Daniel Vorcaro, médico-legista do Brasil do andar de cima
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Entre whisky caro, cifras milionárias, ministros, parlamentares e um estranho Cavalo de Troia chamado Dark Horse, o caso Master expõe as entranhas de um poder que cobra moralidade dos pobres enquanto festeja longe deles
Os últimos acontecimentos envolvendo Daniel Vorcaro são reveladores da forma como funciona o Brasil do andar de cima. As revelações envolvem não apenas ministros do STF, mas alcançam também membros estrelados do Congresso Nacional. As cifras arroladas são consideráveis, e a mistura de personagens é de impressionar até quem observa o que acontece nos palácios e tribunais com um mínimo de distanciamento crítico.
Entre as coisas que saltam aos olhos, o que mais me chama a atenção é que todos os purismos e reservas cobrados dos pobres em termos de etiqueta e comportamento não são absolutamente seguidos por quem pode participar de festas luxuosas, regadas a whisky caro e frequentadas por jovens mulheres que certamente sabem o tipo de entretenimento que se espera delas.
O que realmente importa é que muitas das relações e decisões que agora deixam ministros do STF em um emaranhado de situações embaraçosas para quem diz prezar o decoro público eram mais do que conhecidas pela classe política que, não raras vezes, era copartícipe das festinhas — vamos chamá-las assim — que Daniel Vorcaro promovia para atrair os incautos, que depois se tornavam parceiros, tal como moscas são parceiras das aranhas enquanto balançam presas em suas teias.
Mas o que realmente importa para mim é que todos esses acontecimentos burlescos nos ajudam a entender como certas decisões claramente danosas para o país e para a maioria da população são aprovadas pelo Congresso Nacional e depois mantidas pelos tribunais superiores. É muita convergência de interesses para que haja algum desvio do percurso que começa a ser traçado em festas para as quais o povo jamais é chamado a participar.
Uma nota especial deve ser reservada para a situação cada vez mais inexplicável que cerca o filme Dark Horse, que vai se mostrando um verdadeiro Cavalo de Troia para Flávio Bolsonaro. Uma pergunta que tenho visto poucos fazerem é por que Daniel Vorcaro teria interesse em investir pelo menos R$ 61 milhões em um filme cuja marca maior seria trazer para dentro do projeto um ator cuja carreira já vinha em declínio, marcado por suas ligações com a extrema-direita e por escolhas ruins de casting. O que parece transparecer é que Vorcaro não estaria simplesmente apostando no retorno comercial de uma produção cinematográfica, mas mirando o futuro político, principalmente um futuro em que a família Bolsonaro voltasse a comandar o país. Diante do que já veio à tona, essa é a hipótese que me parece mais plausível a esta altura do campeonato.
Por outro lado, toda essa exposição do que agora aparece como as entranhas do poder político confere a Daniel Vorcaro um papel que ele provavelmente jamais almejou: o de uma espécie de médico-legista de um sistema político que está morto em pé. Quanto mais aparecem as relações construídas nos salões reservados, nas festas privadas e nos encontros entre personagens dos poderes político, econômico e judiciário, mais difícil fica sustentar a ficção de que determinadas decisões públicas são tomadas em ambientes impermeáveis aos interesses privados.
O problema agora é reconhecer que já passou da hora de ficarmos escolhendo entre o mal menor. É preciso assumir uma postura ativa em defesa da construção de uma nova ordem política em que esse tipo de festa de arromba se torne impossível, não por alguma súbita conversão moral daqueles que frequentam o andar de cima, mas pela postura ativa da maioria pobre e trabalhadora que, afinal, é quem produz a riqueza que torna este país um dos mais ricos do planeta.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.
Fonte: Blog do Pedlowski
