Da Redação | O jornalismo que não deixa esquecer
Por Jessica Santos — Ponte
Entre você e a realidade
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Estamos em meio a um dos pleitos eleitorais mais tensos dos últimos anos. Bem, é verdade que, pelo menos desde 2014, cada eleição se torna fruto de mais ansiedade e temor diante dos atores que têm aparecido no palco da política institucional. Mas 2026 se desenha com mais preocupação do que certezas. Ainda assim, vemos o de sempre: poderosos se atacam e denunciam esquemas uns dos outros em rede nacional. Prometem mundos incríveis a um público cada vez menos impressionável e, ainda assim, há nomes que se repetem nas cadeiras do poder há décadas, há séculos.
A História, enquanto disciplina, tem como motor tradicional uma versão vertical dos fatos. Chamamos de históricas decisões feitas em gabinetes ou em campos de batalha por figuras que vão virar nome de rua, praça e até cidade. A perspectiva que fica mais pública sempre é de “grandes líderes”, “estrategistas brilhantes”, geralmente homens e brancos.
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Francisco Gomes é um nome que você não verá em um obituário na televisão. Nenhum governo decretou luto por sua morte. Ele não vai virar nome de rua nem de viaduto. Para usar um termo da professora Rosane Borges, seu Francisco habitava “as bordas do mundo”, onde as grandes decisões são registradas na pele, no corpo e na vida do povo comum. É o lugar de quem não chega aos anais da História.
Um fato registrado nesta História marcou a vida de Francisco e da família dele para sempre. Maio de 2006: ataques do PCC para uns, Crimes de Maio para nós. Para ele, foram os dias em que o filho, Paulo Alexandre Gomes, então com 23 anos, passou a ser dado como desaparecido, em um caso no qual se suspeita que o jovem tenha sido sequestrado e morto por policiais militares das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).
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Junto com Paulo Alexandre, centenas de filhos inominados pelo poder público e pela História foram tombados. Nomes não ditos, não reparados, não registrados. Sabemos os governadores, os secretários e servidores, mas seus nomes não figuram juntos de forma pública.
Entretanto, aqui, na Ponte, nosso primeiro olhar é para os Franciscos, as Déboras, as Zildas e as histórias dos nomes que a História nunca registrará de forma igualitária. Cada pessoa perdida para a violência do Estado é um golpe na dita democracia, sem que haja reação parecida com golpes “formais”. Uma parte expressiva do status quo que ajudamos a eleger não se manifesta, não se indigna, não acolhe. Diante disso, olhar para as pessoas e para como suas vidas são impactadas por decisões tomadas nos gabinetes é contar uma outra história, uma narrativa na qual a democracia é um cobertor curto demais para uma grande parcela.
Dizer os nomes e registrar todas as vidas, inclusive as que tentam apagar, torna-se então trabalho de um jornalismo teimoso que não deixa esquecer. O tipo chato, o tipo que incomoda quem está “deitado eternamente” em cargo esplêndido a cada quatro, oito ou mais anos. O tipo que segue a história das pessoas. Ao longo dos anos, acompanhamos a família Gomes em sua batalha para descobrir o que aconteceu com Paulo Alexandre. Acompanhamos a filha de seu Francisco e uma das integrantes das Mães de Maio, Francilene, torna-se doutora na academia. Nós a ouvimos quando ela quis falar. E nos despedimos de ambos.
Fiamos os fatos para tecer a história de quem vive e produz luta nas “bordas do mundo”, trazendo referência novamente à querida Rosane. E é preciso dizer que este local não é homogêneo. Aqui e acolá há quem fuja do caminhar bovino que os poderosos desejam. É nas franjas do mundo que se produz resistência e tenacidade a partir do desafio diário ao status quo e do entendimento da vida como ferramenta de fazer uma outra política.
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As pessoas e suas histórias importam para a Ponte — e muito! É a partir delas que narramos como as decisões — ou sua ausência — do mundo político e jurídico chegam às margens. São os movimentos obstinados e inconformados das pessoas e as respostas ousadas que produzem o que nós registramos em nosso fazer jornalístico. Produzimos, assim, uma narrativa histórica feita por outras mãos, parafraseando o livro de Maria Beatriz Nascimento: uma história em que seu Francisco não foi um figurante amorfo, mas o protagonista de uma resposta coletiva aos eleitos pela urna e a uma democracia incompleta.
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Fonte: Ponte