do dinheiro teve outras destinações.
Os investigadores também apuram a existência de outras formas de pagamento. Entre as hipóteses examinadas está a possibilidade de recursos terem sido utilizados para financiar a permanência do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Diretor diz que números estão “ridiculamente inflados”
A controvérsia sobre o orçamento ganhou força depois que Cyrus Nowrasteh contestou publicamente os valores associados a “Dark Horse”. Em uma publicação na rede social X, o diretor reagiu a uma postagem que comparava o custo do longa com o de outras produções de Hollywood feitas com orçamentos menores.
“Os números divulgados para o custo do filme são ridiculamente inflados. Eles incluem custos projetados de marketing para ‘Dark Horse’. Marketing e publicidade para um filme frequentemente excedem os custos de produção. Nos EUA, não combinamos os dois, como fazem no Brasil”, afirmou Nowrasteh.
Diante da repercussão, o cineasta voltou ao assunto no dia seguinte e reiterou que, em sua avaliação, as comparações feitas pela imprensa brasileira estariam colocando lado a lado cifras calculadas de maneiras diferentes.
“Muitos tentaram distorcer meu comentário. Apenas para esclarecer: a comparação de custos que a imprensa brasileira tem feito é falha. Nos EUA, os orçamentos de produção são reportados sem os custos de marketing. A cifra de ‘Dark Horse’, citada na cobertura jornalística, no entanto, já inclui marketing. Comparar uma cifra de produção mais marketing contra custos de produção sozinhos é simplesmente equivocado”, disse.
Produtora contradiz versão sobre marketing
A explicação apresentada por Karina Gama, porém, é diferente. A proprietária da GoUp afirmou à reportagem que aproximadamente US$ 13 milhões já foram gastos com o longa e que essa quantia não contempla despesas de distribuição, divulgação e marketing.
Segundo Karina, os recursos foram utilizados nas etapas de “desenvolvimento, soft pré, pré-produção, filmagem e pós-produção”. A produtora afirmou ainda que serão necessários novos aportes para financiar a distribuição e a divulgação do filme.
A contradição ganha peso diante da investigação sobre a origem e a destinação dos recursos movimentados em torno do projeto. A PF tenta estabelecer quanto dinheiro efetivamente chegou ao longa e de que maneira os valores foram utilizados.
Maior parte dos gastos ocorreu nos Estados Unidos
Outro ponto que chama atenção é a localização das despesas. Embora “Dark Horse” tenha sido inteiramente filmado no Brasil, a maior parte dos gastos ocorreu nos Estados Unidos.
A obtenção de documentos mantidos naquele país também pode representar uma etapa relevante da apuração. Mike Davis, sócio de Karina Gama e responsável pelo braço estadunidense da GoUp, afirmou por e-mail que não autoriza o envio direto às autoridades brasileiras de documentos empresariais armazenados nos Estados Unidos sem a utilização dos mecanismos formais de cooperação jurídica entre os dois países.
“Conforme orientação de nossos advogados nos Estados Unidos, informo que, na minha condição de sócio majoritário da GOUP Entertainment LLC, não autorizo o encaminhamento, às autoridades brasileiras ou a quaisquer terceiros, de documentos societários, contábeis, fiscais, bancários ou contratuais da empresa custodiados nos Estados Unidos sem a estrita observância do devido processo legal norte-americano”, afirmou Davis.
A posição indica que uma eventual obtenção desses documentos pelas autoridades brasileiras poderá depender dos instrumentos formais de cooperação jurídica internacional entre Brasil e Estados Unidos.
PF rastreia US$ 12,3 milhões de Vorcaro
No centro da investigação estão US$ 12,3 milhões repassados por Daniel Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro. A Polícia Federal busca reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro e identificar o quanto efetivamente foi destinado à produção cinematográfica.
Os relatórios do Coaf apontam sete parcelas realizadas entre janeiro e setembro de 2025. A apuração procura determinar se os recursos correspondem aos gastos declarados pelos responsáveis pelo longa e se houve outras destinações.
Nesse contexto, a diferença entre as versões de Nowrasteh e Karina Gama acrescenta uma questão relevante à investigação: qual foi, de fato, o custo de produção de “Dark Horse” e quais despesas estavam incorporadas aos valores apresentados pelos responsáveis pelo projeto.
O esclarecimento dessa discrepância poderá permitir o confronto entre as cifras declaradas, as transferências financeiras identificadas, os contratos firmados e os documentos contábeis relacionados ao longa.
“Dark Horse” tem o ator estadunidense Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. Com a investigação da PF avançando sobre a movimentação financeira relacionada ao projeto, as contas da produção passaram a ocupar o centro das dúvidas sobre o destino dos milhões de dólares associados ao filme.
Fonte: Brasil 247