Da Redação | Celebrar mortes também é parte da violência

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Por Jessica Santos — Ponte

Entre você e a realidade

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A publicação no Instagram de uma reportagem da Ponte, na semana passada, sobre as mortes de Bruno Augusto de Oliveira Ferraz, de 20 anos, e Mateus Marcondes Mizael, de 17, cometidas por policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), em Limeira (SP), expôs, uma vez mais, que há uma parcela da sociedade que despreza a vida em detrimento da propriedade. E, há quem defenda a lógica de matar como forma de evitar que a Justiça solte aqueles que considera criminosos. Um argumento que, por vezes, é defendido pelos próprios policiais. “A gente prende e eles soltam”, lamentam.

Existe uma tranquilidade enorme em defender que a polícia mate, embora a pena de morte não faça parte do ordenamento jurídico brasileiro e embora não caiba à Polícia Militar determinar culpa e aplicar pena. A Constituição garante o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Quando a morte passa a ser defendida como forma legítima de punição por integrantes das forças de segurança ou representantes do poder público, essa lógica colide com garantias fundamentais previstas na própria Constituição.

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No caso de Limeira, as imagens obtidas pela Ponte levantam dúvidas importantes sobre a versão apresentada pelos policiais, como ocorre em diversas das nossas apurações sobre letalidade policial. Mateus aparece abrindo devagar a porta do carro, com um dos braços levantado, quando começam a ser ouvidos disparos. O vídeo não permite identificar de onde partiram os tiros nem determinar se os jovens estavam armados. Segundo a versão policial, os dois jovens reagiram à abordagem com armas. As famílias contestam o relato e denunciam uma execução. 

Ainda assim, basta que uma pessoa seja abordada ou morta pela polícia para que parte do debate público lhe atribua imediatamente a condição de criminosa. A presunção deixa de ser de inocência e passa a ser de culpa. Se a pessoa tiver uma “aparência de bandido” ou morar em determinada região, a condenação pode ser ainda mais automática. A versão policial é tomada como sentença antes mesmo da conclusão da investigação. Nesse discurso, o agente que mata passa a ser tratado como herói.

A naturalização da morte também se alimenta da expectativa de baixa responsabilização. Em 12 anos de cobertura, a Ponte Jornalismo acompanhou repetidamente famílias, lideradas sobretudo por mulheres, que precisaram se colocar na linha de frente para cobrar investigação e responsabilização após mortes provocadas por agentes do Estado. Algumas estão há décadas neste front inglório. No próprio caso de Limeira, as mães relatam medo de represálias enquanto procuram respostas sobre as mortes dos filhos.

Há razões concretas para esse medo, e os números ajudam a dimensioná-las. Um levantamento realizado pela advogada e pesquisadora Débora Nachmanowicz aponta que menos de 2% das investigações concluídas sobre mortes envolvendo policiais militares entre 2015 e 2020 na cidade de São Paulo resultaram em condenação por júri popular. Foram 20 casos diante de um universo de 1.224.

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A reação à reportagem sobre as mortes em Limeira expôs outra camada. Entre os comentários publicados nas redes sociais, houve elogios ao BAEP e ao governo paulista pelas mortes, pedidos para que mais pessoas sejam mortas e ataques às famílias. Em diversas mensagens, a justificativa se repetia: seria necessário matar mais porque roubos e violência estariam aumentando.

Os dados não sustentam essa afirmação. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o total de roubos registrados no estado de São Paulo caiu de 225.354 ocorrências em 2024 para 186.334 em 2025, redução de 17,5%. Os roubos a transeuntes caíram 21,4%, de 29.936 para 23.578 no mesmo período. No Brasil, os roubos de celular diminuíram 18,6% em 2025.

Isso não significa negar a existência do crime ou a sensação de insegurança. São Paulo continua concentrando um volume expressivo de crimes patrimoniais. Significa apenas que medo e percepção não podem substituir dados — muito menos servir como autorização para que a morte seja apresentada como política de segurança.

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Há algo profundamente perturbador quando uma morte deixa de provocar perguntas e passa a provocar comemoração.

Nem mesmo a comprovação de um crime transforma a execução de uma pessoa em resposta legítima. A função da Polícia Militar não é antecipar uma condenação nem substituir investigação, perícia, Ministério Público e Judiciário. Legalmente, o Estado dispõe do poder de usar a força justamente porque esse poder deve estar submetido a limites, protocolos, controle e responsabilização.

Quando esses limites deixam de importar, a discussão deixa de ser sobre combate ao crime e passa a ser sobre quais vidas podem ser descartadas.

Esse processo também cria uma inversão conveniente. A morte passa a ser tratada como evidência de eficiência policial: se alguém morreu, presume-se que havia razão para matá-lo. A família que questiona passa a ser vista com desconfiança; quem pede investigação é acusado de “defender bandido”; e qualquer elemento que coloque a versão oficial em dúvida é recebido como ataque à polícia.

É sempre mais cômodo aceitar uma história pronta do que admitir que agentes do Estado também precisam ser investigados e responsabilizados. Fiscalização não é antagonismo à segurança pública. Exigir que uma morte provocada pelo Estado seja esclarecida é justamente exigir que instituições públicas funcionem dentro da lei.

O problema se torna ainda mais grave porque a normalização dessas mortes ocorre em um cenário de elevada letalidade policial, inclusive de crianças e adolescentes. Em julho de 2026, São Paulo registrou 66 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número para o mês desde 2019. Elas corresponderam a 27% do número de homicídios dolosos registrados no estado naquele mês.

Não há vitória coletiva em uma sociedade que responde a mortes com aplausos. Não há segurança na ideia de que agentes públicos possam decidir, em segundos e sem direito de defesa, quem merece continuar vivo. E não há humanidade em transformar corpos em placar de eficiência.

Uma sociedade pode e deve cobrar políticas de segurança eficientes. Pode cobrar investigação, prevenção, inteligência e responsabilização de quem comete crimes. O que não deveria ser naturalizado é a ideia de que segurança pública se mede pela quantidade de pessoas mortas.

Quando a morte de alguém passa a ser motivo de comemoração, alguma coisa muito mais profunda do que a segurança pública já foi perdida.

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Fonte: Ponte

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